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Areias de Guarapari

Autor: Nilton Caparelli (1987)

Guarapari era o único local do mundo onde nasciam crianças e alguns animais se reproduziam. Depois da guerra nuclear, as mulheres de outras partes que ainda conseguiam gerar, pariam bebês já mortos. A notícia se espalhou rapidamente e a cidade brasileira passou a receber centenas, milhares de pessoas, que acreditavam não ter a radioatividade atingido a região. Mais do que depressa, os cientistas se reuniram e resolveram evacuar os antigos residentes da cidade para um local seguro e informaram ao mundo uma nova verdade, difícil de se acreditar: no interior brasileiro uma nova espécie vinha se formando há muitos anos e, agora, só ela teria condição de sobreviver aos efeitos da radioatividade.

Na região de areias monazíticas, a radioatividade ambiental sempre foi maior do que os níveis normais, devido à presença, na superfície, de minérios contendo particularmente tório e traços de urânio. Durante muitas gerações os seus habitantes conviveram com uma radioatividade que alterou seus constituintes biológicos. Não que isso os prejudicasse, mas tornou-os resistentes a altos níveis de radiação e preparou o homem para superar o impasse da sua extinção como vida na Terra.

Para um livro ou um filme de ficção científica, esse tema é fascinante. Mas para o professor Marcelo Barcinski, chefe do laboratório de Radiobiologia Celular do Instituto de Biofísica da UFRJ, essa é uma especulação possível, mas que não preocupa muito o cientista: “O importante são os resultados do presente”. E no seu laboratório, onde são analisadas amostras sanguíneas da população de Guarapari, até o momento, apesar de o estudo estar sendo realizado há quase 10 anos, os resultados obtidos não são definitivos.

Se, por acaso, não se encontrar alterações, explica Marcelo, pode-se afirmar que pelo menos ao nível celular não há nenhuma conseqüência de se viver durante 10 anos numa área de radioatividade ambiental elevada. Se for positivo, o estudo deverá ser ampliado no sentido de serem procuradas as conseqüências dessas aberrações cromossômicas para o homem. Elas podem se manifestar no próprio indivíduo, ou na sua segunda geração, se foram geneticamente transmissíveis. Então poderá ser feito um estudo de uma segunda geração de habitantes, em Guarapari.

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