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Os ignorados – Por Mário Martins

Mário Martins

A psicologia do capixaba não é muito conhecida no País. Ele próprio raramente é citado no anedotário nacional. É quase um desconhecido. Ou melhor, é ignorado. Fala-se da malícia do mineiro, da valentia do gaúcho, da oratória do baiano, do dinamismo do paulista, da tenacidade do cearense, do espírito do carioca. Fala-se das características do alagoano ou do sergipano, de todos enfim. Do espírito-santense nada se sabe, nada se diz. Por sua vez eles não falam deles mesmos. São silenciosos, diríamos um tanto tímidos. Quando um Rubem Braga se chateia com o regionalismo dos amigos e alguém duvida de seus títulos, sua frase máxima de jactância é irônica: — Modéstia à parte, eu sou de Cachoeiro de Itapemirim. Já o seu conterrâneo Newton Freitas, quando lhe perguntam qual o lugar que no mundo mais lhe agrada, ao contrário de todo o regionalista, responde: — Onde encontro amigos. Ambos os escritores refletem nas respostas o seu povo. De gente que não vive a bater no couro das próprias virtudes. Gente, pois, que não gosta de fazer barulho, de chamar a atenção alheia, de mobilizar aplausos ou boquiabertos. Sem vocação para passarelas, dificilmente posando em topo de escada. Gente que não dá um passo para brigar com ninguém, mas não recua um passo para deixar de brigar com alguém. A questão de limites com Minas é um exemplo. O Espírito Santo não avança, mas não cede um palmo.

Gente assim é dura de roer na luta. Não se deixa levar por entusiasmo, não comete leviandades, não se expõe. Como quem sabe que a sua força está na trincheira. Não arremete. Sempre contragolpeia, com tiro certo e flanco aberto. Não é, portanto, adversário para ser provocado. É tinhoso demais para largar a luta no meio ou cair em precipitações estratégicas. É aquele devagar e sempre que enerva e desmoraliza o antagonista.

O deputado Leonel Brizola quando desafiou o seu colega João Calmon estava pensando em encontrar um saco de areia. Desses que os pugilistas batem e batem e nunca têm troco. Ótimos para treino dos punhos. Seu engano foi não conhecer a mentalidade dos capixabas. Gente que não grita "hay que tener cuidado". Esse foi o seu erro, e fatal.

O resultado aí está. Quem aqui chegou para derrubar Lacerda e outros que tais, acabou encurralado quase por um desconhecido, um simples provinciano que jamais alguém teve em conta de grande tribuno, no máximo um orador para festa de batizados. Entrando pelo equívoco, o deputado Brizola penetrou no cano. Se não arranjar uma saída honrosa, acaba perdendo tudo que Marta fiou.

Há um quarto de século que eu convivo com os nossos patrícios do Espírito Santo. Na bandeira do Estado há uma legenda que eu, a princípio, considerava um tanto derrotista, passiva mesmo. Nela está: "Trabalha e Confia". Parecia a mim um histórico slogan patronal. Impróprio para ardores nativistas. Um dia descobri a sua origem, talvez levada por Anchieta, que por lá viveu e morreu. Era o lema da ordem do grande apóstolo: "Trabalhar como se tudo dependesse de ti e confiar como se tudo dependesse de Deus".

À sombra, pois, desse pavilhão — por sinal de cores otimistas: azul e rosa — os capixabas crescem. Nem acreditam na ajuda dos outros nem vão atrás de golpes de sorte ou azar. Apenas sabem que terão de dar tudo de si e confiam que tudo o mais está nas mãos de Deus.

Parada dura mesmo para quem tem outros estilos e acredita em conversa de cartomantes. Sobretudo para quem não leva fé em registros de cartórios e acha que ninguém vai se dar ao trabalho de perquiri-los.

 

NOTA: Mário Martins nasceu em Petrópolis e exerceu a carreira de jornalista no Rio, onde foi vereador, deputado federal e senador. Em 1961, por discordar do partido (UDN), renunciou ao seu segundo mandato como deputado. Em 1969, senador pelo MDB, teve os direitos políticos cassados pelos militares. A partir daí, mudou-se para o Espírito Santo, tornando definitiva uma ligação aberta na década de 30. Pai de 11 filhos, vive em Vila Velha. Esta crônica saiu no Jornal do Brasil, no início da década de 60.

 

Fonte: Os Capixabas, A Gazeta 14/12/1992
Autor: Mário Martins
Pesquisa e textos: Abmir Aljeus, Geraldo Hasse e Linda Kogure
Fotos: Valter Monteiro, Tadeu Bianconi e Arquivo AG
Concepção gráfica: Sebastião Vargas
Ilustração: Pater
Edição: Geraldo Hasse e Orlando Eller
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2016

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