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Técnicas de Confecção de Panelas de Barro

Queima:Prepara-se uma “cama” de madeira com superfície plana onde são colocadas todas as peças secas

Pasta: a argila é utilizada sem qualquer alteração da sua constituição original. Essa argila apresenta-se compacta, sendo formada por feldspato, mica, argilitos, areias e grânulos de quartzo e gneiss. Tecnicamente, pode ser classificada como grosseira pela visualização de fragmentos de rocha e por conter uma quantidade de matéria orgânica.

Como já foi mencionado, a argila tem um tratamento no local de extração para uma primeira eliminação de matéria orgânica e dos grãos de areia mais grossos. Depois de retirada é aglomerada em formato de uma “bola”, sendo então guardadas em compartimentos apropriados, e hidratadas, quando necessário.

Método de manufatura: a técnica de confecção das panelas de barro e a “modelagem”. As artesãs retiram uma quantidade de barro suficiente para a modelagem de uma peça. A seguir, amassa-se a argila hidratando-a, quando necessário, para obter uma melhor plasticidade. Nessa oportunidade, retira-se da argila as impurezas que vão aparecendo. Esse núcleo é colocado sobre um pedaço de tábua com superfície plana, o que vai facilitar a artesã na movimentação da peça no momento de sua confecção.

Após, é feita uma abertura no centro do núcleo e nesse ato é definido o formato da peça. A partir daí, modela-se o objeto com uma série de movimentos, inicialmente usando as mãos. A panela começa a tomar os contornos desejados, ato que as paneleiras chamam de “puxar a panela”, porque ela é constantemente alisada ainda pelas mãos e depois por diversos tipos de materiais, como casca de coco, pedaços de cuité e espátulas de madeira, ou até objetos de metal.

As cascas de coco e cuité, por terem sua superfície arredondada, são utilizadas para dar os contornos abaulados, principalmente da parte externa das panelas.

No processo de modelagem, as paneleiras controlam a espessura da peça e as sobras vão aparecendo na parte da borda e são constantemente retiradas e reintroduzidas no corpo da panela. Para o acabamento, principalmente da borda, são usados os dedos para um alisamento perfeito e determinação da espessura. Após tomar o formato desejado, a panelala é retirada da madeira para raspagem e eliminação do excesso de argila e dar forma a base, normalmente com um objeto de metal denominado de “arco”.

Nessa etapa é verificado se dentro da argila encontram-se bolhas de ar.

“...reconhecem o “ar” ao deitar a faca e deslizá-la na parte externa do objeto Débora explica que ‘...quando passa a faca molhada ela estufa...’ ‘Se ficar o ar a panela poca’, ...” (Waldeck, 1966, 19), ou seja, a peça depois de queimada fica toda trincada e até mesmo quebra.

Quando a peça necessita de um melhor acabamento é utilizado um objeto metálico, quase sempre uma faca, para alisamento do corpo da peça que geralmente é levemente umedecida. Depois a peça é colocada para secar e eliminar o máximo de água da argila.

Após a secagem, a peça passa por um processo de tratamento de superfície, coma raspagem e o alisamento feito com um seixo rolado passado com uma certa pressão na superfície das peças para eliminar as saliências provocadas pela grande quantidade de areia da argila. Os grãos de areia maiores, visíveis na superfície, são retirados e os outros fixados na pasta pela pressão do seixo rolado. Os sinais desse alisamento são bem visíveis depois da peça pronta.

Queima: após concluído o tratamento de superfície, as panelas de barro são colocadas novamente para secagem e eliminação total da água da argila ficando então prontas para a queima.

Todo processo da queima se dá ao ar livre e é realizado quando duas ou mais paneleiras possuem peças para queimar. Os trabalhos são feitos de forma conjunta, com determinação de funções específicas.

Prepara-se uma “cama” de madeira com superfície plana onde são colocadas todas as peças secas. Todo o vasilhame destinado à queima é cuidadosamente coberto por pedaços de madeira, geralmente leves e bem secos. O fogo é ateado em uma das “cabeceiras da cama” dando início à queima.

As paneleiras preferem que a queima seja feita com vento soprando do nordeste ou norte e que sua velocidade seja moderada, porque o vento forte queima mais rapidamente a madeira e as panelas não ficam no ponto desejado. Quando não há vento ou sua intensidade é fraca as paneleiras mais antigas “chamam o vento” assobiando.

“...quando não tem vento a gente assovia chamando o vento e as vezes nós batemos palmas para o vento chegar (...) quando não tem vento não podemos queimar as panelas porque o fogo não entra dentro da fogueira e das panelas...” (Laurinda Alves Lucidato).

À medida que a madeira vai sendo queimada, as panelas são retiradas para receber o tingimento de tanino. Para isso, cada artesã escolhe um lugar ao redor da “cama” de queima e deixa ao seu lado um vasilhame com a tinta do tanino, que foi previamente preparada, juntamente com um açoite, feito com um maço de “vassourinha do campo”, arbusto natural do local, também chamado de muxinga, e um pedaço de madeira. Além disso, a artesã mantém ao seu lado um pedaço da casca da árvore do mangue e um pequeno rolete de argila para utilizar quando as peças apresentarem fraturas. Depois dessa preparação, as peças vão sendo retiradas da “cama” ainda quentes, com um gancho com terminal metálico e imediatamente açoitadas com a tinta tanino.

