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Cinquentenário de uma persona grata – Por Marcos Tavares

Capa do Livro: Escritos de Vitória, Volume 15 Personalidades de Vitória

Na condição de irremediável leitor, elejo um literato — Fernando Tatagiba — como a personalidade de Vitória (ES). Embora o nome, por si só, dispense justificativas e apresentações, mister é dizer da indissolúvel ligação dele com a cidade-ilha. Assim sendo, com muito afeto, arrisco esboçar algumas facetas desta polimorfa personalidade, a que já me referi em publicação local (in Revista Você, n° 15, SPDC/UFES).

A respeito do escritor Fernando Tatagiba (1946-1988), talvez melhor escrevessem os seus contemporâneos de vivência na antiga FAFI, onde, em plena época da repressão militar, havia uma efervescência cultural, da qual ele, em termos de literatura, fora um dos maiores expoentes. De minha parte, sempre nutri grande admiração por Tatagiba e até hoje, passados já oito anos de sua morte — dolorosa mas necessária palavra —, muito me emociona a memória tanto do homem quanto desse escritor que ora completaria 50 anos de vida. Fernando Tatagiba (18-05-1946, São José do Calçado, ES).

Se é que é possível desvincular biografia e obra de um artista, eu diria que mais conheci o homem do que o notável ficcionista de O Sol no Céu na Boca, mesmo porque, quando o conheci pessoalmente, já havia ele escrito suas obras-primas —vencedoras de inúmeros concursos e publicadas em diversas re-vistas e antologias do gênero conto.

Afora fotografias veiculadas em jornais, vi-o pela primeira vez, um rosto avermelhado pelo sol, numa das reuniões da pretensa Editora Cooperativa de Escritores encabeçada por Oscar Gama Filho, em meados de 1979, na casa de Roberto Galveas. Estavam lá vários autores capixabas. E, na ocasião oportuna, expressei minha admiração por seus primorosos textos. "Tudo já foi escrito", dissera-me com a sua rapidez característica, a mesma com que escrevia à máquina. "Eu busco exaustivamente a forma. A forma, a forma..." E gesticulava, mágico, com as mãos. Compreendi o delírio.

Depois desse contato, só fui encontrá-lo em 1980, na rua Sete de Setembro, onde fazia ele parte da chamada "Praça da, Alegria" — um seleto grupo de indivíduos que, capitaneados pelo popular "Mané Diabo", reunia-se em frente à lanchonete Sete com o propósito de praticar uma espécie de psicodrama ou psicoterapia verbal. Com o aval de Tatagiba, mas submetido a uma "prova de fogo", fui admitido na confraria.

Ainda neófito no ofício da neurose, participar com Tatagiba e aquela tresloucada turma era-me uma festa espiritual. Ali se falava de tudo e de todos. Não havia censura ou moral. Enfim, desnudava-se a alma humana em todas as suas grandezas e mesquinharias.

"Não me venha com trocadilhos", por diversas vezes, mal eu chegando, já íntimos, advertia-me. Advertência, vã, era sempre ele próprio o primeiro a explorar, deliciado, a dualidade de uma frase, a ambigüidade de um fato. Exclusivista, queria, sim, ser original, para, em seguida, explodir numa grotesca gargalhada. "Hoje estou atacado", admitia. Com respeito de discípulo diante do mestre, eu acatava suas palavras. Nunca contra atacava.

Recordo-me que, encontrando-o numa sexta-feira da paixão, sempre na referida rua, reclamava ele de, em virtude da má situação econômica, ainda não ter, nesse dia, comido torta — tradicional prato da culinária capixaba. Eis que, isso dito, do outro lado da rua vem caminhando com andar dificultoso uma pobre senhora, o corpo vergado mais para um lado, uma perna maior que a outra, escoliose acentuada... Em ela passando por nós, olhou-me ele com olhar cínico — eu diria cênico —, nos lábios risinho amarelo de nicotina, como se, num ato de sublimação, saboreasse o meu embaraço. Até hoje fico sem saber se a súbita aparição fora mera obra do acaso, ou se, naquele instante, estivesse Deus a escrever certo...

