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Vitória, cidade sol, mas nem sempre - Por Francisco Aurélio Ribeiro

Vitória vista do Convento da Penha - Tela: Guilherme Merçon

Muito antes de ser a “cidade sol com o céu sempre azul”, cantada em prosa e verso por Pedro Caetano, paulista radicado no Espírito Santo, e por todos nós, Vitória foi a Guananira dos seus antigos habitantes, antes de os portugueses vierem, virem e vencerem. De acordo com Samuel Duarte que, além de cirurgião-dentista, romancista, radioamador é, também, tupinólogo, o nome Guananira pode ser explicado de três maneiras: 1) "baía, ou enseada, semelhante ao mel", por suas águas tranquilas; 2) "o que come o mel"; 3) "a que é semelhante ao mel". Ou seja, era doce a ilha de Vitória para os seus primeiros moradores.

Com a chegada dos portugueses, a Guananira tupiniquim passou a ser, paulatinamente, ocupada pelos novos colonizadores, que lhe deram o nome de Ilha de Santo Antônio. Depois, passou a se chamar Ilha de Duarte Lemos, após a doação feita a esse fidalgo por Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro donatário. Nas terras de Duarte de Lemos, ergueu-se uma Vila Nova do Espírito Santo, em oposição à Vila Velha, na Cidade Alta. Não se sabe, exatamente, o momento em que a Vila Nova do Espírito Santo passou a se chamar Vitória, pois a historia não registra uma grande batalha entre portugueses e índios nativos que justificasse tal mudança. O artista plástico e capixabista-mor Kleber Galvêas sustenta a tese de que a mudança ocorreu a partir de 1571 quando houve a batalha de Lepanto, na Grécia, e as tropas dos cristãos venceram as dos turcos-otomanos. Por sugestão do papa da época, passou-se a se cultuar Nossa Senhora da Vitória e várias localidades do mundo católico foram batizadas com esse nome.

E deve ser isso mesmo, pois José de Anchieta (1534-1597), o Apóstolo do Novo Mundo, escreveu o auto "Quando no Espírito Santo se recebeu a relíquia das onze mil virgens" e que deve ter sido encenado, segundo o professor Renato Pacheco, "no pátio da Igreja de São Tiago (Hoje Praça João Clímaco) cuja construção foi iniciada em 1573". Dentre os personagens da peça teatral, o Diabo, o Anjo, S. Maurício e S. Vital, está a própria Vila de Vitória, que assim proclama: "Da Senhora da Vitória,/"Vitória" sou nomeada./E, Pois sou de vós amada,/D'onze mil virgens na glória/Espero ser coroada."

Vitória foi uma pacata vila de pescadores, pequenos comerciantes, soldados de seus vários fortes e fortins e de religiosos, durante 400 anos. Daí ser conhecida pelos viajantes e por seus moradores como "cidade presepe (ou presépio)". Só no século XX, com a construção do porto para a exportação de café, principalmente, e, mais tarde, a presença da CVRD e do minério de ferro vindo das Minas Gerais, culminando com a construção do porto de Tubarão, Vitória foi perdendo a cara de cidade presépio cantada por Adolfo Fraga, Haydée Nicolussi, Areobaldo Lelis Horta, Elmo Elton, Geraldo Costa Alves e tantos outros.

Mais recentemente, em 1980, o prefeito Carlos Lindenberg decretou como hino oficial de Vitória a canção de Carlos Cruz, Almeida Rego e Maestro Carioca, que tem a seguinte letra: "Vitória, Da Vila Nova antiga/ Hoje o progresso tem vida/ No porto que é Tubarão/ Vitória das vitórias/A terra feliz onde eu nasci,/ Tem no Penedo bravura/ E doçura em Camburi,/ Vitória/ Minha querida Vitória /És a cidade presépio/ Orgulho do meu coração!" Parece que foi essa a última tentativa de consagração do epíteto "Cidade Presépio" a Vitória. Extra-oficialmente, consagrou-se a canção "Cidade Sol", de Pedro, Caetano, como o hino afetivo ou emocional de Vitória e, a partir dai, não mais se referiram à nossa bela capital como "Cidade presépio" mas, sim, como "Cidade Sol". Eis o que diz a letra, de fácil memorização: "Cidade Sol, com o céu sempre azul/ Tu és um sonho de luz norte a sul/ Meu coração te namora e te quer/ Tu és Vitória um sorriso de mulher/ Do Espírito Santo, és a devoção/ Mas para os olhos do mundo, és uma tentação/ Milhões te adoram, e sem favor algum/ Entre os milhões, eis aqui mais um". É a mesma metáfora utilizada por Haydée Niccolussi, em 1928, a da "cidade-menina que se faz mulher".

Enfim, Vitória transformou-se de cidade presépio, a cidade sol, mas perdeu a sua aura de bucolismo, a sua cara provinciana de vila portuguesa à beira-mar plantada. Quando estive em Funchal, na Ilha da Madeira, imaginei que Vitória deveria ter sido um pouco como aquela bela e gostosa cidade, com seus casarões coloniais margeando o canal, suas igrejas pré-barrocas apontando para o céu e vistas desde o mar, o majestoso colégio dos jesuítas, hoje, Palácio Anchieta, o Penedo, escadarias e praças. Muito pouco restou desse passado e de sua história. O céu nem sempre é azul, mas vermelho ou cinzento, dependendo da quantidade de pó de minério jogado por suas indústrias poluidoras. Vitória perdeu as curvas de suas baías e ilhas, com os aterros e, hoje, é uma cidade congestionada e intoxicada. A cidade sol se torna caótica com a chuva, os alagamentos, o assoreamento do canal da baia. O progresso repentino e a qualquer custo tirou a inocência da  nossa capital. Mas, mesmo assim, e apesar de tudo, Vitória é bela, uma das mais harmoniosas capitais do Brasil, principalmente se a vimos do alto da terceira ponte ou do campinho do Convento da Penha. Vitória lembra Salvador e o Rio de Janeiro, mas delas se diferencia, pois tudo aqui é mais contido, menos exuberante, como o próprio capixaba e a sua alma, um misto de beija-flor e panela de barro, como a cantou uma de suas poetas, a atriz Elisa Lucinda.

 

Fonte: Vitória, Cidade Sol – Escritos de Vitória nº 25, Academia Espírito-Santense de Letras e Secretaria Municipal de Cultura, 2008
Autor do texto: Francisco Aurélio Ribeiro. Nasceu em Ibitirama, ES em 1955. Formado em LETRAS e DIREITO, fez Especialização em Língua Portuguesa (PUC-MG), Administração Universitária (OUI-UERJ), Mestrado e Doutorado em Letras (UFMG). Pertence à Academia Espírito-santense de Letras, da qual é Presidente, em seu terceiro mandato, e ao Instituto Histórico e Geográfico do Espirito Santo.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2019

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