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Epílogo da invasão de Thomas Cavendish (8ª e última Parte)

Thomas Cavendish

Como decorrência da apreciação analítica da passagem de Cavendish pelo Brasil quinhentista, dirimir-se-ão algumas dúvidas; velhas certezas poderão ser questionadas:

A)  Estimando-se em sessenta dias o tempo de permanência da frota de Cavendish na Capitania de São Vicente (Cartas Jesuíticas 3 – Anchieta) e notas de Varnhagen (História Geral do Brasil – Vl. I – Tomo segundo, pgs. 83 e 84) e seu rápido retorno ao Estreito de Magalhães; conclui-se que as quatro embarcações citadas por Cavendish (“Victor”, “Roebuck”, “Desire” e “Davis”), participaram do assalto de 25 de dezembro de 1591, à vila de Santos.

 

Do ataque a uma fazenda, nas imediações de São Vicente, em fevereiro de 1592, participou apenas a “Victor” pois, das outras três, duas (a “Desire” e a “Davis”) desgarraram-se durante uma tempestade no Estreito de Magalhães e a “Roebuck” estava desaparecida após uma tormenta, ocorrida no litoral sul do Brasil.

A “Roebuck” reapareceu após sete dias, avariada e despida de velas e mastros.

Ambas participaram do ataque à baía de Vitória (Barra do Espírito Santo), em 08 de fevereiro de 1592.

 

B) Das narrativas subsidiárias à documentação de época, constata-se que o historiador Misael Pena citou, corretamente, a escuna “Roebuck”, como participante da refrega, na baía de Vitória, porém, apontou o capitão Morgan, como seu comandante. Morgan comandava, apenas, as tropas destacadas para o desembarque e o combate em terra. As narrativas de Misael Pena e de Bazílio Daemon coincidem em diversos trechos, com os termos empregados por Cavendish, em sua carta-depoimento e fazem supor tenham tido, pelo menos em parte, conhecimento do conteúdo da aludida missiva.

C) O piloto português que serviu de guia para a frota de Cavendish, até a barra do Espírito Santo contrariamente às afirmativas dos autores de língua portuguesa, não sofreu o tão propalado enforcamento nas mãos dos ingleses. Segundo as palavras do comandante inglês, o piloto luso nem sequer enfrentou outros padecimentos diferentes de uma imerecida surra de chibata (“que lhe arrancou muita pele e sangue”) em satisfação ao descontentamento dos marujos, ante as falhas na execução da sondagem do canal de tráfego marítimo até o porto de Vitória, realizada por alguns desavisados companheiros.

D)  A anunciada morte de Thomas Cavendish em pleno mar, nas costas de Pernambuco, a exemplo do ”enforcamento” do piloto luso, também constituiu unanimidade entre os historiadores de língua portuguesa. Sua origem parece dever-se a encadeamento lógico de estranhas constatações, cujo elo inicial situa-se na baía de Vitória, imediatamente após o combate de 08 de fevereiro de1592. A carta de Cavendish propicia a formulação do seguinte raciocínio: na contabilização dos ingleses tombados na baía de Vitória, o capitão Morgan encabeça a lista, seguido, quem sabe, de outros oficiais, pois os marujos lançaram ao mar tudo o que pudesse estorvar-lhes a retirada, sem poupar sem mesmo os cadáveres dos próprios companheiros. Após essa frustrada tentativa de desembarque, apenas a escuna de Cavendish – a “Victor” – alcançou a Ilha Grande e disso os portugueses tiveram conhecimento, porém, não puderam constatar a presença do comandante.

Ao aportar na Ilha da Madeira – território português – o comando da “Victor” já havia mudado de mãos e Cavendish permanecia trancafiado no porão, incomunicável, ocupando o compartimento reservado ao transporte de eqüinos.

Durante o temo de permanência em território português, somente o capitão Jonathan Harris e alguns subordinados entraram em contato com os negociantes judeus, tentando adquirir novas velas e outros apetrechos náuticos.

Thomas Cavendish (nascido na Inglaterra, no Condado de Suffolk, em 1555), era, aos trinta e seis anos, um “velho-lobo-do-mar”, bastante conhecido através dos seus feitos náuticos, entre os quais se incluía a terceira viagem de circunavegação ao globo terrestre, realizada entre 1586/1588. Sua ausência, aos olhos dos portugueses, deverá, por certo, ter fundamentado a presunção de sua morte. Como não puderam dispor de dados objetivos para comprová-la materialmente, pelo encontro do seu corpo inerte, presumiram que tivesse morrido no mar (ralado pelos remorsos, segundo o Visconde de Porto Seguro, ou ralado de desgostos, de acordo com Misael Pena)

A vigência do estado de guerra e o fracasso da missão corsária de Cavendish acumpliciaram-se, a fim de eternizarem uma simples falha de observação, dotada, no entanto, de suficiente fôlego, capaz de fazê-la atravessar os séculos e inserir-se, como verdade, na história do Brasil.

 

 

Autor:Zoel Correia da Fonseca
Fonte: Textos de História Militar do Espírito Santo – Coleção João Bonino Moreira – vol. 3
Compilação por: Getúlio Marcos Pereira Neves. Vitória, 2008.

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