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A Construção do relato jornalístico na imprensa capixaba

Capa do Livro: Escritos de Vitória - 17 IMPRENSA, 1996

Assessoria de Comunicação na Grande Vitória (*)

Os primeiros acenos do que viria a se transformar num trabalho sistemático e metódico de assessoria de comunicação na Grande Vitória podem ser encontrados no início da década de 50, nas principais instâncias do governo do Estado. Para compreender o processo de caracterização dessa nova mediação na sociedade capixaba é necessário conhecer um pouco da trajetória e do amadurecimento das mídias locais, em especial do jornalismo, das relações entre os poderes público e privado e a imprensa e também as conjunturas políticas e econômicas que figuraram como pano de fundo.

Na reconstituição dessa trajetória, possível a partir de relatos de profissionais que viveram esse período, encontramos um quadro tecnológico, econômico e social diferente do atual. No entanto, as relações estabelecidas entre o poder público e a imprensa não apresentam modificações essenciais, exceto na forma como se expressam, na qual se introduzem elementos novos e sutilezas próprias do pós-modernismo deste final de século.

Na década de 50, a força de persuasão dos veículos de comunicação ainda não tinha se configurado com todo o seu potencial, mas a intimidade entre o poder do Estado e a imprensa já se mostrava com toda a sua abrangência. O jornalismo era caracterizado por um tom opinativo e partidário de forma inequívoca, sem as dissimulações que a atual linguagem jornalística proporciona.

Os primeiros jornalistas a exercerem atividades de assessoria de comunicação eram híbridos de publicitários, jornalistas e assessores, remunerados por órgãos de governo ou empresas privadas para estabelecerem conexões com a imprensa na qual trabalhavam, exercendo, por vezes, cargos de chefia e, portanto, com poderes de selecionar, para publicação, o material que eles mesmos enviavam. Esta situação, embora condenada pela maioria dos jornalistas atualmente, ainda se encontra no jornalismo brasileiro e capixaba. A diferença em relação à década de 50 é que essas relações eram aceitas como naturais, reflexo de um momento histórico, e compatíveis com os parâmetros éticos tanto da imprensa, quanto dos poderes constituídos.

Não havia muitos assessores e a maioria trabalhava em órgãos do Estado, ocupando cargos de confiança, fato que já apontava para a comunicação como uma atividade estratégica, mesmo que a importância dos veículos de comunicação, como agentes propagadores e multiplicadores de ações e opiniões, na época, não fosse tão efetiva quanto hoje. Há também que se considerar que as formas de expressão do poder político de então eram diferentes das atuais, prestigiando mais as relações inter-pessoais, ou eventos de massa "ao vivo", como os comícios e inaugurações.

Mesmo o rádio, que já ocupava algum lugar de destaque entre as mídias, não recebia tratamento privilegiado das autoridades da época, apesar de o governo ser dono de uma emissora. Dois motivos básicos levavam a isso: primeiro, a linguagem do poder por meio dos veículos de massa se dava de maneira mais formal; e o rádio, marcadamente diversional, só era utilizado para transmissões de discursos e anúncios oficiais dos governos. Segundo, não havia programas jornalísticos sistematicamente. Na Rádio Espírito Santo, de propriedade do governo do Estado, eles só vieram a surgir a partir de 1955.

Na imprensa, a situação não era muito diferente. Formas mais dinâmicas de exercer o jornalismo só começaram a ser conhecidas no Espírito Santo no final da década de 50, com o ressurgimento do jornal Folha do Povo, baseado no modelo jornalístico da Última Hora, editado pelo jornalista Samuel Wainer, no Rio de Janeiro. O estilo mais agressivo da Folha do Povo, que defendia governo de Getúlio Vargas, suas alianças e políticas de forma vigorosa e populista(1) contrastava com o jornalismo morno que se fazia então em A Gazeta(2)  e A Tribuna(3) e com o estilo panfletário contestatório da Folha Capixaba, jornal ligado ao Partido Comunista Brasileiro (ambos, jornal e partido, extintos).

