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Vida Capixaba - O Retrato de uma sociedade (Parte IV)

Capa do Livro: Vida Capichaba: O Retrato de uma Sociedade - 1930

"Vida Capichaba", A Revista 

3.1 Imprensa: Breve Histórico

A imprensa surge no Brasil em 1808 por mãos oficiais. Com a chegada de D. João VI são instaladas as oficinas da Imprensa Régia na cidade do Rio de Janeiro. Surgida no momento da transição do Brasil para sede do poder real, funcionava como um instrumento do governo monárquico, não gozando do que se costuma chamar de "liberdade de imprensa", devido a centralização do poder nas mãos do governo. A liberdade de expressão do pensamento só se afirma em 1821, quando D. Pedro decreta o fim da censura prévia a toda matéria escrita, tornando livre a imprensa brasileira.

A segunda etapa dessa organização se inicia em 1880 através da aventura industrial. O caráter empresarial toma conta das publicações, e a tipografia artesanal se transforma numa linha de produção que exige aparelhamento técnico e manipulação competente. Surge a empresa jornalística.

No período em que os acontecimentos no Brasil o levam ao governo republicano, a imprensa representou um retrato fiel do governo paternalista e anárquico vigente. Estava mais interessada em expandir suas bases comerciais, aumentando seus lucros enquanto empresa comercial, do que em empregar sua influência na orientação da opinião pública. Sobreviveu, geralmente, das subvenções de partidos ou grupos políticos, dando prioridade a publicações de anúncios ao invés de notícias relevantes. Não exerceu seu papel de informar ao povo, de maneira responsável e imparcial, os acontecimentos e fatos do período, contribuindo desta maneira para manutenção da ordem corrente (Bahia, 1990).

A mudança do regime político do país não alterou o desenvolvimento da imprensa, provocou apenas uma inversão de valores, as publicações que defendiam a república aumentaram seu prestígio e força perante aquelas que se colocavam ao lado da monarquia. A exaltação política da época era integramente retratada pela imprensa, que começava a refletir as insatisfações, mesmo que mínimas, das competições e rivalidades partidárias. A República então se mostra menos tolerante do que o Império, fechando vários jornais que se opõem a seu sistema, arranhando de forma significativa à liberdade de expressão.

O início do século XX demarca a transição da pequena a grande imprensa. Ligada às transformações do país, que via a ascensão da burguesia e o avanço das relações capitalistas, ratificava-se como uma empresa capitalista. Vendia-se informação como se vendia outra mercadoria qualquer, e a sociedade urbana necessitava da informação para tudo, desde o trabalho até a diversão. A imprensa era dominada pelas forças do Estado e do capital comercial, que reconhecem a compra da opinião nas publicações como um processo necessário, rotineiro e normal.

O tema que dominava as publicações da época era o político. Os artigos, que sempre assumiam aspectos pessoais, usavam de uma linguagem violenta visando a desmoralização pessoal, pois para a pequena burguesia nascente o regime era bom e os homens é que eram maus. Neste período também, a literatura e a imprensa se confundiam, os homens de letras buscavam encontrar nos jornais e revistas o que não encontravam nos livros: notoriedade e dinheiro.

No período de 1910 a 1920 os sinais de evolução no conteúdo e na produção de jornais e revistas foram visíveis. Os efeitos das profundas mudanças na sociedade, encabeçadas pela I Guerra Mundial, e nas relações dos povos com o sistema de comunicação de massa são incorporados pela imprensa, que volta a respirar uma atmosfera de liberdade.

 A imprensa afirma a partir de então sua força perante a sociedade brasileira, onde o público influi nas publicações e é influenciado por elas. Esta situação fica latente na campanha política presidencial de 1921, onde Artur Bernardes e Nilo Peçanha disputavam o cargo, porém Nilo Peçanha só teria sucesso se algum fator estranho interferisse no processo eleitoral.

Os partidários de Peçanha, fazem publicar então duas cartas falsas, atribuídas a Artur Bernardes insultando o Exército e o Marechal Hermes da Fonseca. O país passa a viver em torno desta notícia que acende violentas agitações políticas. Bernardes vira alvo de uma enorme campanha difamatória que, alimentada pela imprensa, conduz o povo a concentrar em um homem toda a sua decepção com a farsa política corrente. Este fato demonstra todo o poder de interferência da imprensa que, influenciando as forças dominantes, tanto quanto o povo, é capaz de provocar transformações na sociedade.

O governo Artur Bernardes foi marcado por censura rígida à imprensa oposicionista, que em um movimento de resistência não se calou. Ao contrário, se fortaleceu, juntando-se a outras camadas da sociedade insatisfeitas com o deturpado regime republicano. A imprensa, mesmo com estes contratempos, não deixou de se transformar, adquirindo a cada dia uma forte estrutura empresarial.

