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A casa azulejada da Serra e os Barboza Leão – Por Elmo Elton

Elmo Elton Santos Zamprogno

Da antiga Vila de Nossa Senhora da Conceição da Serra pouca coisa resta que possa lembrar-lhe a feição que exibiu nos tempos coloniais e do império, quando exercia influência e autoridade sobre boa porção do Espírito Santo dessas épocas.

Inútil procurar remanescentes importantes da arquitetura, da urbanização, do mobiliário dos séculos anteriores ao XIX, mesmo aqueles de origem religiosa, habitualmente os mais freqüentes em outras regiões antigas do país. Quase tudo substituído por novidades, vendido, reformado, demolido.

A última grande e lamentável baixa ocorreu recentemente com o incêndio que consumiu a residência, de fachada azulejada da família Barbosa Leão.

Exemplar único dessa natureza existente em todo o território capixaba, o desaparecimento desse documento arquitetônico constitui perda irreparável para nossa memória. Todos nós ficamos mais tristes, porque, sem deixar vestígios de nossa passagem, quem se lembrará de nós?

Já tivemos oportunidade de apreciar, em cidades do Espírito Santo, duas casas com fachadas revestidas de azulejos portugueses. Apenas duas. Uma delas situava-se bem no centro de Guarapari. Foi demolida, recentemente. A outra, ainda de pé, embora mal conservada, pode ser vista na vizinha cidade da Serra, à rua Major Piçarra, nº 245.

Essa rua, por muito tempo, se chamou Senador Nabuco. A casa, vista de frente, não tem janelas, mas três portas protegidas por empanadas. Os azulejos trazem estamparia em azul sobre fundo branco. O telhado, de telhas canal, se conserva intacto. Foi construída em 1873, para que nela nascesse Grata da Conceição Barbosa Leão. O nascimento festejadíssimo, ocorreu a 31 de outubro daquele ano. O proprietário, Luiz Barbosa Leão, era casado com Vitória Maria do Sacramento Leão. Essa casa, de altas portas internas, teto forrado, não chegou, contudo, a ser residência do casal, servindo, apenas, após nascida Grata da Conceição, de hospedaria a amigos da família: padres, políticos, cometas, representantes de firmas comerciais tanto de Vitória como da Corte.

A Serra, dada a prosperidade advinda de suas lavouras de café, também de seus canaviais, despertava o interesse de muitos. O comércio era ativo. A sociedade local, sempre vivamente interessada em tudo que dissesse respeito à igreja, à música, às letras, mormente à política, gostava de mostrar-se aos de fora, de exibir seus atributos, suas tradições de hospitalidade.

A Serra era então cognominada, pelo número de seus escritores e artistas, a Atenas espírito-santense. Foi, assim, que Luiz Barbosa Leão cuidou de requintar a casa nova, mobiliando a sala de visitas com móveis Luiz Felipe, talhados em mogno, mesa central e consolos com tampos de mármore polido, sofá e, doze cadeiras de carretilhas com assento de palhinha. Ainda nessa ampla sala, em cujas paredes laterias foram pintadas paisagens com árvores e pássaros sobre barra a óleo imitando madeira, estava, artisticamente emoldurados, os retratos de família, bem como um grande espelho veneziano. Jarras, lampiões de procedência belga, tudo da melhor opalina, se distribuíam pelos móveis. O tapete de chão, enorme e belo trazia, a figura de um leão, tecido em amarelo-ouro, com vaidosa referência ao próprio nome da família: - os Barbosa Leão.

Na sala de jantar, ligada à de visitas por corredor à direita, figuravam comprida mesa, dois altos armários, um louceiro, além de cadeiras e bancos. Os armários serviam para guardar finos cristais, a prataria da casa (aparelhos de café, de chá, bandejas, paliteiros etc.), sendo que, no louceiro ficavam os jogos de louça inglesa, em azul borrão, completos. Os dunquerques aparavam castiçais de prata, protegidos por donzelas de cristal lavrado. Também de prata,  as espevitadeiras. Nos dois quartos, os únicos existentes na casa, o mobiliário, embora mais modesto, era de jacarandá rosa (marquesas e cômodas), arcas e baús de vinhático, as paredes forradas de papel francês, cada quarto com forração de cor diferente conforme uso de então. Também nesses dois quartos se viam à parede estampas de santos,  em caixilhos de cedro. O sótão, outra dependência do imóvel, às vezes servia de dormitório, sendo que ali, aproveitando a boa ventilação e claridade, a dona e filhas da casa costuravam em máquinas de mão. A casa azulejada ou a casa nova, como era chamada, não tinha cozinha nem banheiro.

