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De como Anchieta foi ao sertão em busca de uns homens alevantados (revoltados)

Padre José de Anchieta escrevendo seus poemas na areia da praia

Como a caridade do Pe. José era universal, não se contentava com acudir aos Índios, mas a toda a necessidade de seus próximos, se estendia tanto no espiritual como no corporal. Havia na capitania de São Vicente uns mestiços ou mamelucos, refugiados com medo do castigo por algumas graves culpas, que tinham cometidas e que se acolheram ao sertão com mulheres, filhos e mais família. Eram eles homens valentões, muito bons nas línguas indígenas e de consciência mui rotas e estragadas. Por causa disso se temia que apelidassem [convocassem] o gentio e viessem a destruir a vila São Vicente e as mais povoações de portugueses. Vendo isto o Pe. José, e que não havia força humanas para estorvar estes males, doendo-se juntamente da perdição de suas almas, se ofereceu a os ir buscar e trazer, levando para isto os perdões gerais [o perdão dos malfeitos] do passado.

Foi com ele o Pe. Vicente Rodrigues e não sei quantos outros homens. E como Deus em sua infinita sabedoria sabia o que no caminho lhes havia de acontecer, proveu logo de remédio, movendo um índio que se fosse com eles tendo-lhe nascido aquele dia um filho, que é tempo em que eles, por nenhum motivo saem de suas casas, e isso foi muito mau agouro. Mas por tudo isso rompeu [decidiu] movido pelo que só podia mover-lhes a vontade, como senhor absoluto dela. Tendo pois andado oito jornadas, indo por um rio abaixo numa canoa de casca, chegando perto de uma cachoeira ou salto grande - que faz a água - a canoa com a força da corrente caio por ela e nunca mais apareceu, nem coisa que fosse nela. Nesse tempo iam os Padres rezando as horas de Nossa Senhora da Conceição, mas para maior glória sua, foi servida dar-lhes este trabalho. Todos foram ao fundo, que seria da altura de quatro ou cinco braças, mas todos saíram a nado. Só o Pe. José não aparecia.

Andou este índio de que acima falei muito tempo debaixo da água, e não o achando se veio para cima a tomar fôlego e a descansar. Mas não lhe sofrendo o coração que o Padre ficasse ali sem saber de que era feito dele, tornou com grande esforço a mergulhar e, o Senhor teve por bem, que depois de bom espaço de tempo deu com ele no fundo, pegou-lhe do fato (pela roupa) e trouxe-o para cima vivo e são.

A alegria que Deus a todos deu com este bom sucesso foi bastante para temperar a tristeza passada. O padre enquanto esteve no fundo não perdeu o sentido, antes se guardou de beber água, e sempre chamou por Santa Maria e Jesus. Estava tanto em seu acordo [acordado] que não se aferrou com o índio, porque não sucedesse afogarem-se ambos, - como às vezes acontece -, mas deixou-se levar por onde ele o aferrara.

Não se acabaram aqui os trabalhos deste dia, porque era já noite e chovia e achavam-se nuns matos muitos espessos, sem roupa para mudar, nem mantimento para comer, nem fogo para se remediar, nem uma choupana onde de meter, nem caminho que pudessem seguir. Mas, como Deus - ainda que prove seus servos - todavia não os desampara nas tribulações, assim às apalpadelas foram dar nas casas daqueles homens que iam buscar, os quais vendo os Nossos daquela feições, de tal maneira se lhes moveu o coração que se lançaram aos pés dos Padres, dizendo: "Ainda bem que os nossos pecados abrangeram [motivaram] a Vossas Reverências!", e, provendo-os de todo o necessário, os agasalharam com muita benignidade e caridade. E logo resolveram vir com ele, como de fato vieram, posto que um deles no caminho começou a arrepender-se. Mas, a muita brandura do padre e grande paciência - ajudando o Senhor - foi bastante para que eles chegassem a salvamento em São Vicente. Por estas coisas e outras era o padre sumamente amado, como verdadeiro pai de todos e por tal era tido e reverenciado assim pelos índios como pelos portugueses.

 

Fonte: Anchieta: um santo desconhecido? – 2014
Organização: Padre Illário Govoni
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2020
Onde comprar o livro: Santuário de Anchieta, Anchieta/ES ou Marques Editora, Belém-PA

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