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Jerônimo Monteiro - Capítulo III

A família Sousa Monteiro: mãe, irmãos e irmãs de Jerônimo (1892). APEES - Coleção Maria Stella de Novaes

Nasceu Jerônimo a 4 de junho de 1870, na casa-grande inaugurada em 1869, no batizado de Helena. Construída na encosta de um promontório, permitia a visão belíssima da corrente que, vertiginosa, passa entre montanhas e planícies. Forma ilhas, restingas, praias e cachoeiras.

Dali, eram deslumbrantes os crepúsculos, vistos para a nascente do rio, até o perfil distante do Morro-Grande. Numa lagoa, na várzea da Fazenda Pau-Brasil, coaxavam as rãs e, aos poucos, Vésper surgia, na plenitude do céu!

Criança linda, de cabelos louros e cacheados, olhos claros, herança, de certo, da Vovó Bárbara, que se distinguia pelos olhos azuis e tez alvíssima, Jerônimo, durante seis anos, foi considerado o caçulinha, aos cuidados de Emília, a mucama escolhida para cuidá-lo. Sempre fiel ao sinhozinho, a Tia Emília correspondia, perfeitamente, à tradição das babás e didis lendárias da escravidão. E Jerônimo conservou, sempre, especial amizade à Didi Emília. Já formado e pai de família, cumulava-a de atenções quando a encontrava no Monte Líbano. Era o seu Nhonhô querido.

"Sombra da Mamãe", porque estava sempre atento ao seu lado, acompanhando-a nos grandes salões e corredores do Monte Líbano, Jerônimo gostava de conversar e queria sempre "histórias" que Da Henriqueta, a Vovó Bárbara e a Tia Emília haviam de contar-lhe. Era já de uma vivacidade e demonstração de inteligência que, de par com os caracteres físicos referidos, o distinguiriam, com o tempo, dos outros irmãos que, apesar de igualmente inteligentes e cultos, eram calmos, prudentes, conservadores e rigorosos nas suas decisões. Jerônimo destacava-se pela mentalidade progressiva e combativa, ação decisiva a serviço de uma vontade férrea, sem, contudo desviar-se de sua formação espiritual, apurada no convívio dos jesuítas, em Itu.

Talvez pelo carinho recebido na infância e seis anos de intervalo entre ele e José, com as regalias antigas de caçula, conservou um jeitinho especial de conseguir tudo o que desejava do Papai e, principalmente, da Mamãe, cuja predileção recebeu sempre. Em junho de 1878, por exemplo, Dona Henriqueta adoeceu gravemente; ficou entrevada pelo beribéri! Nhonhô, que apenas contava oito anos, não se conformou em permanecer no Monte Líbano, longe da Mamãe. Acompanhou-a à Barra do Itapemi- rim e repetiu as provas de carinho que sempre lhe dera. Tomava do Terço, diariamente, e o dedilhava sobre os joelhos, imóveis, da Mamãe estremecida, rezando... rezando, fervoroso "para que Deus a fizesse andar depressa". Francisco e Henriqueta contemplavam-no, enternecidos.

Iniciado nas primeiras letras pelos cuidados maternos, cursou, depois, o Colégio Manso, em Cachoeiro do Itapemirim, para completar o curso primário. Era esse Colégio dirigido pelo professor Manuel Pinto Ribeiro Manso, casado com a professora Filomena Gomes da Silva Manso, que muito se dedicou ao ensino e mereceu, por isso, a distinção de dirigir o Colégio Nossa Senhora da Penha, em Vitória, quando se retirou, para Minas, sua primeira diretora, Da Mariana Leopoldina de Freitas Carvalho.

Em 1885, Jerônimo acompanhou os irmãos que estudavam no Caraça. Partiam do Monte Líbano acompanhados pelo Isaac, filho de Jerônima (Mangerona, corruptela de Mãe Jerônima, como a chamavam os servos de Monte Líbano) e Faustino. Isaac jamais se afastou de Sinhá Riqueta. Era aquele menino que a servia, no rancho, quando recém-casada. Outro acompanhante era o compadre João de Molais e Silva, amigo dedicadíssimo do Capitão Sousa Monteiro. Jerônimo, um crioulinho estimado, participava da caravana para distrair os sinhozinhos, no pouso dos ranchos, nos quinze dias de viagem.

Iam os animais carregados de esteiras, travesseiros, agasalhos, mantimentos, panelas, remédios, pratos, roupa etc. Tudo se completava com o cozinheiro, para o respectivo mister.

Lembremo-nos de que, na Estrada do Rubim, foram distribuídos quartéis, para a segurança de viajantes.

Em consequência da viagem tão penosa, os estudantes vinham passar férias, dois anos após. E dificilmente os pais recebiam notícias! ... Calculemos, portanto, prezado leitor, o seu sacrifício, para a educação dos filhos!... Educação primorosa, como Francisco e Henriqueta desejavam, num tempo em que, no Espírito Santo, só existiam escolas primárias. E, na cidade da Vitória, tudo era incipiente: Colégios sem internato e sob a direção de professores leigos, ao passo que Francisco e Henriqueta desejavam dar aos filhos o apuro da cultura geral, de par com a segura formação religiosa.

