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A araponga do senhor Joaninho - Sérgio Figueira Sarkis

Nesta foto de Antônio Carlos, no destaque, à esquerda , o Edifício Avancini, na Rua Brasílio Daemon, onde morava o senhor Joaninho; e, à direita, nossa casa apesar da distância, o "martelar" da araponga irritava minha mãe.

Joaninho Gasparine era casado com Dona Amélia Vervloet Gasparine. Eles moravam em frente à nossa casa, no Edifício Avancine, segundo andar. Pessoa simples e muito simpática, dedicado à família, pouco saía de casa, apenas para pequenas compras de pães, gêneros de alimentação e coisinhas assim.

Entretanto, era um excelente criador de pássaros: bicudos, canários, coleiros, dentre muitos outros, e, principalmente, uma araponga. E mamãe, grávida de Miguel, já não aguentava mais o canto estridente desta ave. Todos os dias, todas as horas, estava lá ela, infernizando os ouvidos da gestante.

Embora não fosse dada a desejos, já não suportava mais aquele barulho semelhante às pancadas de um ferreiro na bigorna: peiiimmm, peiiimmm, peiiimmm... Passados dias, semanas e meses sem solução para o problema, papai procurou o senhor Joaninho e fez uma proposta.

Depois de explicar o problema de mamãe, pediu que aquele pássaro fosse levado para bem longe dali, até que ela viesse dar à luz, quando então a paciência dela estaria mais calma. Nada feito!

Então, após vários dias de conversa sem lograr qualquer êxito, papai propôs comprar a araponga. Aí começou a inhaca. Proposta daqui, recusa de lá, preço baixo, preço alto, até que o homem aceitou um valor. Embora fosse caro, resolveria o problema de mamãe.

Papai pega a gaiola com a araponga dentro e a leva para a casa de um conhecido, bem longe dali, e o presenteia com o dito pássaro. Silêncio e paz total na casa dos Sarkis. Chegaram até a abrir um vinho do Porto para comemorar.

Alguns dias depois, são despertados por aquele mesmo barulho conhecido. Abrem a janela e o que veem? Outra araponga na varanda do senhor Joaninho. Papai, desesperado, troca de roupa e segue célere à casa do mesmo, exigindo explicações a respeito.

O senhor Joaninho, com a simplicidade que lhe era peculiar, esclarece:

— Senhor Michel, fiz um grande negócio com o senhor. Vendi a araponga pelo preço que combinamos e, com o que recebi, comprei duas outras. A primeira chegou hoje. A outra vem amanhã.

O jeito foi mamãe e papai mudarem-se para a casa dos meus avós até que Miguel nascesse.

 

Fonte: No tempo do Hidrolitol – 2014
Autor: Sérgio Figueira Sarkis
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2019

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