Sim, nenhum episódio de rua — por mais banal que fosse não passava por ele despercebido. Muitos, inclusive, lhe serviram de subsídios para escrever crônicas impregnadas de poeticidade. Metaforicamente, era um urubu sempre à espreita, prestes a se alimentar do que há de mais podre na sociedade: o anti-herói seu herói era. Não foi à toa que intitulou Rua a um seu livro repleto de personagens marginalizados, envolvidos nos fatos mais corriqueiros ("Um fato eu transformava em literatura.") Nunca mais conheci quem, mais do que ele, entendesse do drama urbano com tamanhos saber e profundidade. E Tatagiba fazia questão de o demonstrar. E, por vezes, até se gabava disso. Vitória, tanto a antiga quanto a moderna, ele a conhecia como a própria alma.

Um pós-graduado em rua, ensinou-me o como amanhece a vida em Vitória. "Ônibus passam carregados de operários. Um homem portando pasta preta caminha apressado. Outro passa. E mais outro. Mendigos lentamente se levantam de sobre velhos jornais. Lanchonetes abrem. Já uma crescente multidão passa, insensível aos pedintes. Carros buzinam." Atravessamos madrugadas para constatar isso in loco. Éramos loucos. Essa fora nossa fase boêmia (1980/1983) — época repleta de invenção e de saudade...

Certa vez (1982), por sugestão de Tatagiba, pusemo-nos, eu e ele, a seguir um tal Lyrio, um indivíduo esquizofrênico que, supondo-se marinheiro morto por assassinato, escrevia a uma possível noiva cartas denunciando o assassino — um capitão-de-fragata enciumado do amor reciprocamente correspondido. Essas cartas-denúncia, aleatoriamente espalhadas pelas ruas centrais de Vitória, eram recolhidas por nós dois, sorrateiros. Em número de oito ou nove, todas nos mesmos invariáveis termos, estavam primorosamente manuscritas, atestando a boa escolaridade do remetente: um ex-guarda-livros. Ninguém acreditaria na verossimilhança dessa delirante história, se conto fosse. Nem na nossa, nem na de Lyrio, concluímos.

Também nunca conheci quem, leigo, em matéria de loucura, entendesse mais do que Tatagiba.

Dizia-me possuir conhecimento de causa, por experiência própria. "Afinal, quem não é louco neste mundo?"

O estado de impotência diante da crescente miséria material do povo, o terror imposto pela ditadura mais a obsessão na leitura de Kafka teriam perturbado sobremaneira a sensível alma do então jovem calçadense radicado em Vitória, à Rua São João. O infundado medo de ser arrolado em interminável processo do DOPS — hoje extinto — e os freqüentes delírios de estar se transformando num gigantesco inseto a exemplo de Gregor Samsa (in Metamorfose) compunham um quadro maníaco-depressivo dessa fase psicótica, durante a qual se lhe arranjou vaga no Hospital-Colônia Adauto Botelho. Esses mesmos conflitos íntimos contribuíram para mantê-lo periodicamente licenciado — para tratamento psiquiátrico — na sua função pública no Instituto Médico Legal, onde cumpria horário como burocrata de exímia datilografia.

Orgulhoso de seu nome, envaidecido pela repentina glória literária advinda dos recitais e concursos realizados nas décadas de 60 e 70, tinha verdadeiro pavor que algum raro ex-colega de distúrbio o chamasse pelo alcunha de Somalium — uma depreciativa referência à terapia medicamentosa a que, durante muito tempo, se submetera.

Fumante inveterado ("Fernando tabagista") — dos que só se saciam após o quarto maço diário —, além dos sintomas de pigarro, dos dentes e dos dedos amarelados por nicotina, o cigarro consumia-lhe o pulmão e as parcas economias. E esse vício-mor era sempre seguido de um vice: o incontrolável hábito de ingerir sucessivas xícaras de café.

