Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Vitória - Pavarotti e Tito Schipa e a paisagem humana

Capa do Livro: Escritos de Vitória 12 - Paisagem

Estamos em Vitória. Ano de 1995. Apreciador do canto lírico, fico, por vezes, imaginando como seria um espetáculo de Pavarotti em Vitória.

Na chegada, o aeroporto se encheria de fãs e curiosos. As rádios, TVs e jornais fariam formidável estardalhaço. A exclusividade por uma entrevista talvez fizesse correr alguns milhares de dólares.

Onde iria se hospedar o grande astro? As exigências seriam enormes e talvez os hotéis da cidade não tivessem condições de atendê-las.

E o espetáculo? Onde se realizaria? Teatro Carlos Gomes? Impossível, pelas dimensões e por problemas de estacionamento e segurança. Estádio Salvador Costa? Haveria muitos problemas técnicos para contornar. Ginásio do Álvares Cabral? Seria o local mais provável, desde que obtivesse a aprovação do astro internacional. Mas, considerada a capacidade do ginásio, poderiam os promotores do evento, de olho num grande lucro, fixar um preço de ingresso acessível ao poder aquisitivo do grande público? Hipótese pouco viável; afinal o cachê a ser pago seria astronômico, além dos gastos altíssimos com a parafernália das toneladas de aparelhagem de som e luz, e o batalhão de engenheiros especializados e outros técnicos. Muitos músicos teriam de ser importados do Rio ou de São Paulo para completar a grande orquestra exigida pelo cantor. Acredito que poucos, ou quem sabe ninguém, se arriscariam a bancar a promoção.

É, talvez tenhamos de nos conformar. Pavarotti jamais virá cantar aqui.

Continuamos em Vitória. Agora na década de 50. Está entre nós alguém que, como Pavarotti, cantou nos mais famosos palcos do mundo e ocupou, na história do canto lírico, um lugar de destaque semelhante ao que hoje ocupa o grande tenor italiano ao lado de Carreras e Domingo. Era ele Tito Schipa.

E Schipa cantou em Vitória. No pequeno Carlos Gomes encantou a todos que foram ouvi-lo com sua impecável técnica vocal, acompanhado por um simples piano. E não foram muitos os que lá estiveram; não chegaram a lotar completamente o teatro.

Não sei bem como chegou a Vitória; se de avião, de trem de ferro ou de navio. Sua chegada não foi motivo de alvoroço na imprensa. Deve ter-se hospedado num dos modestos hotéis da época. Vitória não possuía ainda os excelentes quatro ou cinco estrelas de hoje.

Na manhã do dia do espetáculo esteve na Casa Guarany (em frente ao prédio que hoje abriga a Escola de Artes FAFI) e, tranqüilamente, autografou exemplares de discos seus, 78 rpm.

À frente da famosa personalidade lá estava um jovem admirador. Terá sido um sonho? Talvez agora pudesse pensar assim, não fosse o exemplar autografado, com as canções "Tu" e "Io e la luna", que carinhosamente guardo comigo. E não foi nada difícil conseguir o autógrafo. Não havia filas intermináveis. Não havia seguranças truculentos e não havia a balbúrdia dos repórteres.

Tudo isso é explicável. Embora no mundo operístico tenha sido um dos nomes maiores, Schipa viveu numa época em que os fatos não alcançavam as fantásticas dimensões dadas hoje pela mídia. O rádio estava ainda em seus primórdios, a indústria fonográfica idem, no cinema a ópera tinha poucas oportunidades, a imprensa escrita, como em nossos dias, atingia público bem mais reduzido e, sobretudo, não havia a TV.

Era um mundo diferente. Melhor? Não sei, mas diferente, muito diferente. Era um tempo, como diz meu amigo Miguel Tallon, em que se podia sair do Bar Marrocos às duas da manhã e caminhar até o Parque Moscoso sem se ser molestado.

Será que estamos pagando um preço muito alto?

De qualquer modo, como afirma K. Boulding, não há lugar para retorno. Temos de "abrir caminho para a frente". Talvez só nos reste dizer: "Como era verde o meu vale e o vale daqueles que se foram."

 

ESCRITOS DE VITÓRIA — Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.

Prefeito Municipal: Paulo Hartung

Secretário Municipal de Cultura e Turismo: Jorge Alencar

Diretor do Departamento de Cultura: Rogerio Borges

Coordenadora do Projeto: Silvia Helena Selvátici

Conselho Editorial: Álvaro José Silva

José Valporto Tatagiba

Maria Helena Hees Alves

Renato Pacheco

Bibliotecárias

Lígia Maria Mello Nagato

Cybelle Maria Moreira Pinheiro

Elizete Terezinha Caser Rocha

Revisão: Reinaldo Santos Neves , Miguel Marvilla

Capa: Pedra dos Olhos, (foto de Carlos Antolini)

Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringer  

Impressão: Gráfica Ita

Fonte: Escritos de Vitória 12 – Paisagem - Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – PMV
Autor do texto: Ivantir Antônio Borgo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

Literatura e Crônicas

Krikati, Tio Clê e o Morro do Moreno

Krikati, Tio Clê e o Morro do Moreno

As histórias do Morro do Moreno são contadas no livro KrikatiTio Clê e o Morro do Moreno”, de autoria de Walter de Aguiar Filho. O livro tem como público-alvo crianças e adolescentes, e conta em forma de diálogo as aventuras vividas por um menino e um homem sábio.

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Meio-Fio - Tipos Populares de Vitória

Foi assassinado, covardemente, em Vitória, no mercado da Vila Rubim, em madrugada de janeiro de 1962

Ver Artigo
Dona Calu já partiu - Por Mário Gurgel

Raymundo é o nome desse rapaz, que empresta agora o seu esforço e a sua colaboração na Companhia Ferro e Aço de Vitória

Ver Artigo
General Osório Número 120 - Por Mário Gurgel

Oferta de uma criatura residente na Rua General Osório 120, para a festa de Natal dos menores da Casa do Menino

Ver Artigo
Sadona Piriquita -Por Elmo Elton

Vendo-a tão empiriquitada, de sapatos altos, brancos, que mal se lhe ajustavam nos pés, eis que a molecada gritava ...

Ver Artigo
Dona Domingas - Por Elmo Elton

Magra, negra, feia, desdentada, embodocada, lenta nos gestos e no andar, voz grave, parecendo de homem

Ver Artigo