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A trajetória musical de Tina Tironi

Tina Tironi, talento capixaba em música e letra

Nascido em 1946, Marco Antônio Tironi viveu até os cinco anos de idade em Paul, município de Vila Velha — Espírito Santo, para depois residir em Vitória (Centro). Ainda adolescente, a linguagem infantil de seus irmãos lhe deu o apelido de Tina. Hoje, é conhecido socialmente como Tina Tironi.

Desde criança, o pequeno Tina já expressava seu desejo pela arte. Sonhava em ser um grande artista plástico. Com a adolescência, começou a fazer versos e a tocar violão, que aprendeu com seus irmãos. Logo, o desejo pela arte musical mostrou sua força. Reunidos, Tina Tironi, Chico Lessa, Evandro (irmão de Tina), José Floriano (Nenes) e José Humberto (Bingo), formaram o conjunto Les Enfants, que na sua formação original ainda contava com José Fernando (primo de Evandro e Tina), já falecido.

Em 1967, o Les Enfants, depois de tornar-se um sucesso estrondoso em Vitória e em todo o Estado, foi para o Rio de Janeiro tentar uma carreira nacional como conjunto de rock, aproveitando a onda da Jovem Guarda. O grupo chegou a se apresentar na marquise das Lojas Sears, em Botafogo, mas o projeto de ascensão acabou inviabilizado, segundo Tina, porque o Rio de Janeiro estava saturado de conjuntos musicais. Com isso, o Les Enfants se desfez. Nessa época, Chico Lessa e Tina Tironi fizeram Meio Mastro (música de Chico e letra de Tina), composta, juntamente com outras da dupla, na Lapa, tradicional bairro boêmio do Rio de Janeiro.

Ao retornar a Vitória um ano depois (1968), Milson Henriques organizava o I Festival Capixaba de Música Popular Brasileira. Chico e Tina concorreram com Meio Mastro, cuja letra, no estribilho, incluía os versos "... na avenida a bandeira/ meio mastro desceu/ samba hoje a saudade/ no lugar que foi seu..."

Defendida por Aprício Lyrio, a música acabou como a grande vencedora do FCMPB, realizado no Ginásio Wilson Freitas. Segundo Tina, Meio Mastro é uma homenagem que se faz colocando a bandeira a meio pau sempre que morre uma pessoa importante. A música até hoje é cantada com freqüência por pessoas que assistiram ao Festival (0 Ginásio Wilson Freitas ficou superlotado na grande final) ou acompanharam suas eliminatórias realizadas ao vivo no estúdio da TV Vitória. Musicalmente separado de Chico Lessa, Tina Tironi precisava compor suas músicas. Para isso, não tem preferência por compositores ou estilos, sendo sensível a tudo que vê e ouve. "Um fato, uma conversa, uma música. Tudo é guardado com uma certa emoção", diz ele. Tina faz sambas, boleros, tangos e rock. Para ele, a música vem de estalo, na cabeça. Por isso, não tem uma forma musical definida. Caminhada, por exemplo (letra de Antônio Aquino), venceu o I Festival Universitário Capixaba de Música Popular Brasileira, realizado no Ginásio do Sesc, em 1968. A música foi defendida por Virgínia Klinger, ficando em segundo lugar. Depois do Carnaval, música de Chico Lessa; Tempo de Chegar, (terceiro lugar no II Festival Capixaba de Música Brasileira), letra de Antônio Aquino; e Poente, da mesma dupla, classificada em terceiro lugar no II Festival Universitário, são outras composições de Tina.

Com mais ou menos quarenta músicas feitas e várias classificadas nos primeiros lugares dos festivais realizados em Vitória no final da década de 60, além de outros em Cachoeiro, Colatina e Monlevade (Minas Gerais), Tina Tironi tem três de suas músicas incluídas no LP Waleska com Amor, da cantora capixaba Waleska, lançado pelo selo Copacabana em 1985, além de Manoela, gravada por Uranode Souza (também autor da letra). Após a parceria com Chico Lessa, Antônio Aquino, Paulo Bragança e Jorginho Saadi, Tina atualmente está compondo sozinho, por causa de dificuldades em manter-se em contato permanente com seus antigos parceiros, muitos envolvidos em outras atividades, como ele próprio. Casado com Vania Sarlo Tironi, Tina hoje divide seu tempo entre as atividades de pai e médico, mas sempre sobra um tempo para compor, como para curtir sua coleção de revistas em quadrinhos. Quanto ao "tempo dos festivais", via neles alguma coisa transformadora, numa época de ouro, com todos os eventos realizados sendo prestigiado pela sociedade capixaba, que comparecia com torcidas organizadas incentivando os artistas da cidade. Mesmo assim, Tina acha que ainda hoje a vida cultural capixaba está boa, com várias aberturas de espaço para os artistas e também a realização de muitos eventos, entre peças de teatro, exposições e shows. Ele ainda acalenta um sonho cultivado desde os anos 60: a realização de um festival regional com a final promovida em Vitória. As músicas classificadas seriam reunidas num disco com distribuição nacional. "Nesse caso, o Espírito Santo estaria vendendo a sua música, o quereria uma beleza", conclui.

 

MEIO MASTRO

Hoje, lá no morro

A escola desceu sem você

Não há mais o repique do samba

A cadência inspirada ao lhe ver

Eu sei é carnaval

mas lá em cima a tristeza

não vê

que a gente

passa um ano

esperando nascer

três dias de alegria

só não restaram por causa de você

Na avenida bandeira

meio mastro desceu

Samba hoje a saudade

no lugar que foi seu

Se quem canta soubesse

o que foi que perdeu

ficaria em silêncio

a chorar por você

 

Esta matéria foi feita com base em depoimento prestado por Tina Tironi a Júlio Henrique para o projeto Resgate da Memória Fonográfica Capixaba, desenvolvida pela Divisão de Memória do Departamento Estadual de Cultura.
Fonte: Painel – Informativo Cultural, maio-junho/1989, Departamento Estadual de Cultura – Ano III – nº 05
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2016

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