No balcão da lanchonete Sete, "contumazes consumidores da infusão de rubiácea" — segundo nos intitulei, sob os protestos dele ("Nada de academicismos!") —, e dada a nossa limitação pecuniária, ficou assim instituído o café a dois, por uma sugestão de Tatagiba, com imediata anuência por parte do balconista Serrano ("Somente para vocês"). Tatagiba, pondo-me mão no ombro, olhos vivazes no vigiar os lados, após profundo suspiro, como quem vai anunciar uma desgraça, em baixa voz confidencia-me tal medida contentiva: por arcar reiteradamente com a minha "bebida" — expressão dele — já estava por ir à falência! "Um estudante pobre não deve nunca ter amizade com jornalista mal pago", concluímos, entre risos.

Sim, volta e meia, o nosso escritor vivia atormentado pela escassez do vil papel em sua inseparável bolsa a tiracolo.

Ria muito quando eu o classificava como sendo um obsessivo anal retentivo, explicando a sua compulsão pela usura. Mas se, de repente, fosse demitido, quem arcaria com as suas despesas de cigarro, café e comida? A idéia de privação, afastava-a quando concedia auxílio a pedintes enxotados dos bares: sempre havia uma mão a estender-se, uma palavra a dar conforto.

Não vivenciei suas fases bibliófila e cinéfila de maior intensidade. Afirmava que grande parte de sua vida fora passada em cinemas, "fora da tela". Para mim ele era mesmo um chapliniano Carlitos — ou um personagem por Woody Allen — saltado de uma película filmográfica para esta dimensão. Em literatura, confessava extrema admiração pelo "absurdo" em Kafka e pelo "fantástico" em Borges. A noção borgiana de uma biblioteca infinita o fascinava. Mas a paixão de Fernando Tatagiba era mesmo o cinema. Visionário e analista, acreditava que a literatura perderia gradativamente lugar ou seria definitivamente substituída pela imagem em movimento, assim como o cinema, enquanto sala de projeção, já estaria sendo ultrapassado, na preferência popular, pela televisão — a qual detestava.

A comprovar seu interesse pela memória cinematográfica, aí está o livro História do Cinema Capixaba, cujo lançamento, póstumo, deu-se em 2 de junho de 1988. Na fase de elaboração desse livro, ocorrera uma falha considerada por Tatagiba como "absurda", digna de um conto de sua lavra: por esquecimento próprio, omitira justamente o filme de Roberto Rocha intitulado "O Sol no Céu da Boca", baseado em um seu conto homônimo... Só descobrira o equívoco quando indagado por J.L. Gobbi, ator desse filme. Conhecedor de cinema e cinemas, conta Fernando Tatagiba — o homem que sabia demais — que, no Cine São Luiz, protelado o lançamento de um anunciado e esperado título, o gerente, com dificuldade de isso comunicar ao exigente público mais intelectualizado, recorre ao nosso conhecido jornalista. Este, de imediato, sugere oralmente uma clássica e conveniente expressão latina. No dia seguinte, constata o chamativo cartaz: ADIADO CINE DIE.

Recusava ser reconhecido como escritor. "Escritor é Jorge Amado, que escreveu vários livros e vive de literatura. Eu não."

Preferia ser identificado como jornalista. Na imprensa local, atuara, principalmente, na condição de free-lancer. Como ghost writer, encarnava semanalmente num conhecido colunista social registrando fatos e fotos de uma elite privilegiada — antítese daquela gente miúda que ele tão bem entendia e, sobretudo amava. Era pública sua aversão a certos autores que perpetuavam temas e formas, no seu entender, já desgastados.

Seus primeiros encontros com a poeta Dalva Broedel, a quem conhecera no Britz Bar, deram-se na Praça Costa Pereira. Nessas ocasiões, quem quer que estivesse em sua companhia, ante a iminência da chegada dela, Tatagiba, sempre demonstrando ansiedade, pedia ao presente que se retirasse. Desabituado ao namoro regular, estava visivelmente apaixonado pela graciosa e sensível moça ("Minha estrela da manhã!"). Não fosse esse fogo da paixão, já que temia perdê-la para um possível aventureiro, jamais teria com ela contraído matrimônio — instituição que sempre criticara. A sua amarga visão de um lar, doce lar, assim vislumbrava a entidade família: monótona, sem diálogo, hipnotizada diante de um aparelho de tevê. Mas a sua união com Dalva — inarredável companheira até a última hora — resultou em dois queridos filhos (Fernanda e Gabriel) e contradisse, na prática, a teoria tatagibeana.

