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Na literatura, um diálogo com a história – Por Francisco Aurélio Ribeiro

Foto: Nestor Muller

A literatura do Espírito Santo inicia-se com a Carta Foral do rei Dom João III, escrita por Pero de Mesquita, em Évora, Portugal, em 07/10/1534. Todo um conjunto de leis, normas, direitos e deveres é traçado pela Carta Foral do Rei João III, o que constitui a Certidão de Nascimento do povo capixaba. Vasco Fernandes Coutinho aporta, com sua caravela Glória, em sua capitania, no dia 23 de maio de 1535. Como era dia dedicado à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o nome escolhido para a capitania foi o de Espírito Santo. Com ele, vieram sessenta pessoas, dentre as quais, dois fidalgos, D. Jorge de Menezes e Simão Castelo Branco, que, segundo Gabriel Soares de Souza, vieram "por mandado de S.A. cumprir suas penitências a estas paragens". Ambos pereceram na luta contra os indígenas. (In.: Tratado Descritivo do Brasil em 1587, 5ª ed., São Paulo: CEN; Brasília: IN2, 1987, p. 22).

Vasco Fernandes Coutinho teve muitas dificuldades, tanto com os companheiros que trouxera quanto com a resistência que lhe impuseram os índios. Pouco registro histórico ficou desse início de colonização. O que se sabe é o que relatam os viajantes do século XVI, os documentos dos jesuítas vindos com o segundo governador-geral, em 1549, e o imaginário.

É nas brumas do histórico que o discurso ficcional se instaura. A busca de uma identidade capixaba, no século XX, retorna ao início da colonização portuguesa para recriar aquele tempo e a luta titânica de Vasco Fernandes Coutinho contra as forças da natureza e sua tentativa inútil de implantar aqui a civilização que conhecia. Quando Tomé de Souza veio, em 1549, instalar o governo-geral, trouxe, também, a incumbência de pacificar e reformar a Capitania do Espírito Santo, que se achava "alevantada". Como diziam os primeiros visitantes, o Espírito Santo era a melhor capitania e era, também, a mais arruinada. Este parece ser o nosso atavismo: ser pobre no meio de tanta riqueza... E a literatura bebeu nessa fonte, dessa mitologia pré-destinatória, para recriar nossa civilização. Renato Pacheco, historiador e romancista contemporâneo, recria em seu Vilão Farto, publicado em 1990, ficcional e historicamente, a vida do infeliz primeiro donatário da Capitania do Espírito Santo, Dom Vasco Fernandes Coutinho. Segundo Frei Vicente do Salvador, "Vilão Farto" era a forma carinhosa com que Dom Vasco tratava sua Capitania, pela abundância de terras, águas e bens que nela havia. Com o mesmo intuito de recontar "a vida nos primeiros tempos do Brasil colonial", Renato Pacheco publica, também, para jovens e infantes, em 1997, Eu Vi Nascer o Brasil, a história romanceada de Vasco Coutinho, uma narrativa em primeira pessoa ("Meu nome é Vasco Fernandes"), misturando ficção e história, lenda e realidade, aventura e romance.

Também outro escritor contemporâneo, o jornalista Adilson Vilaça, o mais literato dos de sua geração, publica, em 1995, Albergue dos Querubins, um dos mais bem escritos romances que objetivam ficcionalizar a formação do povo capixaba. O seu primeiro núcleo, "Sob as dunas", veio a transformar-se num romance independente, com mesmo título, publicado em 1996, e ficcionaliza aqueles idos do século XVI. Nele, conta-se a história de Peregrino Rosário, nome cristão de um índio guarani. rebatizado "Tiquaam" (= jornada longa e difícil), que foge para o Norte do Espírito Santo. De uma de suas descendentes, batizada Bela Natividade por um padre jesuíta, que por ela se apaixona, nasce José Natividade de Jesus, que herda os ofícios do pai e as crenças da mãe. Anúncio Natividade de Jesus, um pescador seu descendente, casa-se com Pequena Rosário, com quem teve oito filhos, dentre os quais, Bela Natividade, a primogênita. Chamou-a o pai de "Meamirim" (= minha pequena), nome reduzido para Mirim, na cidade de Vitória, capital do Estado, para onde viera como tantos capixabas, nos anos 70, em busca de melhores dias. Mais uma vez, a busca da origem capixaba é o fruto literário do imaginário sobrepujando o histórico.