A cozinha e banheiro, hoje já existem e foram adaptados bem depois, já neste século. Os· hóspedes se banhavam em bacias de ferro, muito usadas, e usavam urinóis de fabricação alemã. No fundo do quintal havia o que chamavam de casinha, exígua dependência de madeira com teto de zinco, onde eram despejadas, em fossa, sob camadas de cal, fezes e urina. A casa nova destinando-se apenas, como dissemos, a hóspedes e viajantes (a Serra não tinha hotéis), comunicava-se internamente, através de uma porta, com uma outra casa, onde, de fato, residia a família. Dessa segunda casa, à direita parede colada à da primeira, em plano pouco mais baixo, tal ainda se observa (a casa nova tinha calçada alta, de pedra), o pouco que dela resta representa, hoje, menos de um terço, quase nada, do que fora antes. Basta se diga que, na comprida fachada, se abriam dez portas para a rua, dez "portas de venda". Luiz Barbosa Leão mantinha, ali, não só residência, mas armazém de secos e molhados, armarinho sortido. Era a sua firma comercial a mais conceituada daquela praça serrana. Possuía, ainda, no mesmo imóvel, bem montada padaria. Os pães (pães, broas e roscas) eram confeccionados em dependência erguida nos fundos da casa, próxima a uma outra dependência, então alojamento de escravos da família. Dessa segunda casa, a parte restante, ainda de pé, era conhecida como a da sala do relógio. Só os cômodos de frente (havia um quarto com oratório e alfaias preciosas, onde, à hora do Angelus, refitavam o terço) eram assoalhados, sendo os demais de chão batido. Nem todos os quartos tinham forro.

No lado esquerdo da casa nova, diga-se ainda, Vitória Maria (Dona Sinhá) mantinha jardim, amplo, com raras espécimes de plantas. Um jasmineiro do Cabo floria e um canto da cerca fronteiriça à rua. Esse jasmineiro, em determinada época do ano, ficava com o caule recoberto de "lagartas moles, pretas, com listras vermelhas", sendo as mesmas temidas pelas moças, porque se dizia na Serra, credulamente, tivessem tais lagartas (janaúbas) qualquer contacto com moças, essas engravidavam, de imediato.

Afora esse jardim, tinham grande quintal as duas casas do Barbosa Leão, dando fundos para onde é hoje a Avenida Getúlio Vargas (ex-rua Gonçalves Dias). A parte lateral, à esquerda, se estendia até a Rua da Cadeia (ou Rua Nova), hoje denominada Rômulo Castello, onde só havia um prédio, igualmente propriedade da família. Nesse quintal se espalhavam árvores copadas, fruteiras (gabirobeiras, mangueiras, jaqueiras, pés de fruta-pão, laranjeiras etc.), também um cafezal. Ainda um pé de maniçoba, "de caule sedoso, cor de pele de moça", se via ali. No quintal, além da padaria e do alojamento de escravos, funcionavam um fomo (da padaria) e um poço para lavagem de panelas, louçaria, formas, coisas assim.

Vitória Maria, católica praticante, chamou a si a tarefa de cuidar da lavagem de toalhas e demais peças de linho da Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Serra, tanto que, do outro lado da rua, defronte de sua casa, mandou construir um poço de alvenaria, de borda circular, onde lavava ela mesma, com o auxílio de escravos, todos os paramentos da igreja. Era o Poço do Sacramento. O terreno, em volta, pouco abaixo do nível da rua, num recuo, servia de coradouro, era gramado, tinha alguns arbustos, um deles sempre florido de babado de sinhá, tipo de flor assim chamado pelos dali. Era ainda Vitória Maria quem cuidava, zelosamente, da conservação das casulas, das sobrepelizes e alvas, véus de sacrário, enfim, dos paramentos da Matriz, bordando-os ou remendando-os no que se mostrava exímia. "Sabia bordar a ouro".