O governo começa a ter sua área de influência reduzida, minado pelos movimentos militares de oposição e pelas ações da burguesia nascente que não se sentia segura com o regime republicano oligárquico do país. A maioria da imprensa tendia para o oposição, se contrapondo aos velhos processos políticos.

Esta postura se refletiu na campanha política de 1929, onde a maioria da imprensa se colocou ao lado da Aliança Liberal, agrupando as forças de oposição a favor da candidatura de Getúlio Vargas. Por essa época a imprensa oposicionista era infinitamente superior a conservadora, fazendo com que o clima político estivesse constantemente agitado. A luta política da sucessão era travada à base da imprensa, que assim se tornava uma valiosa arma no processo eleitoral.

O movimento de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, provocou inicialmente a prisão de vários jornalistas que o apoiavam. Porém, com a deposição do Presidente Washington Luis, o povo encheu as ruas, voltando sua fúria contra a imprensa governista, que foi, praticamente, liquidada.

As notícias da Revolução foram apresentadas com atraso pela imprensa, que além das dificuldades na comunicação não se alinhava aos movimentos que refletiam transformações sociais que navegavam na rebeldia (Bahia, 1990). As informações registradas eram apenas as oficiais, onde um noticiário incipiente não informava a nação de que o país estava mudando.

Somente a partir do final de outubro de 1930 as publicações explicitaram a existência de uma revolução vitoriosa, apoiada pelo povo. A imprensa se identificou com a revolução, moldando-se a nova realidade política e econômica nascente e dando suporte ao seu objetivo de avanço da sociedade em busca do progresso do país. Surge uma imprensa mais contestadora, preocupada em informar e não em esconder os fatos da população.

Este modelo de imprensa, introduzido no país a partir da criação da Imprensa Régia no Rio de Janeiro, só surgiu no Espírito Santo 32 anos depois. A primeira tipografia de Vitória foi fundada em 1840, visando a publicação do "Estafeta", publicação totalmente comprometido com o governo e suas diretrizes. Na verdade um órgão oficial empenhado nas publicações das ordens e atos oficiais.

No período que se segue, praticamente todas as publicações que surgem em terras capixabas foram marcadas por uma linha política de atuação, ora defendendo-as, ora atacando-as. Prevalecia a defesa da ordem vigente, conservadora e monárquica. As poucas tentativas de disseminação de artigos contrários eram reprimidas, levando muitas vezes a apreensão da edição por determinação governamental.

Na estrada que o país trilhava para um novo regime, vários órgãos estaduais se tornaram ferrenhos propagandistas da tão sonhada República. Exemplo marcante foi o periódico "O Cachoeirando", publicado em Cachoeiro de Itapemirim, que adotou uma linha republicana tornando-se importante órgão propagandista do regime, empreendendo uma verdadeira cruzada contra o Império. Juntamente com os "clubes republicanos", que ajudaram na disseminação das diretrizes da nova causa política, tornou-se, após o real advento da República, um órgão totalmente comprometido com o novo regime. Mais uma vez fica explícito o caráter influente da imprensa, que se ligando a uma corrente, ou defendendo determinada causa, sempre produz questionamentos na sociedade, que podem resultar ou não em mudança.

A imprensa capixaba viu surgir e desaparecer inúmeros jornais e revistas, demonstrando um expressivo movimento nas publicações. Apesar de estar indissoluvelmente ligada a literatura, e sofrer grande influência do Rio de Janeiro, a imprensa local se caracterizou por órgãos político-partidários, criados, às vezes, com objetivo exclusivo de sustentar ou derrubar candidaturas, elogiar ou atacar posições, favoráveis ou contrárias à situação.

Gazeta — fundada em 1928, e A Tribuna — fundada em 1938, são as publicações mais importantes do Estado, no final da década de 1990. Juntamente com o Diário Oficial e à Vida Capichaba representam os mais importantes órgãos da imprensa local em toda a história do Espírito Santo. Refletindo o cotidiano capixaba, participaram e participam ativamente do desenvolvimento da sociedade, contribuindo decisivamente, muitas vezes por iniciativa própria, para renová-la, vinculando-a à novos ideais ou modificando-lhe a estrutura com a introdução de novos elementos.

 

Fonte: “Vida Capichava”: O Retrato de uma Sociedade – 1930. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo - 2007
Autor: Jadir Peçanha Rostoldo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2019

Revista: Vida Capichaba

Vida Capixaba - O Retrato de uma sociedade (Parte I)

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