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O mais importante jornal da Rua Sete – Tinoco dos Anjos

Primeira página da primeira edição após a compra do jornal por Mário Tamborindegui

Quando era criança, em Barra de São Francisco, sonhava em ser advogado. Ao me transferir para Vitória, na segunda metade da década de 60, cheguei a fazer vestibular na UFES, mas não passei. Em meados do ano de 1967, ou 68, não me lembro bem, fui convidado por meu irmão, Edgard, então um dos diretores (ao lado de Cacau Monjardim e Fernando "Jacaré"), para trabalhar como revisor de O Diário, que funcionava num sobrado no final da rua Sete de Setembro, no centro da cidade. Meus colegas de setor eram Boquinha, Heraldinho, Iô-Iô e Dindinho.

Logo percebi que minha profissão estava definida. Tornei-me um profissional de jornal (sou da segunda turma do curso de Comunicação da UFES) e fui me revezando em diversas funções — repórter, redator, editor, diagramador e crítico de rádio e televisão. O Diário foi uma escola de jornalismo e chegou até a lançar um projeto para incentivar o aparecimento de novos jornalistas (a "escolinha"). Nessa época, trabalhavam na redação meu irmão Erildo, os para sempre lembrados Paulo Torre e Amylton de Almeida, Rubinho Gomes, Paulo Bonates (foi ser psiquiatra, porque ganha mais, mas nunca abandonou as raízes), Paulo Maia, Pedro Maia, Renato Dias Ribeiro (outro que virou psiquiatra), Betty Feliz, Mariângela Pellerano, Maura Fraga, José Barreto de Mendonça (já era também policial), Paulo Makoto (o "pai" de muitos fotógrafos que se destacariam depois, como os irmãos Joecir "Secreta" e Josemar Gonçalves) e os irmãos Nestor Muller e Romero Mendonça. E os mais experientes, Marien Calixte, Rogério Medeiros, Vinicius Seixas, Cláudio Bueno Rocha... Devo estar esquecendo outras pessoas e, por isso, já peço desculpas antecipadas.

Américo Rosa, figura popular da cidade tanto quanto foi Otinho, tinha uma frase que definia bem o espírito de O Diário: "Aqui, a gente ganha pouco, mas se diverte." Enquanto A Gazeta permanecia um jornal careta, conservador, O Diário abria espaço para a experimentação e ousava. Foi o primeiro jornal capixaba a criar um departamento fotográfico próprio (A Gazeta vivia de fotos compradas de Pedro Fonseca), sob o comando de Makoto, um descendente de japoneses muito talentoso que, hoje, é cantor de boleros num clube de Jardim América. Foi o primeiro também a receber uma radiofoto e a publicar: o close do músico norte americano Louis Armstrong, que havia falecido. Em termos editoriais, era inovador e permitia desenvolver a criatividade daqueles jovens que queriam mais aprender e se divertir. Na época do Esquadrão da Morte, O Diário deu um show de cobertura e triplicou suas edições. O senador Gerson Camata, então no programa policial da Rádio Vitória, chegou a participar dessa cobertura. A noção de segundo caderno na imprensa capixaba foi iniciada em O Diário, com Amylton, Rubinho e Paulo Torre no comando. Cheguei a ser crítico de rádio e televisão, falando mal dos programas que Eleisson de Almeida e Esdras Leonor faziam na TV Vitória. Uma vez, fiz piada com A Voz do Brasil e Edgard perguntou se eu estava querendo ser preso. Amylton despejava sua famosa ironia numa coluna à la Telmo Martino, que assinava como Beatriz Guido. Rubinho gritava na redação todos os dias "Eu sou um gênio," entusiasmo que acabou resultando na organização do Festival de Verão de Guarapari, de tão rica memória. Havia também um crítico de cinema complexo e brilhante, Carlos Chenier, que entregava o texto (sempre com mais poesia do que análise) escrito a mão. Foi em O Diário também que Rogério iniciou sua carreira de analista político, na coluna Panorama. Além do pioneirismo e de ter contribuído para a renovação da imprensa capixaba, o velho O Diário, divulgado por Pedro Maia como o jornal mais importante da Rua Sete (em cuja redação circulou a cronista Carmélia M. de Souza), ficou na memória de nossa geração por suas histórias humanas, sempre de muito humor e que já se incorporaram ao folclore jornalístico local. Vou relembrar três delas.