Sobre o século XVI, ficaram os relatos de visitantes e jesuítas e muita imaginação:

"A Capitania do Espírito Santo está cinqüenta léguas do Porto Seguro em vinte graus, da qual é capitão e governador Vasco Fernandes Coutinho. Tem um engenho somente, tirava-se dele o melhor açúcar que há em todo Brasil. Pode ter até cento e oitenta vizinhos. Há dentro da povoação um mosteiro de padres da Companhia de Jesus. Tem um rio mui grande onde os navios entram, no qual se acham peixes-bois que nenhum outro rio desta Costa. No mar junto desta Capitania matam grande cópia de peixes grandes e de toda maneira e também no mesmo rio há muita abundância deles. Nesta Capitania há muitas terras e mui largas onde os moradores vivem mui abastados assim de mantimentos da terra, como de fazendas. E quando se tomou a fortaleza do Rio de Janeiro desta mesma Capitania do Espírito Santo sustentaram toda a gente e proveram sempre de mantimentos necessários enquanto estiveram na terra os que defendiam" (GANDAVO, Pero de M., Tratado da Terra do Brasil. Publicado em 1576).

Literatura informativa ou documental, catequética ou religiosa, em prosa ou verso, carta, diálogo ou auto, a literatura do séc. XVI, pré-barroca, alicerça a base da literatura brasileira propriamente dita, iniciada com o barroco no séc. XVII. Sobretudo a literatura jesuítica reflete as contradições de uma cultura terminal, a da Idade Média, hostil ao negro e sem respeitar as tendências naturais do índio brasileiro, obstinada em sujeitar homens de cultura paleolítica a um ensino academicista e contraditório.

O Espírito Santo, pela sua privilegiada posição geográfica, exuberância tropical, clima temperado, abundância de rios e peixes, terras aparentemente férteis, embora imprópria para grandes plantações, foi o cenário ideal das lutas pela conquista da terra, de sua riquezas e de seus habitantes. No entanto, o ouro e as pedras preciosas que tanto buscaram aqui e que sonharam encontrar perto do litoral, no Mestre Álvaro, ou nas minas de Castelo, só foram achados bem mais à frente, nas Minas Gerais, o que acentua a decadência do Espírito Santo, uma morte já anunciada pelo fracasso de Vasco Coutinho e de seus descendentes.

O século XVII foi o da busca ao ouro e o da tentativa de invasão dos inimigos de Portugal e Espanha: franceses, ingleses e holandeses. Segundo Mário A. Freire, "o velho Tombo do Convento da Penha registrou a notícia de uma dessas invasões (de holandeses) em Vitória. Durante a luta, as mulheres postaram-se na Igreja da Misericórdia, donde, ao mesmo tempo que cuidavam dos feridos animavam os bravos defensores da pequena vila, até completa repulsa dos corsários." (FREIRE, Mário A. A Capitania do Espírito Santo. Vitória: Vida Capixaba, 1945, p. 43).

A presença das mulheres na liderança dos brasileiros e capixabas é o primeiro registro feito no Espírito Santo. Segundo Freire, "desprezada, nas doações das primitivas Capitanias, a famosa lei mental, contrária à sucessão de mulheres, pôde uma destacar-se como Capitoa e Governadora do Espírito Santo; por morte do filho de igual nome do Fundador, coube a donataria, em 1589, à viúva D. Luíza Grimaldi ou Grinalda. (...) Foi a doadora do sítio onde os franciscanos construíram, em Vitória, o convento; bem assim, do monte, com a ermida a S. Francisco e a capela de N. Sra. da Penha, na vila do Espírito Santo. D. Luíza Grimaldi recolhe-se ao convento, em Évora, onde reaparece, aos 85 anos de idade, como depoente no processo de beatificação do Padre Anchieta." (Id. Ibid. p.37).