Luiz Barbosa Leão, abolida a escravidão, se despediu dos escravos, dividindo com eles terras que possuía em Putiri, no município da Serra. Alguns escravos, no entanto, preferiram fixar-se em Betes, outros na Muribeca, localidades próximas. Putiri se tornou um núcleo de lavradores negros. Cumá Luciana (cumá é corruptela de comadre), ex-escrava, foi para Puriti com outros de sua raça, mas vinha sempre visitar os antigos patrões. Na Matriz da Serra, às cinco horas da manhã de cada primeira segunda feira do mês, os negros, de roupa branca com gola verde, assistiam à missa mandada celebrar pela Irmandade de São Benedito, a que pertenciam. Traziam da roça pequenos "agrados" para Dona Sinhá: farinha de mandioca, infalivelmente.

Quem era Luiz Barbosa

Leão Luiz Barbosa Leão, português, nasceu em Penafiel, província do Porto, a 1º abril de 1824. Veio para o Brasil aos dezoito anos, a conselho de dois tios: Dom Antônio Barbosa Leão, bispo do Porto, conhecido, pela sua inteligência e extrema bondade, como o Santo Antão de Portugal, e José Barbosa Leão, médico cirurgião, político, jornalista e filólogo de nomeada. Esses tios não queriam que o sobrinho fosse servir, como soldado tal outros rapazes da sua idade, em colônias portuguesas, na África. José Barbosa Leão já estivera no Brasil. Resolveu, assim, encaminhar o jovem parente a pessoa radicada em Vitória, no Espírito Santo. Essa pessoa, cujo nome não conseguimos registrar, pai do saudoso capixaba Eugênio Neto, arranjou emprego para Luiz no comércio de Vitória. O moço logo se adaptou à nova terra, ganhou algum dinheiro, casando-se com moça de família moradora em Queimado, município da Serra. Enviuvou, dois anos após casado, daí contraindo segundas núpcias com Vitória Maria, residente na localidade de Laranjeiras, também na Serra.

Luiz Barbosa Leão, de boa instrução, conhecia o Latim e o Francês, idiomas aprendidos com o tio bispo, foi político atuante. Na Monarquia, manteve-se fiel ao Imperador. Na República, elegeu-se deputado estadual, cumprindo mandato no período de 1895 a 1900. Exerceu, na Serra, entre outras funções, o cargo de Intendente, hospedando, em alojamento no fundo de sua casa comercial, os primeiros libaneses chegados àquela cidade. Deve-lhe a Serra o primeiro serviço de canalização de água, trazida da Cachoeira do Ouro, no Mestre Álvaro. As tubulações vieram, sob encomenda, da Bahia. Fez construir, de alvenaria, oito artísticos chafarizes hoje destruídos, em pontos diversos da mesma cidade. Esses chafarizes foram construídos pelo engenheiro Jorge Hill, que, deixando residência em Vitória, ali se instalou até a conclusão das obras.

Luiz Barbosa Leão, homem religioso, íntegro e cordial, ao fim da vida, empobreceu, já que empenhado em campanhas políticas, dissipou tudo ou quase tudo que, através de trabalho contínuo e penoso, antes conseguira economizar. Faleceu aos oitenta anos de idade, a 4 de junho de 1904.

A casa azulejada da Serra, levando-se em conta a modernização da cidade, tende a desaparecer, já que quase todos os sobrados e casas, ali, vêm sendo demolidas, impiedosamente.

Matem-se ainda de pé, graças, unicamente, a Luiz Leão Borges, que, residindo em Vitória, lá costuma passar os fins-de-semana, conservando, assim, embora precariamente, a propriedade dos avós maternos.

 

Fonte: Revista Fundação Jones dos Santos Neves ANO IV, nº 1 – Jan/Mar de 1985, Vitória – Espírito Santo
Autora: Elmo Elton Santos Zamprogno
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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