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A chegada da água e energia em Vitória

Vista geral de Duas Bocas ( anos 60 ) antes da primeira estação de tratamento de água - Fonte: Das Fontes e Chafarizes às Águas Limpas, ano 2012

Para vencer as deficiências técnicas, Jerônimo Monteiro contratou com o notável engenheiro paulista, Augusto Ramos, o projeto e a construção do abastecimento de água e esgoto, assim como da hidroelétrica do Jucu. Nas controvérsias naturais, em empreendimentos dessa ordem, Jerônimo Monteiro busca sempre autoridades para decidir. Assim foi, quando da escolha do manancial de água, em que as opiniões se dividiam pelo Formati, em Viana, ou Duas Bocas, em Cariacica. O então jovem engenheiro Ceciliano Abel de Almeida, cuja probidade tanto o enriquece auxiliar em vários setores do grande governo, havia feito os estudos do abastecimento de água. Era preciso eleger-se a melhor solução: perenidade do manancial, quantidade e qualidade da água, custo do investimento.

O Dr. Jerônimo nomeou os químicos Daniel Henninger, Teodoro e Gustavo Peckolt para opinarem sobre a potabilidade da fonte.

A potabilidade nas fontes era satisfatória. Restava a perenidade, que foi assegurada por testemunho em juízo. A preferência foi dada ao córrego Duas Bocas.

Os contratos assinados com o Dr. Augusto Ramos, em 13 de novembro de 1908, receberam aditamento de 6 de agosto do ano seguinte e ao invés de se aduzir 2.400.000 litros de água por dia, a captação passou para 3.600.000, e, antes de terminado o serviço, com a contribuição do Pau Amarelo, foi elevada para 4.000.000. Homem providencial. Dirá no seu documento máximo: "Dispostos os trabalhos preparatórios e, aparelhado o contratante de pessoal apto, as obras rigorosamente atacadas, correndo o serviço de acordo com as condições contratuais."

"Assim, em 25 de setembro de 1909, (1) quando já a água jorrava no grande reservatório do morro de Santa Clara e abastecia as primeiras instalações públicas e particulares da cidade, fez-se festiva e solene inauguração dos serviços, cerimônia presidida pela mesa do Congresso Legislativo, que, para tal fim, tive a satisfação de convidar como a mais justa homenagem àquela ilustre corporação política".

Vi homens e mulheres, molhados pelos repuxos, chorarem comovidos, quando a água começou a correr nas torneiras e esguichou triunfalmente na Praça Oito.


REALIDADE

 
Vitória tornou-se cidade habitável, quanto às condições sanitárias, e em pé de igualdade com as melhores capitais brasileiras. Água pura e abundante, serviço regular de limpeza pública, hospital moderno, isolamento discreto para doentes contagiantes, policia domiciliária, laboratório de análise, ruas feericamente iluminadas, deram fama à cidade, que, anos após, ganharia o apelido de "Cidade-Presépio". A energia elétrica, a menos de vinte centavos o quilowatt, além do conforto doméstico, possibilitou o nascimento de pequenas indústrias, indispensáveis à vida moderna.

O transporte urbano, antes à tração animal, embora não constituísse ainda necessidade primordial, foi eletrificado, criando-se as linhas de Sto. Antônio à praia do Suá e a comodíssima rede "circular" pôs em comunicação a cidade baixa com a Catedral e o Palácio do Governo. O serviço funerário ganhou carros elétricos, facilitando os enterramentos no cemitério municipal de Santo Antônio, só então inaugurado. (2) O progresso caminhou em todo o Estado. A agricultura e a pecuária receberam estímulos preciosos, com sementes selecionadas, uso de máquinas, reprodutores de raça, e os lavradores com estágios gratuitos na "Fazenda Modelo", em Cariacica. A distribuição de terras e o desmembramento de sesmarias incultas trouxeram mais elementos ao cultivo dos campos.