A segunda mulher a ter registro na história e na ficção do Espírito Santo é Maria Ortiz (ou Urtiz), que, na invasão de Vitória, em 1625, reagiu contra os holandeses liderados por Pieter Heyn, despejando-lhes água fervente e afugentando os inimigos. Maria Ortiz ficou na história e na lenda do imaginário capixaba como mulher guerreira, símbolo de bravura dos primeiros habitantes, e vários escritores capixabas perpetuam sua lenda, refazendo-a, em forma de paráfrase, confirmando-lhe o mito, ou paródia, ironizando-o. Um dos últimos romances que abordam essa lenda é A Panelinha de Breu, de Bernadette Lyra, de 1992, que retoma o mito de Maria Ortiz, para recriá-la na figura de Dame Kiri, um travesti, na peça de teatro que encena os 435 anos de invasão dos holandeses. A literatura contemporânea brinca com a história, debochando dos fatos considerados reais e reforçando a lenda, instaurando novos sentidos para o homem e sua história.

O séc. XVIII é, também, o século da inquisição. "O Santo Ofício, que se mostrava tolerante com os mercadores e outros elementos de origem presumivelmente judaica, na população do Brasil depois do descobrimento das minas e da invasão dos franceses, no rio, em 1710 e 1711, mostrou-se mais rigoroso. Assim, em 1720, quando um alvará extinguia a Companhia de Comércio do Brasil, constituída oitenta anos antes, com propriedades e bens, excepcionalmente, de judeus penitenciados pelo Santo Ofício, fez a Inquisição seguir para Portugal, Brás Gomes, rico mercador em Vitória e proprietário de duas ou três casas de telha. Fora acusado de conservar um Crucificado em uma "caixa", as malas daquele tempo... Não lhe valeu justificar que estava preparando um lugar apropriado para a imagem; nem mesmo provar que possuía oratório para a prática devota das costumadas ladainhas. Deixou ao abandono duas irmãs e dois filhos, aos quais, por temor à Inquisição, ninguém mais quis agasalhar ou socorrer. Narra-lhes todo o infortúnio, constituindo romanesca odisséia, uma pequena brochura intitulada: "Um fato da Inquisição no Brasil e heroísmo de um Capixaba"... Na relação das pessoas procedentes do Brasil e condenadas pelo Santo Ofício, em 1729, figura Brás Gomes de Siqueira, natural da vila de Santos e morador no Espírito Santo, com a nota de ter parte de cristão novo, convicto, negativo e pertinaz: "Foi relaxado em estátua, por ter tido a fortuna de ter aparecido defunto nos cárceres... Logo, Pedro Gomes Pereira, outro morador de Vitória, apresou-se em requerer carta de brasão d'armas, depois de proclamado por sentença de 1723, livre da raça de judeu mouro ou de outra infecta nação..." (FREIRE, M. A. Op. cit., p. 97-98).

Explorar os temas regionais é tarefa que o escritor capixaba não deixa para os outros

Dois romances contemporâneos ficcionalizam fatos da Inquisição no Espírito Santo. O primeiro, As Chamas na Missa, de Luiz Guilherme Santos Neves, classificado no 1º Prêmio Rio de Literatura e publicado em 1985, ficcionaliza os fatos ocorridos na Vila do Santíssimo Sacramento (uma alegoria de Vitória), no início do séc. XVIII. Muito bem construído, ficcionaliza o tempo histórico da "Santa Inquisição" e sua perseguição a judeus, homossexuais, prostitutas, praticantes de outra religião que não a Católica, num diálogo intertextual com a história e a repressão política e religiosa de todos os tempos. A linguagem é uma recriação neobarroca, segundo análise da prof a. Maria Thereza Lindemberg Coelho Ceotto (Dissertação de Mestrado apresentada ao PPGL/UFES, em 1997, intitulada História, Carnavalização e Neobarroco. Uma leitura do romance contemporâneo do E. Santo). É uma das melhores obras literárias produzidas no Espírito Santo.