Auto-exilado no interior do Estado, somente através de A Gazeta (23/09/87) é que eu soubera da sua doença e do agravamento desta. Uma foto obtida por Chico Guedes, ilustrando entrevista feita por Graciano Dantas (A Gazeta, 31/01/ 88), apavorou-me. Estava o meu ídolo reduzido a uma triste figura. Quixotesco sempre fora, na vã luta com palavras, inquilinas do vento. Agora o seu rosto, olhos ocultos por escuros óculos, evidenciava as marcas da luta contra o distúrbio hepático. Longe, pois, daquela imagem que Tatagiba orgulhava-se em ostentar, bem retratada em fotografia por Edgar Leuenroth, na contracapa de Rua. Conheci-o vaidoso com a aparência. "Estou gostoso?", costumava brincar.

Acompanhei todo o seu drama através da imprensa ou de cartas de amigos. Luiz Sérgio Quarto, sabedor de nossa estreita amizade, aconselhou-me, por último, a não o visitar. Talvez eu próprio, subconscientemente, tivesse evitado contato, por várias vezes protelando visita. Uma absoluta falta de coragem em admitir uma dolorosa realidade que não fosse a criada pela ficção. "Melhor conservar a imagem dele saudável, sorridente, irônico." Soube, no entanto, que ele por mim perguntava. Queria a minha presença. Talvez quisesse que, juntos, debochássemos de seu inimigo figadal. Quem sabe quisesse me revelar a senha que só ele, decifrador dos mistérios mais mesquinhos da alma, sabia? Quem sabe me quisesse, outra vez, como fiel escudeiro, digo, interlocutor de suas frases mais espirituosas? Recordo-me, então, de dois de seus contos mais trágicos — O Ex-Operário Jeová e Sua Agonia e Convulsão —, duas obras-primas, onde o autor utiliza-se de um alter-ego vivenciando o fenômeno da morte.

Num fatídico 31 de março, ano de 1988, encorajando-me, viajei para Vitória, lá chegando às 19 horas, disposto a, no dia seguinte, logo cedo, fazer-lhe visita-surpresa, justificando o Dia Mundial da Mentira. Nessa mesma noite, porém, para minha maior tristeza, um telejornal informa sobre a morte do cronista anunciado. Senti um vazio. Fora, para mim, um golpe mais duro que o Golpe Militar, que naquela data aniversariava. Suprema ironia do destino? Ou o próprio Tatagiba — seu maior personagem — forjara para si esse original enredo?

Era, pois, véspera de 1° de abril. Eu não quis acreditar.

Não poderia ser diferente o triste fim de Fernando Tatagiba, um escritor que, de tanto perseguir kafkianamente o absurdo, o insólito, o nonsense — a sua matéria —, fatalmente chegara ao fim, à constatação de que mais absurda é a vida cotidiana de cada um, inclusive a sua própria. Como se para ele, voraz cinéfilo, "a vida fosse uma película silenciosa com enredo banal" — tal como escrito na sua pequena mas grandiosa Obra.

"Morreu como um passarinho", comentou Dalva, sua companheira estelar de todas as horas. Sim, tinha ele asas. As da imaginação. E, conforme sua última esperança ou crença — a de "retorno à Natureza" —, quem sabe esteja redivivo, sob a forma de pássaro, pousado numa árvore da praça Costa Pereira? Até hoje, quando por ali caminho, sinto que ele ali está, observando a quem tanto cantou em prosa e verso: o povo — expressão que, em Tatagiba, não contém nenhuma intenção demagógica. Enfim, Fernando Tatagiba é um imortal sem ter ingressado na Academia de Letras. E estará sempre vivo e vivo. Nas nossas memórias.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Personalidades de Vitória – Volume 15 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Vitória Propaganda
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Marcos Tavares
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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