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Virgilio Vidigal – Por Levy Rocha

Foto do autor do livro, Levy Rocha

A 4 de setembro de 1896, na Freguesia de São Pedro do Cachoeiro, nascia Virgílio Rodrigues da Costa Vidigal. Era Vitória, para onde foram de mudança os seus pais, ele freqüentou a escola primária e deixou, pela metade, o curso secundário, no Ateneu Provincial, sentindo-se, ao mesmo tempo que enfeitiçado das musas, um prisioneiro de Cupido. Casou-se antes dos vinte anos, com a filha do Padre Antunes de Sequeira, outro poeta e enaltecedor das letras capixabas. No Espírito Santo, exerceu o magistério primário, foi solicitador e pequeno industrial, até 1895. Nos anos seguintes, percorreu alguns Estados do Norte. De 1900 a 1904, colaborou na imprensa carioca, em vários jornais e revistas literárias.

As dificuldades financeiras que haviam de acompanhar o poeta, deixaram marcantes reflexos em sua inspiração, mais acentuados nos poemetos: "Adamastor" e "Ontem e Hoje" e nos sonetos: "Revolução", "Resignação" e "Realismo", sendo que, no último, há quase uma verdadeira profissão de fé:

"É ridículo, não é? viver rimando,

Quem não tem cobre e sim mulher e filhos?

Quem pretende escrever uns dois idílios

E vê que a vela vai já se acabando?

 

Muitas vezes me ponho figurando,

Que sou rico e sou livre d'empecilhos;

Imagino um namoro — e os belos cílios

Da minha loira amante canto, quando

 

Diz-me a filha: — Papai eu quelo pão!

Acrescenta a mulher: — Deixe o versinho

Falta carne, farinha, alho e feijão.

E eis que ia dizendo: — é como arminho

O teu rosto, divina...

Em confusão,

Concluo: Arroz, manteiga, alho e toucinho."

 

Em 1886, Virgílio Vidigal imprimiu, na tipografia d' "A Província do Espírito Santo", o seu livro de estréia: "Cantos e Prantos", pequeno opúsculo de 76 páginas que recebeu animadora acolhida. Afonso Cláudio foi um dos que louvaram o lançamento, tendo escrito nas colunas do citado jornal uma crítica que posteriormente inseriu em sua "História da Literatura Espírito-Santense".

Um jornal: "O Pimpão" (ano II — n°.39 — 19 de outubro de 1889), em apreciação sobre o vate cachoeirense, estampava: "...Virgílio é um dos poetas que mais amou a Arte e a Forma. Empobrece, muita vez, o assunto para enriquecer a rima; para elevar a forma". E, mais à frente: "...Não é doado destes momentos entusiásticos tão comuns em Castro Alves, mas possui esse dom natural que se torna o contraste das lindas produções de Abreu. O autor dos "Cantos e Prantos" não é somente o poeta sentimentalista, é também um espirituoso psicologista social, como se pode ver em seu poemeto: "Adamastor". É justamente ali que melhor se pode analisar sua dor íntima, seu ódio pelo dinheiro, asco pelo poder. Aquele poemeto é seu brado colérico, sua blasfêmia contra uma sociedade velha e corrupta de dezoito séculos, é injúria com a qual tenta levar o rubor às faces cínicas dos lendários opressores". A apreciação continua, noutros trechos: "... A "Agonia", sua melhor poesia, seu verdadeiro lavor, é a filha ingênita desse sentimento natural que deu o mais terno poeta de nosso século: Lamartine. "Saudades", "Desengano" e "Vem!...", são o fruto de seus dissabores e alegrias amorosas".

Por um acaso feliz, comprei um exemplar de "Cantos e Prantos" com a marca dum carimbo da "Farmácia de Bernardo Horta de Araújo" na página frontal. Acredito que o livro tenha pertencido a Bernardo Horta, beletrista que se tornou o maior vulto de Cachoeiro.

Nesse volume, está inserta a poesia: "Ressurreição de Lázaro", de valor antológico, que pode resistir qualquer cotejo com as de nome idêntico da lavra dos poetas Fagundes ou F. L. Bittencourt Sampaio.

Outro confronto que não deslustraria o nosso poeta. poderia ser feito com o "Canto da Mulata", tema do qual Trajano Gaivão escreveu, em 1853, "A Crioula" e que Melo Moraes Filho também glosou nos versos intitulados: "A Mulata", publicados no "Éco Americano", em 16 de outubro de 1871 e incluídos no livro: "Cantos do Equador". Como é um pouco longa essa poesia, "que o povo recita e adora como criação sua", conforme testemunhou, na época, o crítico d’ “O Pimpão", transcrevo alguns versos:

"...Inda ôntem à tardinha, o ioiô,

Na saleta me disse: — vem cá!...

Dá-me um beijo. mulata querida!...

Mas... não contes a tua iaiá..."

 

E eu sorrindo, êle veio ligeiro

Um beijinho no rosto me dar,

E depois... oh! me disse umas coisas...

Mas... não posso, não devo contar."

 

A 17 de setembro de 1887, o jornal "O Espírito-Santense" publicava a seguinte notícia: "Flores do Êrmo" — É um livro de versos do autor dos "Contos e Prantos", Virgílio Vidigal, com uma introdução de Athayde Júnior, que brevemente sairá à luz. Está ele dividido em três partes: 1.a — Borboletas (descrições); 2.a — Irídeas (sátiras) ; 3.a — Saudades (versos amorosos e sentimentais) . Cada volume, nitidamente impresso com uma fotografia do autor, custa 2$000 (dois mil réis). No dito jornal, era anunciado outro livro: "Helena ou a Vítima da Aristocracia" — Fragmentos em forma de romance, em prosa e verso, pelo mesmo (Virgílio Vidigal), sendo o custo de cada volume: 1$000 (um mil réis).

Em nenhuma publicação: jornal, livro ou revista, encontrei qualquer outra alusão aos dois livros anunciados, cujas assinaturas podiam ser feitas nas tipografias dos três jornais que se editavam em Vitória: "O Espírito-Santense"; "A Província" e "Folha da Vitória".

O segundo livro conhecido de Virgílio Vidigal, ele o lançou, em 1891: "Irídeas". Afonso Cláudio teve ocasião de emitir sua crítica, reproduzida na "História da Literatura Espírito-Santense". Celso Bomfim diz que manuseou um exemplar, donde copiou: "A Cruz", produção que também resiste a um paralelo com a de Gonçalves Dias, feita com versos medidos para darem o formato tipográfico do madeiro santo.

Em 1907, Virgílio Vidigal achava-se no Amazonas, onde colaborou na imprensa de Manaus e foi colhido pela morte, a 26 de dezembro daquele ano.

 

Fonte: Crônicas de Cachoeiro, 1966
Autor: Levy Rocha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2016

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