“...Tem de estar no ponto de ser açoitada. Se tiver com mancha preta não pode tirar porque está crua...” (Waldeck, 1966.23)

A artesã, que mantém na mão esquerda um pedaço de madeira, utilizado para fazer a panela mudar de direção, realiza movimentos rápidos e com isso vai tingindo todo o vasilhame com o tanino.

Não se tem precisão sobre o grau de temperatura do fogo para a queima da cerâmica. Comparando com outras situações idênticas no Brasil e observações feitas nos locais de queima, verifica-se que a temperatura no ato da queima ao ar livre não ultrapassa os 400 ºC.

Durante o processo da queima algumas panelas se quebram. Umas, por ainda não estarem totalmente secas e, outras, por terem no seu interior uma grande quantidade de bolhas de ar. Essas bolhas de ar, na maioria das vezes, aparecem em função da queima da matéria orgânica que eventualmente não foi retirada no ato da confecção das panelas. É raro a quebra de panelas devido a má preparação da argila, principalmente de seu amassamento.

Depois de confeccionadas e queimadas as panelas de barro apresentam as seguintes características técnicas:

Textura: geralmente a cerâmica apresenta uma boa textura em função das técnicas de manufatura. Os elementos que constituem a argila também contribuem para uma boa compactação da pasta e eliminação quase total das bolhas de ar. As peças que apresentarem pequenas fraturas são recuperadas logo após a queima com a aplicação do líquido do tanino ou mesmo pela aplicação direta da casca do tanino, cuja resina faz com que esses trincamentos desapareçam. Quando a espessura do trincamento é muito grande (excedendo a 0,3 a 0,5 cm), é aplicada uma pequena quantidade de argila. Nesse momento, em função da temperatura da panela, a argila é rapidamente assimilada sem a necessidade de voltar ao fogo.

Dureza: medida pela escala de Mohls ela alcança de 3,5 a 4 graus de dureza.

Formas: atualmente são as seguintes as formas confeccionadas pelas paneleiras de Goiabeiras:

Assadeiras – vasilhame assimétrico de forma elíptica ou ovalada de corpo arredondado, com bordas retas ou levemente extrovertidas com bases planas. Variam pouco de tamanho. Quando encomendadas, as paneleiras fazem nos tamanhos desejados.

Caldeirão – vaso simétrico de boca redonda com a base plana e os lábios das bordas retos. São peças que variam de tamanho. As maiores chegam a ter a capacidade de armazenar cerca de 40 litros de água.

Frigideiras – panelas que têm a forma simétrica, suas bordas são extrovertidas e a boca totalmente ampliada. São peças rasas cujas bordas são levemente planas. Esse tipo de panela varia muito de tamanho. São classificadas pelas paneleiras como frigideiras grandes, médias e pequenas.

Panelas – as panelas são geralmente simétricas de forma arredondada, tendo dois tipos de corpo ovalado com bordas introvertidas, boca levemente constrita e bases planas e, outro, de corpo ovalado com bordas extrovertidas com boca expandida. É a forma mais característica e varia de tamanho, sendo denominadas de grande, média e pequena. Essas panelas, por terem sua boca constrita, recebem nas proximidades dos lábios quatro roletes que funcionam como pegadores.

Caldeirões – são peças de forma redonda, de corpo levemente inclinado e de bordas bem extrovertidas, tendo na sua base superior uma alça que caracteriza esse tipo.

Todas essas formas apresentam tamanhos diferentes, apesar de haver um certo padrão na sua circunferência e profundidade. As panelas para fazer moqueca são maiores que as utilizadas para fazer pirão, porque essas últimas têm o corpo mais extrovertido que as demais.

Além das formas tradicionais, as paneleiras confeccionam cinzeiros, recipiente para água e fogareiro e um tipo de prato feito exclusivamente para restaurantes em funções específicas – normalmente servem de suporte para servir peixe frito.

Espessura: a espessura das panelas varia no corpo da mesma peça. As bases sempre são mais espessas que as paredes dos lábios. Geralmente as bases chegam a ter mais de 1 cm de espessura, enquanto as paredes e nas proximidades das bordas menos de 0,70 cm.

Depois de todo esse processo é ainda necessário um outro procedimento chamado de “cura da panela”, ou “segunda queima”, feito pelo usuário para torná-las “panelas de fazer comida”.

São várias as maneiras de curar uma panela de barro. A mais comum é untar a parte interna das panelas com óleo de oliva (óleo bom) e submetê-las ao fogo. Outra forma é untar as panelas e depois introduzindo uma bola de papel na parte inferior das mesmas, colocando-as de boca para baixo e ateando fogo.

Quando o fogo não queima todo o óleo untado nas paredes da panela, algumas pessoas colocam farinha de mandioca levando-a novamente ao fogo para secar o seu interior.

 

Fonte: Memória Viva – As paneleiras de Goiabeiras. 1997
Texto e Pesquisa: Celso Perota, Jaime Roy Doxsey e Roberto A. Beling Neto
Fotos: Edson Chagas
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2012

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