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Porque a Revolução – Por Eurico Rezende

João Goulart e o seu cunhado Leonel Brizola

O Movimento de Março, como acentuei na Introdução deste livro, correspondeu ao interesse nacional superlativamente agredido. É necessário, sobretudo às novas gerações, o estudo dos acontecimentos daquela distante e amargurada época.

Imperiosa se torna a invoção penosa do quadro de desolação e de medo-pânico, que se descortinava ao longo de 1963, perante as frentes de nosso trabalho e diante do estarrecimento e da revolta impotente de nossos espíritos.

A renúncia sem grandeza de um Presidente que era, no pessimismo que enfermava a Nação, como que a derradeira esperança; a sabotada e vilipendiada experiência parlamentarista; o retorno ao presidencialismo, empós premeditado e corruptivo trabalho de intoxicação popular; a marcha estugante para o caos econômico-financeiro, oficialmente confessada e demonstrada na substituição de seis Ministros da Fazenda em apenas um ano; a corrida inflacionária, com todas as suas implicações subversivas, já atingindo os últimos paroxismos do perigo e as cercanias do desastre final e da letalidade do equilíbrio social; o impacto do negativismo do "zero" sinistro assolando o Produto Bruto Nacional; o ingresso do capital estrangeiro decrescendo de modo galopante e com justificada perspectiva de desaparecimento total; a queda vertiginosa dos índices agropecuários; o declínio acelerado dos produtos de alimentação; a redução vigorosa da taxa de crescimento das matérias-primas destinadas à indústria; o decesso na pauta de exportações, acusando déficit superior a oitenta milhões de dólares; a virulência das campanhas de exasperação ideológica nas comunidades urbanas e rurais; o desmantelamento das nossas redes de transporte de grandes massas, notadamente o ferroviário e o marítimo; o locupletamento e a profissionalização do sindicalismo por minorias aguerridas e qualificadamente preparadas na propagação dos desígnios de um nacionalismo de importação; o aliciamento para a luta operária, orientada e dinamizada por órgãos espúrios a mobilização dos setores culturais na preparação da guerra revolucionária; os toques permanentes no acirramento da tensão emocional; o uso constante e a propaganda da motivação deletéria erigida no regime de Cuba, sob a capa de defesa dos princípios da autodeterminação e da não intervenção, mas na realidade com o objetivo de atrair a sua expansão criminosa; a cruzada da calúnia, da injúria da difamação e do ódio contra os valores da civilização ocidental na agressão passional aos arsenais da democracia e da liberdade; o desespero delinquente do cunhadio estentório e carbonário, ante a barreira constitucional da inelegibilidade, visando a alcançar o poder pela maldição da violência; a abdicação, quase sempre consciente, por parte do Chefe do Governo, das prerrogativas e dos deveres da magistratura, preferindo proceder como comandante e usuário de partido, ao revés de exercer a isenta liderança institucional do País, na obsessão em favor apenas dos dividendos políticos e dos investimentos eleitorais, colhidos na diluição da autoridade e à custa da baderna das ruas e da agitação dos campos a tentativa de desmoralização das Forças Armadas, pelo ultrage à sua coesão e pelo dessangramento do seu intocável patrimônio disciplinar, procurando, através das pressões da tropa alucinada desviá-las da vigilante missão constitucional — todos esses fatos e circunstâncias atestavam, de modo inequívoco, que estávamos diante de um processo de decomposição nacional, em sua etapa celeremente conclusiva.

Estas, em resumo as, razões que determinaram a eclosão revolucionária, com o apoio integral da sociedade brasileira.

 

Fonte: Memórias – Eurico Rezende– Senado Federal, 1988
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2018

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