Essa novidade, entretanto, não alterou as relações de trabalho mantidas na imprensa da época nem as ligações de seus profissionais com o poder político ou econômico, os jornais eram produzidos, em sua maior parte, por colaboradores que escreviam artigos e os enviavam para publicação. As redações se resumiam a uns poucos profissionais que se ocupavam de selecionar e ordenar os artigos, poesias, crônicas e outras colaborações gratuitas recebidas e, também, de redigir textos para publicação. Outra fonte de produção de textos noticiosos ou não e de fotografias (poucas) eram as agências de notícias como a da Última Hora (assinada pela Folha do Povo), o Bureau Interestadual de Imprensa e a Asapress (A Gazeta). O telégrafo operado pela The Western Telegraph Company Ltd. era o meio de comunicação que assegurava a atualidade dos jornais locais em relação aos fatos acontecidos fora do Estado. Notícias do exterior eram enviadas pelas agências internacionais como a UPI ou chegavam atrasadas por meio de relatos de viagens de capixabas que visitavam a Europa e os Estados Unidos.

Fazer jornalismo em Vitória, até a década de 60, não era, de fato, considerado um grande negócio empresarial. O mercado publicitário capixaba, de onde se originam as receitas das empresas jornalísticas no Brasil e em quase todo o mundo (ressalvadas as estruturas mantidas pelo poder estatal), não oferecia ainda o suporte necessário para o desenvolvimento de estruturas mais profissionais, semelhantes às existentes atualmente.

As redações, com suas equipes minguadas, eram mantidas pelo empenho e o esforço daqueles que se embrenhavam por uma profissão que não tinha compensação salarial (se havia, não era a desejável) nem um número de profissionais capazes de dar conta da produção diária. Era comum, na imprensa da época, o jornalista não receber qualquer remuneração do jornal pelo trabalho que fazia. Esta, ele obtinha mediante a negociação de matérias com as fontes, das quais ele recebia uma parte do valor.

Jornalistas credenciados

Um bom exemplo do hibridismo dos profissionais dedicados à mediação jornalística foi a fase dos comitês de imprensa criados nos poderes legislativos estadual (Assembléia Legislativa) e alguns municipais (Câmaras de Vitória e de Vila Velha), durante a década de 60, quando a comunicação de massa passou a ganhar mais importância e a ditadura militar incitava a adoção de controles ideológicos cada vez mais efetivos. Os comitês eram formados por um jornalista de cada veículo de comunicação, escolhidos pelo Poder Legislativo. A equipe recebia uma credencial e remuneração da Assembléia ou das Câmaras. Alguns jornalistas eram também remunerados pelos veículos de comunicação que representavam, outros não.

A situação, que, com as novas conjunturas, passou a ser considerada esdrúxula, funcionava, na época, como uma saída para o reduzido número de profissionais nas redações ou para os baixos salários recebidos. Do ponto de vista profissional e ético, o jornalista ficava numa situação bastante desconfortável, sendo obrigado a atender às expectativas do segmento hegemônico da Câmara ou Assembléia e, também, do jornal, rádio ou TV para o qual trabalhasse. Se desagradasse a um ou outro corria o risco de perder, ao mesmo tempo, a credencial e o emprego.

Os comitês de imprensa sobreviveram até a década de 80, mas sem a efetividade dos seus primeiros anos de vida quando funcionavam como filtros para a seleção não só dos jornalistas com direito a cobrir o Poder Legislativo, como também do que eles escreveriam. Nos últimos anos de existência, os comitês não passavam de fantasmas burocráticos, filhos malformados da ditadura, que ainda remunerava poucos jornalistas da velha geração com quantias irrisórias, mas suficientes para cultivar-lhes o saudosismo e trazê-los diariamente à primeira fila do plenário da Assembléia Legislativa, local destinado à imprensa, para ocupar um lugar cativo à frente de uma plaqueta com o nome do veículo para o qual trabalhavam.

Essa "bigamia" explícita, seja dos jornalistas nas suas relações com o poder público e com os veículos de comunicação, seja do jornalismo com a publicidade, resultava num discurso jornalístico oficialesco e panfletário. A autonomia do jornalista-colaborador de então, teoricamente livre das amarras impostas pelas relações travadas com os poderes econômico e político para assegurar sua sobrevivência pessoal e familiar, contrastava com a dependência que o jornalista "profissional" tinha em relação às suas fontes de remuneração.

