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Pedra dos Passarinhos - Do Livro Krikati Tio Clê e o Morro do Moreno

Ruínas da casa onde morou o Primeiro Donatário da Capitania do ES. - Ilustração do Livro Krikati Tio Clê e o Morro do Moreno, 2006

CAPÍTULO XIII 

 

 

Deixando a Praia do Ribeiro, os três foram para a Praia da

Costa.

– Pessoal – disse Miguel – gostaria antes de mostrar uma coisa.

Olhem, estão vendo as ruínas desta casa? Aí morou e morreu o

Donatário Vasco Fernandes Coutinho. Seu filho, o segundo Donatário,

nasceu e também morreu aqui na sua Fazenda da Costa. Dizem

que o velho gostava de ficar na varanda de sua casa, no alto da Pedra

das Caiçaras, por horas, contemplando as ondas que lavavam a Ponta do Chavão e a Pedra do Sapo.

– Tio Miguel, por que o nome Pedra das Caiçaras?

– Krikati, caiçara é uma espécie de cerca feita com varas de

mato em volta de uma casa com a finalidade de proteger as criações.

Nessa região, você já sabe disso, há muita jibóia, gambá e sarué, que

atacam as galinhas.

– Então, Tio Miguel, deve ter sido por isso que as caiçaras

foram construídas e deram o nome à pedra, né?

– Pode ter sido, Krikati. Isso é muito antigo... É do tempo do

primeiro Donatário. Contam também que, certa vez, na maior ressaca

já vista por aqui, ondas gigantescas lavaram a Pedra da Mona, e

dezenas de ovos de andorinhas-do-mar foram lançados ao oceano e

levados até a praia, por milagre de Deus.

Krikati prestava uma enorme atenção no caso. E Tio Miguel

continuou...

– João Rita, pescador muito conhecido na região, recolheu

todos os ovos que encontrou na areia da praia e os levou para sua

cabana de palha de coqueiro, localizada em frente a uma pedra.

Durante o dia, ele aquecia os ovos na areia da praia ensolarada. À

noite, os colocava próximo ao seu fogão a lenha. Quando os filhotinhos

nasceram, João Rita os alimentou na mamadeira. Todos sobreviveram

e começaram a alçar seus primeiros vôos, mas sempre

ao entardecer davam um rasante sobre a palhoça do pescador para

depois irem dormir na pedra, em frente à sua casa. Por isso, a batizou

como Pedra dos Passarinhos, que é como é conhecida. Temos

que preservar nossa história e nossas origens para os que virão –

concluiu Miguel.

Finalmente os três passaram em frente à residência do senhor

Gastão Roubach, na Praia da Sereia, e seguiram até o bar de

um amigo.

– Tio Clê, o senhor conhece o dono desse bar que tem uma

sereia pintada na parede?

– Esse é o famoso Bar Sereia. Seu proprietário é nosso amigo

Lúcio Bacelar.

– O que há de gostoso aqui para comer?

– Krikati, não vá me dizer que você já está com fome? – perguntou

Tio Miguel, boquiaberto.

– Não, é só para saber. Um dia voltarei aqui com mamãe.

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– Krikati, a especialidade do Lúcio é pastel de bobó de camarão,

manjuba frita e arroz de tatuí com farofa, que é muito gostoso.

– Pessoal, – disse Clê, correndo na areia da praia – vamos até

aquela pedra, conhecida como Ponta da Sereia. Vou fazer uma brincadeira.

Os três chegaram à parte mais alta da pedra e ficaram admirando

a imensidão do mar, que estava de ressaca.

– Qual é a brincadeira, Tio Clê?

– É adivinhar o nome das ilhas. Miguel apontará para cada

uma delas e nós responderemos, um de cada vez.

– Valendo! – disse Miguel, apontando para a primeira pedra.

Krikati respondeu:

– Pacote.

Depois Clê:

– Escalvadas.

E as respostas continuaram. Um de cada vez, acertando todas:

Pedra dos Passarinhos, Ilhas Pombuçu, Jorge Fernandes, Taoninha,

Pituã, e Boqueirão.

– Acabaram as ilhas, Tio Miguel?

– Sim, Krikati. Deste ponto da Pedra da Sereia é o que a

nossa visão consegue alcançar.

– E quem ganhou?

– Se o número de ilhas for ímpar, Krikati foi o vencedor. Se

for par, houve empate. Entendeu?

– Quase, Tio Miguel. Mais tarde eu faço minhas contas –

concluiu Krikati.

 

Fonte: Krikati, Tio Clê e o Morro do Moreno,2006
Autor: Walter de Aguiar Filho 



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