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Motivações do Donatário

Vasco Fernandes Coutinho, primeiro Donatário da Capitania do ES - A chegada

Vários motivos podem ter impulsionado Vasco F. Coutinho a aceitar a missão que o rei lhe estabelecera.

Como milhões de outros homens que viveram este momento histórico repleto de viagens “em mares nunca dantes navegados” e de “descobrimentos” de terras fartas em ouro e prata, o desejo de enriquecimento rápido deve ter sido uma forte motivação para o nosso donatário. Embora Fernandes Coutinho já possuísse patrimônio imobiliário e rendas consideráveis, a posse de terras e o acúmulo de metais preciosos eram símbolos de prestígio e influência.

Na etapa inicial da era Moderna, vivia-se uma época de transição histórica em que paradigmas econômicos, sociais e mentais estavam em processo de mutação. A mentalidade do europeu estava marcada tanto por valores feudais, medievais, que estabelecem a riqueza fundiária como importante indicador de poder, quanto pelas práticas mercantis, modernas, onde prevalecem as riquezas metálicas. Dessa forma, é provável que o Capitão Coutinho tivesse esperanças de realmente encontrar jazidas de ouro e prata em suas terras americanas – indícios para isso não faltavam. Em 1534, no exato momento em que recebeu a Carta de Doação das mãos do rei português, galeões espanhóis abarrotados de metais preciosos zarpavam da América e cruzavam o Atlântico com destino à Europa – o nosso capitão-donatário propõe-se a fazer a trajetória inversa, com o objetivo de poder imitar o gesto hispânico.

Além desses interesses materiais, talvez Vasco Fernandes Coutinho estivesse interessado em dar sua contribuição para a expansão do cristianismo católico, revestindo sua expedição com o espírito de uma visão histórica centrada na própria Europa, considerava-se a cultura européia superior à de todas as outras civilizações encontradas no além-mar.

Há uma possibilidade que não devemos descartar: acostumado a servir ao rei em lugares distantes, essa seria, para o donatário Coutinho, apenas mais uma dentre as inúmeras tarefas cumpridas em nome do seu soberano absolutista. É verdade, também, que seria a mais arriscada, porque estaria em jogo toda a sua fortuna.

Finalmente, há de se levar em conta, até mesmo, o ímpeto aventureiro que move grande parte dos seres humanos, a saber, o desejo de sair da rotina, de virar celebridade, de sentir-se participante de algo grandioso e – como se costume dizer popularmente – “fazer história”.
Todas essas possibilidades juntas, ou uma mescla de cada uma delas, poder ter lançado Vasco Fernandes Coutinho rumo ao desconhecido, mesmo havendo perigos reais e imaginários a combater. No emaranhado de suposições que procuram explicar a vinda dele para o Brasil, todavia, uma, em particular, parece-nos absurda, sem qualquer sentido ou sustentação nos fatos históricos. Anos depois de iniciada a colonização, inimigos do capitão Coutinho, liderados por Duarte Coelho – desafeto e ex-sesmeiro em terras capixabas -, tiveram a insensatez de acusá-lo de traição ao rei. Supostamente, quando partiu de Portugal para tomar posse de seu lote, em 1534, Vasco Fernandes já planejava implantar, na Capitania do Espírito Santo, um “principado independente” – estava, portanto, mal-intencionado. A hipótese de formação de um “reino vascaíno” em terras brasileiras só chegou ao conhecimento do rei português em 1550, mas, ao que tudo indica, sua majestade não deu ouvidos ao jogo de intrigas que se armou contra o donatário espírito-santense.

Na verdade, se formos confiar na descrição do historiador Adolfo de Varnhagen, no livro História Geral do Brasil, Vasco Fernandes Coutinho era “(...) o típico cavaleiro renascentista, leal, fiel e dedicado (...)”. Nessa perspectiva, poderíamos dizer que o nosso colonizador era uma espécie de D. Quixote de la Mancha, que, lutando incansavelmente por seus sonhos, deixou de viver quando parou de sonhar. A história, sabemos, não é ficção literária e, certamente, reservou para ele final menos romântico... 

 

Fonte: HISTÓRIA DO ESPÍRITO SANTO - Uma abordagem didática e atualizada 1535-2002
Autor: José P. Schayder

Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2013

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