Um outro romance que trata de episódios semelhantes é O Mofo no Pão, obra da escritora e historiadora Neida Lúcia Moraes, publicada em 1994, e que ficcionaliza um fato histórico, a prisão de Nuno Alves de Miranda, em 1710, réu brasileiro, agricultor, humilde mas letrado, o que já o tornava suspeito aos olhos dos inquisidores. Seu "auto-de-fé" é de 1711. Nas lacunas da historiografia oficial, Neida Lúcia recria personagens, fatos e situações, ficionalizando vida desafortunada de Nuno, num recomeço sem princípio nem fim, representado sempre pelos ciclos que constituem a história do mundo e da humanidade" (MORAES, Neida Lúcia. Op. cit., p.170). Neida Lúcia prossegue com a história desse romance em O Sentido de Distância, publicado em 1997, continuando as narrações de Nuno, Mariana, Raquel, Henrni, Gonçalo, personagens criados na primeira obra. A historiadora Neida Lúcia, mais que ficcionista, declara na introdução de sua obra que ambos os livros tratam da "trajetória de homens e mulheres que enfrentam um mundo de mudanças, transições, novas verdades" (...) e que "a opressão de que os personagens são vítimas no século XVIII é atual. presente e emergente nos dias em que vivemos" (MORAES, Neida L. O Sentido de Distância. São Paulo: LISA, 1997, P. 09-11). Mais uma vez a literatura é chamada a preencher as lacunas da história, recriando-a e pondo em cena fatos que foram, consciente ou inconscientemente, ocultados, deturpados ou "esquecidos".

O século XIX, o padre Marcelino Duarte foi o mais V importante poeta da primeira metade do século. Seus versos líricos, sentimentais, românticos, foram publicados em 1856 e 1860, na antologia intitulada Jardim Poético (coleção de poesias antigas e modernas, compostas por naturais da província do Espírito Santo). Em maioria, os escritores dessa época foram padres e políticos, e o convento da Penha e os milagres de Nossa Senhora, além das dores, amores e infortúnios pessoais, foram os principais temas românticos capixabas. Segundo Oscar Gama Filho, tratava-se de um "aparelho cultural", que vai-se consolidar com o teatro, a partir de 1841. (Não por acaso, dentre os primeiros dramas encenados, em 08/09/1859, estava "Expulsão dos holandeses ou o Heroísmo dos brasileiros". In. GAMA FILHO, O. Razão do Brasil em uma sociopsicanálise da literatura capixaba. Rio de Janeiro: José Olympio; Vitória: FCAA/UFES, 1991, p. 47). O romantismo capixaba perdura até o final do século XIX, com a publicação de As Maravilhas da Penha, em 1888, de J.J. Gomes da Silva Neto.

Quem ficcionaliza o século XIX e a formação da classe burguesa no Espírito Santo é Renato Pacheco, com a obra O Reino não Conquistado, publicada em 1984. Centrando os fatos na figura de D. Mariana Costa Pereira, filha de Joseph Koster, um aventureiro inglês que se enriqueceu com o comércio, e Manjegbara, uma escrava africana — essa viria a tornar-se mãe do Presidente do Estado, Sebastião Costa Pereira, e de seu primeiro bispo, Dom João da Costa Pereira —, Renato Pacheco apóia-se na vida da matriarca da família Monteiro, influentes fazendeiros de Cachoeiro de Itapemirim, Da. Henriqueta Rios de Souza, que gerou bispo e presidentes. A narrativa constituída em três partes: "O manuscrito de Joseph Koster", 1817; "Portal de ouro", 1897; e "Folhas ao vento", 1967. Renato Pacheco, ao centralizar as ações na personagem D. Mariana, comprova a grande importância das mulheres na formação do povo capixaba. Maria Stella de Novaes, em obra inédita, A Mulher na História do Espírito Santo, em que mistura fatos históricos e lendários, relata a presença de várias mulheres e sua atuação na construção da identidade capixaba, desde a vinda de Vasco Coutinho. Dentre as lendas que conta, a primeira é a Pedra dos Ovos, em que uma jovem índia goitacá é raptada por um marinheiro branco. O índio mata a noiva com uma flechada, por ciúme, atira-lhe o cadáver ao mar e sobe ao Penedo, para suicidar-se. Uma "força enigmática" o afasta da morte e ele vai para o Norte, proteger os irmãos. As ondas trazem o cadáver da noiva e seu túmulo ficou assinalado pela "Pedra dos Ovos", como um coração petrificado.

 

Fonte: Jornal A Gazeta, A Saga do Espírito Santo – Das Caravelas ao século XXI – 19/08/1999
Autor deste texto: Francisco Aurélio Ribeiro
Pesquisa e texto: Neida Lúcia Moraes
Edição e revisão: José Irmo Goring
Projeto Gráfico: Edson Maltez Heringer
Diagramação: Sebastião Vargas
Supervisão de arte: Ivan Alves
Ilustrações: Genildo Ronchi
Digitação: Joana D’Arc Cruz    
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2016

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