Essa situação pode ser considerada ao mesmo tempo causa e efeito de uma ainda pouco delimitada divisão do trabalho na área de comunicação, que só veio a ser configurada de maneira clara a partir da década de 70, com funções estanques e definidas para jornalistas, publicitários, gráficos e assessores de imprensa. Na área de comunicação, até a década de 60, jornalistas eram todos aqueles que colaboravam para a produção de um jornal; publicitário era todo aquele que carreava anúncios ou matérias pagas para o jornal; assessor de imprensa, de marketing, ou de comunicação era todo aquele que fazia um trabalho de mediação entre instituições públicas ou privadas e a imprensa. Os gráficos tinham uma configuração profissional mais delimitada, uma vez que trabalhavam nas oficinas do jornal, mas deles também dependia uma parte da produção jornalística, principalmente no seu aspecto visual e na qualidade do acabamento. Os retoques finais de cada edição eram feitos na oficina onde o jornal era impresso, num trabalho conjunto dos jornalistas e dos gráficos, situação superada pela tecnologia atual.

A primeira estrutura de assessoria de imprensa

Opções políticas à parte, todos os jornais mantinham uma coluna diária na qual informavam sobre as atividades desenvolvidas pelo governador do Estado. Os textos eram remetidos pela assessoria do governo da forma como eram redigidos pelos assessores de gabinete, mantendo, portanto, o empolamento da linguagem burocrática característica desse tipo de documento. Eles eram publicados in natura, ou seja sem qualquer tratamento que lhes atribuísse maior leiturabilidade.

Essa situação perdurou até o governo Christiano Dias Lopes Filho (1967/1970), o segundo governador indicado do Espírito Santo no período militar. Foi durante a sua gestão que se criou a primeira equipe com a atribuição clara e formal de manter com a imprensa uma linha de contato permanente para produção e remessa de material jornalístico. A esse setor, que só dois governos depois ganhou status de secretaria, cabia não apenas o gerenciamento das matérias jornalísticas, como também da verba publicitária do governo. A partir da montagem dessa equipe, o governo do Estado passou a produzir boletins com informações oficiais sobre o gabinete do governador e sobre as atividades das secretarias de Estado e a remetê-los diariamente à imprensa, às rádios e televisões, que passaram a funcionar no Espírito Santo(4).

Hoje as atividades de comunicação se incorporaram definitivamente à estrutura do governo do Estado. Seu perfil de funcionamento ainda é semelhante ao que foi iniciado na década de 60, embora com uma escala maior. Sob a coordenação da Secretaria de Comunicação, funciona uma Agência de Notícias que remete diariamente aos veículos de comunicação informações sobre as principais atividades do dia. Os textos são produzidos por uma equipe de jornalistas distribuída em diversos órgãos. Estes também trabalham diretamente com os veículos de comunicação enviando outros releases, sugerindo pautas, ou organizando entrevistas. À Secretaria de Comunicação também cabe gerenciar a verba de publicidade do governo e coordenar as atividades de comunicação interna.

Comunicação no setor privado

No campo da divulgação de eventos ligados às empresas, só no início da década de 60 se tem notícia da utilização dos serviços jornalísticos. Desde a década de 50, a publicação de anúncios publicitários já fazia parte da rotina dos jornais.

Comparados com as peças atuais, os antigos reclames não passavam de rascunhos mal elaborados do que viria a ser a publicidade nos meios impressos atuais. Ao lado das atas, balanços e avisos, em geral publicados com letras miúdas, praticamente ilegíveis, os anúncios eram, até então, as únicas formas de relacionamento com o público mediadas pelos veículos de comunicação. As três primeiras modalidades de contato com o público não mudaram em forma e conteúdo desde então. A publicidade, ao contrário, ganhou em persuasão, apelo e criatividade. Paralelamente, o jornalismo foi descoberto como mais um mecanismo de interação com maior credibilidade e aceitação pelo público das mensagens que através dele trafegavam.

É nas colunas sociais que essa nova modalidade de comunicação começa a se instalar na imprensa capixaba. Isso não ocorre por acaso, mas pela importância que tinham, e ainda têm, os colunistas sociais no seu papel de formadores de opinião e legitimadores de nomes, hábitos e idéias perante determinado segmento social, em geral integrantes da incipiente classe média alta, dos proprietários de empresas que começavam a despontar e das autoridades públicas. O trânsito que o jornalista dedicado a esse tipo de atividade obtinha junto esses segmentos — titulares das grandes decisões dos setores públicos e privados — associado ao espaço que ocupava na imprensa, criou as circunstâncias ideais para o desenvolvimento de um intercâmbio entre o empresariado e o público no campo do jornalismo (ainda que se discuta ser ou não jornalismo o trabalho feito em coluna social, ele compõe, segundo alguns autores, o feixe das diversas expressões jornalísticas(5).

