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Ticumbi - Por Cleber Maciel

Tertolino Balbino, mestre do Ticumbi - Foto de Alair Caliari

O Ticumbi, Congada ou Baile de Congo é uma dança dramática que não se confunde com o Cucumbi carioca ou baiano, nem com a festa dos Congos de Goiânia, nem ainda com o auto do Congo de Ceará, nem com as Congadas gaúchas ou cariocas. No Ticumbi capixaba, não figura nenhuma “Rainha Ginga”, “Príncipe Sueno”, “Mametos”, “Quimbotos” ou qualquer “Feiticeiro”, nem o “Rei Cariongo”. Também não há mortes nem ressurreições, nem coroação de Reis ou Rainhas. E, assim, o Ticumbi capixaba é muito mais simples e menos dramático do que as representações mencionadas.

Mas, sem dúvida, pode ser classificado como um cortejo real, no qual há uma Embaixada de Guerra, com representações de episódios de combates.

O Ticumbi tem um enredo, que é desenvolvido longo e demoradamente, com bailados e cantos. Tudo composto por vários negros que representam o Rei de Congo ou “reis” de congo, o Rei Bamba ou “reis” de Bamba, seus Secretários e o corpo de baile ou “Congos”, que representam os guerreiros das duas “nações”.

Eles vestem longas batas brancas, rendadas, com fitas coloridas, calças brancas com friso lateral vermelho, ou sem ele. Na cabeça coberta por um lenço branco, um vistoso chapéu todo enfeitado de flores de papel de seda e/ou plástico, fitas coloridas e espelhos. Os “reis” usam coroa ricamente ornamentada com papel prateado e dourado, flores, peitoral vistoso, com espelhinhos e flores de papel brilhante, capa comprida de tecido estampado e, na mão ou na cinta, uma espada, tudo de evidente influência muçulmana. Os instrumentos musicais são apenas pandeiros e um violão, todos rústicos e de confecção própria.

São dois reis negros que querem realizar, cada qual a seu modo, a festa de São Benedito. Há Embaixadas ou representações de ambas as partes, com desafios atrevidos, nos quais são destacadas suas próprias qualidades cantadas pelos dois Secretários, que funcionam como Embaixadores. Por não ser possível qualquer entendimento ou ajuste entre os dois Reis, seus guerreiros travam a guerra, uma luta bailada entre as duas alas em que se organiza o grupo. Dança-se, então, a primeira guerra de “reis” de Congo ou guerra sem “travá” e, depois, a guerra “travada”. Desta última participam os dois reis que, no meio dos Congos, em roda, batem as espadas cadenciadamente, junto com seus Secretários, também empenhados na mesma representação de combate.

Vencido, afinal, o Rei Bamba submete, ele e os seus “vassalos”, ao batismo. A representação termina com uma festa em honra ao Rei Congo, quando, então, é cantado e dançado o Ticumbi, que dá o nome a todo o conjunto.

Essa dramatização é uma das lembranças ainda vivas da memória africana considerada uma das mais importantes manifestações da cultura afro-capixaba da região norte, São Mateus e Conceição da Barra, onde trabalhou, durante anos, e aí viveu o elemento escravo. Os nomes dos dois reis, Congo e Bamba, foram tirados, talvez, do grupo Bamba Congo ou Congolês, no qual se inclui a tribo dos Bamba-Congos. As embaixadas constituíam uma prática comum dos reinos africanos, antes do processo colonial destruir suas bases organizativas político-culturais.

Dentre os muitos registros documentais e comentários acerca do Ticumbi, pode-se destacar o da professora Bernadete Lyra, que analisa essa manifestação da cultura afro-brasileira e expõe aspectos do seu significado integral, no mais completo trabalho de abordagem dessa representação histórica e cultural africana no Espírito Santo(82).

Finalizando, verificou-se ser muito grande a cultura negra viva, presente e atuante, marcando tão profundamente o cenário da vida cultural capixaba a ponto de se poder dizer, sem receio de errar, que, existe sim uma base histórica de sustentação para a formulação da ideia de que existe uma possível “cultura afro-capixaba”. Além disso, mesmo parecendo que a herança cultural religiosa não tem relação direta com as sobrevivências religiosas atuais manifestas no Candomblé, é necessário, mais uma vez, lembrar que muitas antigas práticas religiosas da Cabula ainda hoje estão presentes na Umbanda. Por último, mesmo que pareça não haver relação entre o passado e o presente das práticas religiosas afro-capixabas com o Candomblé atual, sem dúvida, elas constituem elementos efetivos de preservação da cultura africana e afro-brasileira, não só no nível da memória religiosa, como em aspectos mais abrangentes de todo um conjunto de saber e concepção de mundo, abrangendo conhecimentos que incluem desde relações sociais, políticas e econômicas até ciência, arte e filosofia. Todos esses conhecimentos estão permeados e ligados pelas ideias religiosas, das quais não estão separados, ou melhor, com as quais formam um conjunto de saber integrado onde nada é estanque, o homem é visto por inteiro e seu mundo material não está separado do espiritual.

Assim, quando os negros fazem o Ticumbi, uma Congada ou uma Festa do Mastro, aí estão sendo representadas e relembradas a história, a política, a vida social e as lutas do povo, tanto na África, quanto no Brasil.

 

NOTAS

(82) LYRA, Maria Bernadette Cunha de. O jogo cultural do ticumbi. Dissertação de Mestrado. Comunicação. UFRJ. Rio de Janeiro. Mimeo, 1981. Neste trabalho a autora demonstra bem o fato de que no pensamento africano ou, afro-brasileiro, ou afro-capixaba, representado pelo Ticumbi, não há separação entre os diversos aspectos da vida humana, mas que há, sim, uma compreensão integral do mundo, onde o espiritual e material estão harmonicamente interligados.

 

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Fonte: Negros no Espírito Santo / Cleber Maciel; organização por Osvaldo Martins de Oliveira. – 2ª ed. – Vitória, (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2016
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2021

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