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Castelo no Ar - Governo Nestor Gomes

No ano de 1911 ainda aparece a última torre que foi demolida no Governo de Nestor Gomes (1920 - 1924)

Nestor foi dono de grande inteligência, mas sem cultivo e firmeza nos planos que elaborava. Não fez figura magra, na Comissão de Finanças, quando senador. Apresentou projetos revolucionários sobre reforma bancária e política de defesa do café. Faltou-lhe cultura para defender seus pontos de vista. Com incursões pelas ciências das finanças, esposando o liberalismo econômico já agonizante, preocupou-se em favorecer o estabelecimento de companhias privadas, para explorar os recursos naturais do Estado. Ofereceu favores e privilégios que não despertaram maior interesse aos capitães da indústria. Alienou grande parte do parque industrial, fundado por Jerônimo Monteiro. Deu em arrendamento os chamados "Serviços Reunidos" de Vitória e Cachoeiro do Itapemirim, com o único ônus: a ampliação e o reparo das instalações desgastadas. "Serviços Reunidos" significavam: força, luz e tração. Foi medida inteligente. Sob o controle direto do Estado, as usinas geradoras e as linhas aéreas não mereceram o menor cuidado do poder público. Os serviços periclitaram, causando sérios prejuízos à população. Em Cachoeiro do Itapemirim, os assinantes, da corrente política governamental, "esqueciam-se" de pagar o consumo devido. (4)

O consórcio do Banco Hipotecário e Agrícola do Espírito Santo com o Banco Pelotense, promovido pelo Presidente, na ilusão de atrair maior volume de capital para o Estado, foi de graves conseqüências, quando da liquidação judicial, sete anos depois. Contudo, é preciso que se faça justiça: Nestor foi individualmente honesto, simples e bem intencionado.

Faltou ao Presidente cultura técnica, para elaborar o planejamento de obras, que o Tesouro do Estado, em franca ascensão, podia financiar.

Desperdiçou somas apreciáveis nos municípios, construindo grupos escolares, cadeias, pontes de madeira, estradas vicinais, mal estudadas e projetadas sem observância das menores regras de construir.

Tudo se tornou provisório. Anos depois não passaram de ruínas precoces, mas prestaram serviços relevantes e, talvez, se justificassem pelos resultados obtidos. Minha opinião é que as obras públicas devem ser perenes. No futuro, a cultura do povo se afere pelos investimentos reprodutivos, pelas obras sociais, pelos monumentos de arte e pelo valor de suas letras em geral.

Nestor, em vários documentos públicos, criticou as condições urbanísticas da cidade: ruas estreitas e tortas, falta de pavimentação, teatro obsoleto e ameaçando desabar, mercado imundo, ausência de hotéis confortáveis, falta de moradias para a população crescente. Ofereceu favores a quem se propusesse realizar o rol da obras enumeradas.

Não logrou êxito nas negociações entabuladas. O governo não definia as obras especificamente. Os projetos não tinham consistência concreta: residiam na fantasia imaginosa do Presidente.

Nestor Gomes se orientou por desenhistas primários, agrimensores práticos e mestres de obras curiosos. Nos quadros administrativos do Estado, os técnicos primavam pela ausência.

O plano meticulosamente organizado por Henrique de Novais foi subestimado e o Prefeito da cidade, comodista e alheio aos problemas municipais, não o soube defender. Entregou, mulçumanicamente, todo o patrimônio urbano ao governo do Estado em troca de melhoramentos que o Presidente se propunha realizar. Não houve protestos da Câmara Municipal, já agora sem os gansos do Capitólio, dos primeiros anos da república: Cleto Nunes, Antero de Almeida, Joaquim Lírio. Após o governo de Jerônimo Monteiro, as rendas municipais estacionaram. O valor locativo caíra com a guerra. O comércio pagava, apenas, impostos de Aferição de Pesos e Medidas, Porta Aberta e Indústria e Profissões. A Fazenda Municipal não participava percentualmente do movimento comercial dos negociantes. A Prefeitura era nada mais, nada menos, do que simples coatora de certos direitos imaginários da população.

Nos dois primeiros anos do governo de Nestor Gomes a cidade se congelou. Foram praticamente interditadas todas as obras particulares na cidade alta, na Praça Costa Pereira, na Rua Jerônimo Monteiro e na zona da Capixaba. Muitas demolições, e projetos discutíveis, se anunciavam. De positivo resultou a abertura da Rua Santa Clara, ligando o Parque Moscoso ao reservatório de água, estreita de seis metros com rampa superior a quinze por cento.

No alto de Santa Clara construiu um monstrengo, destinado à residência presidencial. Serviu de sede ao Asilo São José e hoje se fez péssima adaptação a uma escola pública. Completou-se a fachada, fronteira à Assembléia, do Palácio, com a demolição da última torre da famosa igreja de São Tiago. Nestor tomou interesse marcante pelas estradas suburbanas. Melhorou a de Sto. Antônio e construiu as de Jucutuquara, Fradinhos, Maruípe, Bomba, Praia do Cauto e a de Goiabeiras à cidade da Serra.

Em Maruípe, na sede da ex-fazenda do Mr. Brion Berry, Nestor instalou residência particular, fugindo às intrigas políticas, pelas quais tinha verdadeira ojeriza. Ao finalizar o segundo ano de governo, Nestor voltou decididamente suas vistas para a zona Capixaba. O engenheiro francês Justin Briguet locou o eixo da futura Av. Capixaba, com certa habilidade técnica. Cravando a estaca zero em frente ao Eden Parque, visou o morro da "Vigia", sobrepondo-se a todos os obstáculos da tortuosa Rua Cristóvão Colombo. A Av. Capixaba pôde ficar num só alinhamento, operação difícil para os topógrafos oficiais. É bom lembrar que o capixaba é profundamente observador e mordaz. Houve na zona urbana uma série de modificações de alinhamentos e alturas de soleira: ora avançava, ora recuava o alinhamento, ora subia, ora descia o nível do piso. Os construtores viviam em verdadeira "pane" topográfica. O espírito do povo não demorou em se manifestar: propunha-se construir sobre rodas e "macacos", para atender a todos os caprichos da variação de alinhamentos e altura.

A receita do Estado ganha força ascensional constante, acionada pela política do café de Epitácio Pessoa.

Nestor, no silêncio da sua "toca", em Maruípe, maquina planos mirabolantes para a cidade e para o Estado: avenidas, mercados, estradas, teatros, pontes, companhias de estradas, de navegação, de colonização, em suma, maravilhas que sua inteligência criava, muitas vezes, com ingenuidade infantil. O ritmo de trabalho se acelera e se complica pela falta de coordenação. Em todos os municípios se constroem estradas de ferro: Anchieta à Alfredo Chaves, São Mateus à Nova Venécia, Cajubi a Presidente Bueno, estradas de rodagem de Santa Teresa a Afonso Cláudio, de Itaguaçu à Itapina, de Dona América a São Pedro do Itabapoana. Improvisam-se topógrafos e construtores. Não se fazem estudos nem orçamentos. Auto-didatismo absoluto.

 

NOTA

(4) Fui diretor-gerente dos "Serviços Reunidos de Cachoeiro do Itapemirim", de 1923 a 1924, quando arrendados ao saudoso engenheiro Luiz Cantanhede de Carvalho e Almeida, professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Levei a energia a Marataízes, S. Felipe, hoje Marapé, Coutinho Pedreira e Castelo, Virgínia, Vargem Alta e Guiomar.


Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2016

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