Coquetel da Cidade (de José Carlos Monjardim Cavalcanti, em O Diário, desde os últimos três anos da década de 50 até meados de 60), coluna Hélio Santos (A Tribuna, na década de 70), coluna Hélio Dórea (A Gazeta, existente até hoje) são exemplos dos primeiros espaços a publicar notas mais voltadas para a área dos investimentos privados
(6). Nos três primeiro casos, os colunistas associaram jornalismo e publicidade fazendo uma operação circular na qual o espaço que ocupavam na imprensa se transformava no grande trunfo para a obtenção de novos clientes nas suas agências de publicidade, ou para a obtenção de espaço pago nos veículos em que trabalhavam, recebendo em troca parte do valor negociado (em geral a taxa de corretagem é de 20%)(7).

Os relatos dos profissionais ouvidos para a elaboração deste trabalho revelam que os primeiros a utilizar os recursos do jornalismo e das mídias na área empresarial estiveram não apenas sempre próximos do jornalismo e da publicidade, como também do lobby e do marketing, áreas cujos contornos ficam turvos quando se trata do manejo de interesses econômicos/financeiros através das mídias. Assim, jornalistas que faziam a mediação entre empresas e imprensa ou que eram atuantes na imprensa local passaram a dedicar-se só ao lobby, mantendo escritórios de assessoria a empresas nessa área.

As primeiras empresas a utilizar os serviços jornalísticos foram também as primeiras a recorrer aos serviços profissionais de agências de publicidade para divulgação de suas atividades e produtos, do que se deduz que a informação jornalística surgiu como um complemento à mensagem publicitária, o que, necessariamente, não ocorre hoje. Entre as primeiras podem-se citar as Lojas Unidas (Magazin Helal, extinto), a Metalúrgica Nossa Senhora da Penha, a Braspérola, a Alcobaça, a Mesbla local e o Moinho Buaiz.

O jornalismo contemporâneo

A partir do início da década de 70, os métodos do jornalismo local passaram a ser confrontados com novas técnicas de produção e apuração e com uma nova ética nas redações. A primeira experiência inovadora nessa área aconteceu no jornal O Diário. Esse jornal é considerado a primeira escola do jornalismo contemporâneo no Espírito Santo por uma geração de jornalistas que, na sua redação, aprendeu o ofício de apurar e redigir matérias jornalísticas e, também, passou a compreender melhor os limites e finalidades do jornalismo e da publicidade. Essa experiência foi trazida para o Espírito Santo por profissionais que atuaram nos grandes veículos de comunicação do Brasil e da Europa e outros que, mesmo atuando na imprensa capixaba, já se colocavam sensíveis à emergência de mudanças no processo de produção jornalística.

A conjuntura política e econômica do momento propiciava essas mudanças. Pelo lado político, o país atravessava um dos mais ferozes momentos da ditadura militar, fazendo sua força valer pelo instrumento da tortura e pela censura a jornais, espetáculos, música, teatro, ou qualquer manifestação que, de alguma maneira, pudesse representar ameaças à "estabilidade" do poder instalado. Nesse momento, o jornalismo, assim como outras manifestações culturais e artísticas, passou a assumir um papel importante de denúncia e deboche do que o regime militar fazia para se sustentar. A imprensa alternativa surgiu como uma tentativa de defesa da sociedade civil contra a ditadura. Os grandes veículos de comunicação sofreram censura intransigente do governo militar e se tornaram veículos da voz oficial, com a conivência da maioria dos seus proprietários, mas com a reprovação da maioria dos seus jornalistas.

No Espírito Santo, o jornalismo contemporâneo começava a ser aprendido no mesmo clima político vivido pelo Brasil, acrescido das nuanças locais que agravavam ainda mais o quadro de insegurança. A sociedade ainda vivia o rescaldo da ação de um grupo de extermínio, conhecido como Esquadrão da Morte, que agiu durante o governo Christiano Dias Lopes Filho (1967/ 1970), comandado pelo irmão do governador e então secretário de Segurança José Dias Lopes. O cemitério clandestino descoberto em Vila Velha (município da Grande Vitória) deixou clara a violência da Polícia e a ameaça que ela representava.