1 — Renato Dias Ribeiro, então editor de esportes, tinha fama de "cascateiro" (quem escreve além do necessário em jornal) e o hábito de colar uma lauda em outra para evitar ter que parar e trocar o papel. Um dia, chegou do treino do Rio Branco ou da Desportiva, colou duas laudas, pôs na máquina e foi ao banheiro. Bonates aproveitou e colou mais duas laudas. Renato escreveu quatro laudas sobre um treino sem perceber que havia sido ludibriado, fazendo jus à fama.

2 — Ainda sobre Renato e Bonates. Determinado dia, Bonates (um dos maiores gozadores que já conheci) telefonou de uma sala para outra da redação, imitando a voz do presidente do Rio Branco, Kleber Andrade, e chamou Renato para dar uma grande "notícia". Anunciou a realização de um quadrangular em Vitória, com a participação de dois times cariocas e dois capixabas. Empolgado, Renato pegou todos os detalhes e publicou em manchete o evento. No dia seguinte, o verdadeiro Kleber Andrade ligou furioso. Esse acontecimento ilustra bem o espírito da redação, pois ninguém desmentiu a "informação" antes da publicação. Claro que havia uma certa irresponsabilidade entre nós, mas nada que pudesse prejudicar seriamente alguém.

3 — Barreto, misto de policial e jornalista, costumava trabalhar na redação sem camisa e com o revólver em cima da mesa. Ele era o foco das atenções e das brincadeiras. Seu apelido era "Vanusa" e havia umas fofocas em torno disso. Barreto, às vezes, se desentendia com o diretor, Cacau, e, numa dessas, ele pegou o revólver e "atirou" em Cacau. Só que a arma estava sem balas. Cacau, no entanto, com tanto medo de morrer, gritava, deitado no chão: "Você me matou, Barreto... você me matou."

Se forem perguntar a cada um dos jornalistas que viveram essa época de O Diário, é provável que outras histórias semelhantes sejam apresentadas. Lembro-me, por exemplo, que as colunas Horóscopo e Dona Margô (consultório sentimental) eram criadas pela própria redação. Eu mesmo já defini as características e as perspectivas dos nascidos em... e dei conselhos a um fictício leitor com problemas amorosos. Lembro, também, da história de José Aurino Casado, hoje no Estadão e com um dos melhores salários da Imprensa brasileira. Na época da "escolinha", O Diário publicava anúncios e a receptividade era grande entre estudantes. Um dia, Casado foi até à redação procurar um amigo seu, que estava fazendo testes. Erildo confundiu-o com um novo candidato a jornalista e deu-lhe uma pauta. Não é que Casado gostou, foi lá e fez a matéria? Nascia, assim, mais um grande repórter.

Não poderia concluir essas reminiscências sobre o querido O Diário sem uma referência ao pessoal da oficina, os gráficos que trabalhavam com composição a quente e que, ao contrário de hoje, tinham uma integração total com a redação, onde desfilavam diariamente sem camisa e sujos de graxa. Minhas homenagens a Dequinha, Alemão, Nilson Conceição, Bixinga, Pelé e Paulo Zimmer, que depois virou jornalista e está em A Gazeta. Seria bom que um grupo de estudantes do curso de Comunicação da UFES se dispusesse a levantar e a contar a história de O Diário e sua importância para a evolução técnica da imprensa capixaba, sem esquecer o lado folclórico.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Tinoco dos Anjos
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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