A renda do Tesouro retomava o curso ascensional. Estradas de rodagem, primárias embora, venceram a secular inércia em que jaziam as riquezas municipais. Os políticos derrotistas, decepcionados com o prestígio vertiginoso do governo, conjuram-se para a calúnia e a desonra, únicas armas sempre prontas a serem empunhadas pelos ambiciosos incapazes. Urdiam intrigas, propalavam a ruína fatal do Estado. Jerônimo retrucou, lançando as bases de um grande centro industrial, em Cachoeiro de Itapemerim, como que a lhes refutar os argumentos negativos e a reafirmar sua fé inabalável na grandeza do Estado. Quarenta e seis anos depois, outro idealista convicto, Jones dos Santos Neves usaria o mesmo processo polêmico: ao insulto e à crítica respondia com obras de recuperação econômica.

Jerônimo Monteiro foi o precursor, no Brasil, da interferência do Estado no campo econômico. Criou o Estado Industrial, supletivo da economia privada, que ainda não havia ultrapassado o ciclo agrícola. Cachoeiro foi a sede, sem regionalismo. É o centro geográfico do sul do Estado, entroncamento de Estradas, à margem de rio fertilíssimo. Aí Jerônimo, aproveitando os 3.500 cavalos do rio Fruteiras, criou uma indústria em série perfeitamente homogênea e racional: serraria, papel, tecidos, cimento, usina de açúcar e óleos lubrificantes. Toda a riqueza oferecida pela região privilegiada seria posta em movimento: florestas de essências raras, jazidas imensas de calcário e argila, terras aptas ao plantio de algodão, cana e mamona. Os óleos lubrificantes, com mercado garantido pelas fábricas, o tecido e o papel absorvidos pelas fábricas de cimento e açúcar. Verdadeira concepção "fordiana". A fábrica de cimento "Monte Líbano" é anterior a toda indústria congênere no país. (3) A usina de açúcar Paineiras foi a de maior capacidade nacional. Os adversários políticos não encontravam imagens convincentes para acoimá-lo de loucura e dilapidador da fazenda pública. Todo aquele que se alça, para olhar o futuro distante, precisa não temer o coaxar dos batráquios nos brejos putrefatos. Às vezes, o povo tem caprichos infantis: intimida-se do pastor e atira-se à boca do lôbo. A humanidade caminha, não obstante, marcando sua trajetória com monumentos de justiça póstuma.

Jerônimo Monteiro governou com um grupo de moços estreantes na vida pública. Poucos haviam ultrapassado a maturidade: engenheiro Antônio Francisco de Ataíde e o professor Deocleciano de Oliveira. Ceciliano Abel de Almeida, jovem engenheiro, com noviciado feito na Estrada de Ferro Vitória a Diamantina, talvez não tivesse passado dos trinta anos. Foi o primeiro prefeito da capital, posto criado pela Lei 582 e cuja investidura se deu em 14 de dezembro de 1908. Organizou os serviços municipais, promulgou as primeiras leis conducentes ao decoro da cidade. Obrigou a construção de calçadas e platibandas. Retornou à Diretoria de Obras, onde superintendeu as obras de saneamento. O bacharel Ubaldo Ramalhete Maia aprimorou sua bela cultura jurídica na movimentadíssima Secretaria Geral. O Dr. José Bernardino Alves, (4) que ocuparia depois postos elevados na política mineira, culminando como financista de prol, fez seu aprendizado na Secretaria da Presidência, na Diretoria de Obras e Empreendimentos do Estado e como prefeito da Cidade.

Jerônimo deixou escola e fez homens de Estado.

 

 

Nota (1): O entusiasmo eletrizou todos os homens de responsabilidade. O austero professor Aristitides Brasiliano Freire foi o orador na sessão comemorativa no salão nobre da Escola Normal, na noite de 25 de setembro

Nota (2): Servira durante a bubônica em 1902. A supressão dos cemitérios da zona urbana fora tentada por Laurindo Pita em 1885, e depois por Afonso Cláudio e José Horácio Costa (presidente interino). O sítio de Santo Antônio foi adquirido por Afonso Cláudio, quando retornou do Rio. José Horácio examinou inclusive os terrenos da "Bomba". Mário Freire informa em notas fornecidas ao autor

Nota (3): Os técnicos oficiais declaravam não existir jazidas de calcário a tal distância do mar (!) Mário Freire. Notas ao autor

Nota (4): Fundador do Banco da Lavoura de Minas Gerais

 

 

Fonte: Biografia de uma Ilha, ano – 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2015

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