A partir de 70, o Espírito Santo também conheceu a censura e a tortura envolvendo jornalistas e outros intelectuais e ativistas políticos que se abrigavam no movimento estudantil ou em partidos clandestinos. Os jornalistas da época (muitos ainda atuam hoje nas redações ou em outros campos de trabalho afins) também aprendiam a fazer do seu ofício diário um caminho para a resistência, seja nos veículos de comunicação tradicionais, seja na imprensa alternativa(8).

É nesse período que a figura do assessor de comunicação assume o papel de anteparo entre o jornalista e o poder público. A circulação de informações se restringia à medida em que a lei do silêncio fazia valer o seu poder, afetando também aqueles que se colocavam, agora, na desagradável posição de "aliados" de uma política que feria os direitos humanos nas suas manifestações mais elementares, fazendo da mediação com a imprensa um instrumento a favor da censura. A nova modalidade de exercício do poder, baseado nos segredos de Estado e na ideologia da segurança nacional, exigia do assessor de comunicação um desempenho compatível com ela.

A imprensa e seu desenvolvimento

Com o amadurecimento do processo de produção jornalística, a partir da experiência de O Diário, começou a se formar uma nova consciência profissional que condenava o trânsito, até então desenvolto, do jornalista na pouco visível contigüidade entre o poder público ou privado e a imprensa. Outros dois fatores que levaram a uma delimitação mais clara das funções jornalísticas no Espírito Santo foram a constituição do curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Espírito Santo, em 1975, e o surgimento do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Espírito Santo, em 1979, forçavam a concepção de um jornalismo mais ético, mais crítico e mais independente dos demais setores da comunicação. Em nível nacional, essa delimitação havia sido reforçada pela legislação que regulamenta a profissão de jornalista — Decreto-lei 972 de 17/10/1969, cujas alterações posteriores foram reunidas no Decreto-lei 83.284, de 1974, que passou a exigir o diploma de curso superior em Comunicação Social para o exercício da profissão de jornalista.

Por outro lado, as transformações no perfil sócio-econômico-cultural do Estado trouxeram para o Espírito Santo a experiência das políticas de comunicação das grandes empresas que passaram a se instalar no Estado. A partir da década de 70, as primeiras empresas a contar com estruturas de assessoria de comunicação foram a Companhia Vale do Rio Doce — CVRD, estatal, cujas usinas de pelotização de minério de ferro entraram em operação em 1969 e 1973; a Aracruz Celulose, uma união do capital estrangeiro, nacional e estatal (hoje o Estado não se encontra mais na sociedade), começou sua implantação no estado em 1967 com o plantio de eucalipto em quase 100 mil ha do norte do Espírito Santo para produção de celulose branqueada na unidade industrial inaugurada em 1979; e a Companhia Siderúrgica de Tubarão — CST, união do capital privado japonês e italiano e estatal brasileiro (este também já se retirou do grupo), começou a ser construída em 1979 e só entrou em operação em dezembro de 1983.

Uma particularidade na estruturação da profissão de assessor de comunicação no Espírito Santo é a ausência quase total do profissional de relações públicas. Líder das estruturas de comunicação nas instituições brasileiras durante a década de 60, esse profissional não chegou ao Espírito Santo. Isso pode ter ocorrido pelo fato de, até hoje, o Estado não sediar nenhuma escola de Relações Públicas, como também pelo fato de o jornalista ter preenchido de forma satisfatória as demandas que se colocavam. São, portanto, os jornalistas os profissionais chamados a atuar nas estruturas de comunicação das grandes empresas, descobrindo métodos de trabalho para os quais não haviam sido preparados ou mesmo inventando formas de mediação com base nos conhecimentos em comunicação que detêm.

A ampliação das assessorias de comunicação nos moldes contemporâneos guarda uma estreita relação com o processo de redemocratização do país, que se inicia com a "abertura lenta e gradual" do governo do general Ernesto Geisel (1975/1978), passa pelo governo do general João Batista Figueiredo (1978/ 1981), quando o povo vai às ruas exigir eleições diretas para presidente da República (a emenda Dante de Oliveira, que previa eleições diretas, foi derrotada pelo Congresso em 1981), e segue pelo governo José Sarney, primeiro civil a governar o país depois do fim do regime militar, Fernando Collor, Itamar Franco e, agora, Fernando Henrique Cardoso.