Jerônimo esteve apenas um ano com os irmãos no Caraça, porque estes concluíram os estudos secundários e foram para o Seminário São José, no Rio de Janeiro. Julgou Francisco melhor interná-lo em colégio mais acessível, mesmo porque o nosso estudante não se adaptara à solidão do Caraça e ao rigor dos lazaristas. Já se revelava um espírito independente.

Transferido para o Colégio São Luís, em Itu (São Paulo), Jerônimo completou os preparatórios. Matriculou-se na Faculdade de Direito, em São Paulo, onde Bernardino estudava, porque resolvera abandonar a carreira eclesiástica. Recebera, apenas, as Ordens Menores.

Jerônimo formou-se a 19 de dezembro de 1894 e teve como paraninfo seu futuro sogro, o Comendador Cícero Bastos.

Pessoa de rara inteligência — notável seria, posteriormente, a influência do Comendador na vida do jovem espírito-santense, porque, arguto e metódico, o Sr. Cícero Bastos representava belo exemplo de autodomínio na vida, para, de simples rapaz, ajudante de tropeiros, nas arrancadas pelas ínvias estradas, de Minas ao Itapemirim, chegar às culminâncias do capitalismo, em São Paulo. Pelo esforço próprio, adquiriu variada e sólida cultura, que lhe facultava agradável, elevada e atraente palestra. Através de agruras e vicissitudes, venceu heroicamente, acompanhado pela dedicação da esposa e das filhas. Era o Senhor Cícero Bastos mineiro, de Guanhães. Viveu no Cachoeiro do Itapemirim desde 1864, onde trabalhou numa casa comercial. Passou depois a guarda-livros. Foi professor de primeiras letras, no Castelo e em Itabapoana, onde se casou com a Senhora Inácia de Sousa. Aí possuiu uma fazenda. Foi Deputado Provincial. Vimos diversos discursos que proferiu na Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Transferiu-se depois para São Paulo.

Relacionado, desde o Cachoeiro do Itapemirim, com o Dr. Gil Diniz Goulart, futuro sogro de Bernardino, recebia, em São Paulo, a visita desse e de Jerônimo, estudantes de Direito. Compreende-se, assim, a origem do noivado e consequente consórcio da jovem e boníssima Cecília Bastos com o futuro Presidente do Espírito Santo, que realizaria o grande Governo, de 1908 a 1912.

Ainda estudante, Jerônimo foi Promotor Público, em Cachoeiro do Itapemirim.

Embora não se recomendasse pelo amor aos livros, supria as horas de festas e, principalmente, bailes, pela inteligência, predicado que muito concorreu para sua reconhecida cultura. Jerônimo gostava de dançar. Nas férias, aproveitava os bailes, em Friburgo ou em Cachoeiro. Não desprezava nem mesmo os da colônia, na fazenda.

Justo é que se reconheça o valor de Da Henriqueta em dirigir a educação desse filho, às vezes rebelado contra a disciplina escolar. Em Itu, por exemplo, Jerônimo escrevia, reclamando do tratamento e do rigor do Colégio. Queria regressar à Fazenda Monte Líbano. A morte do Papai tocou-lhe, de certo, o coração e despertou-lhe a saudade do seu querido recanto. Mesmo porque foi sempre muito sensível. Até depois de integrado nas responsabilidades da vida, não entrava no quarto de doentes, na família!... Ou evitava-o. Chegava, apenas, à porta.

Do Colégio, em Itu, escrevia: — "Eu morro, Mamãe! Estou com fome!”

Antônio, o primogênito, que deixara o curso de medicina para assumir a direção do Monte Líbano quando o Capitão Sousa faleceu, enternecia-se: "Coitadinho, Mamãe!"

— Nada, Antônio. Ele precisa de estudar e ser alguém na vida. Os padres não deixam ninguém passar fome! ANTES MORTO QUE SEM EDUCAÇÃO!

Dona Henriqueta conservava, assim, a fibra das matronas mineiras. Amor e energia. Por isso, toda caída pelo seu Nhonhô querido, reagia perante o dever de formar um homem, que lhe daria, no futuro, a glória de ser um grande Presidente do Espírito Santo, numa confirmação de que "o futuro de uma criança é sempre obra de sua mãe”. (Napoleão I)

 

Notas:

 

A presente obra da emérita historiadora Maria Stella de Novaes teve sua primeira edição publicada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo -APEES, em 1979, quando então se celebrava o centenário de nascimento de Jerônimo Monteiro, um dos mais reconhecidos homens públicos da história do Espírito Santo.

Esta nova edição, bastante melhorada, também sob os cuidados do APEES, contém a reprodução de uma seleção interessantíssima de fotografias da época — acervo de inestimável valor estético-histórico, encomendado pelo próprio Jerônimo Monteiro e produzido durante o seu governo — que por si só, já justificaria a reimpressão, além do extraordinário conteúdo histórico que relata.

 

Autora: Maria Stella de Novaes
Fonte: Jerônimo Monteiro - Sua vida e sua obra
2a edição Vitória, 2017 -  Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Coleção Canaã Vol. 24)
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2019

 

 

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