É a partir da década de 80 que as assessorias assumem verdadeira importância no processo de comunicação. Este fato coincide com a devolução ao povo de importantes decisões na área política por meio do direito ao voto universal, como também a autonomia de organização que confere à sociedade civil força para influir diretamente nas decisões que são tomadas seja no setor público, seja no privado. Hoje qualquer política de comunicação deve ter em conta que o lugar da legitimidade não está mais nos altos escalões da burocracia do Estado ou do empresariado, mas sim em meio ao povo, apareça este sob a denominação de opinião pública, de massa, audiência, ou qualquer outra.

 

 

NOTAS

(1) Numa edição de julho de 1952, o jornal Folha do Povo informa que publicará gratuitamente as convocações e avisos de todos os sindicatos, além de noticiário de todas as atividades. "É uma contribuição do mais popular jornal do Espírito Santo às classes trabalhadoras", dizia o anúncio.

(2) A Gazeta, fundada em setembro de 1928 para funcionar como instrumento de propaganda para a Imobiliária Cambury vender lotes, foi comprada por Carlos Fernando Monteiro Lindenberg, governador do Espírito Santo no período de 31/1/59 a 30/12/62 pelo PSD, na década de 50. Hoje, a família controla a Rede Gazeta de Comunicações, tendo incorporado a TV Gazeta, afiliada da Globo, na década de 70, e as rádios Gazeta AM e FM, e Jovem Pan FM nas décadas de 70 e 80.

(3) A Tribuna, fundada em 1938, é hoje controlada pelo grupo João Santos, fabricante do Cimento Nassau, cuja sede, fica localizada em Recife. A partir da década de 70, A Tribuna passou a operar rádios AM e FM em Vitória e Cachoeira de Itapemirim, sul do Estado, e uma emissora de TV afiliada ao Sistema Brasileiro de Televisão - SBT.

(4) A TV Vitória, ligada aos Diários Associados, foi inaugurada na década de 60. Em 1976, foram fundadas a TV Gazeta e a TV Educativa. As TVs Capixaba e Tribuna surgiram na década de 80.

(5) Sobre os gêneros jornalísticos, ver MELO, José Marques de, A opinião no Jornalismo surgiram na década de 80. Brasileiro. Petrópolis, Vozes, 1985.

(6) Havia também outros nomes que se consagraram no colunismo social como os de Esdras Leonor, Heraldo Brasil, Maria Nilce, Eleisson de Almeida, Luís Eduardo Nascimento, com atuação em A Tribuna, A Gazeta, O Diário e Jornal da Cidade, em momentos diferentes nas décadas de 50 a 80.

(7) A primeira agência de publicidade no Espírito Santo, a Seta Propaganda, foi fundada por José Carlos Monjardim Cavalcanti no início da década de 60. Hoje, a Seta não existe mais e J. C. Cavalcanti deixou o jornalismo e a publicidade, depois de ocupar por três vezes a Secretaria de Comunicação do governo do Estado — governos Élcio Álvares/Arena (1975/1978), Gerson Camata/PMDB (1983/1986), José Moraes/PMDB (1986). Hélio Santos mantém uma empresa de assessoria de imprensa, mas não escreve mais sua coluna social. Hélio Dórea é proprietário da HDR Publicidade e mantém sua coluna do jornal A Gazeta.

(8) No Espírito Santo, o único jornal alternativo foi o Posição, inaugurado em outubro de 1976 pelos jornalistas Rogério Medeiros e Pedro Maia, tendo como secretário de redação o jornalista Jô Amado. Ele circulou mensalmente até 1979 e, a partir de maio daquele ano, passou a ser semanal. O último número circulou em setembro de 1979, quando era editado por Luzimar Nogueira Dias, falecido.

(*) Este texto faz parte da dissertação de mestrado apresentada à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP, em fevereiro de 1996, intitulada A Verdade dos Fatos, o papel das assessorias de comunicação e do jornalismo na mediação dos discursos sociais, trabalho que se baseia em pesquisa documental e bibliográfica e nos relatos de jornalistas que atuam ou atuaram em assessorias de comunicação, tais como: Jairo de Brito, Ubervalter Coimbra, Cacau Monjardim, Adriana Machado, Beth Feliz, Adam Emil Czartoryski, Renato Santoro, Marien Calixte, Antonio Augusto Rosetti.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla   
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autora do texto: Ruth Reis
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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