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A História da Revolução de 1817 – Texto de 1917

A história do movimento revolucionário, que, no começo do século passado, se operou em Pernambuco e abriu um ato de liberdade no dispotismo feroz com que a monarquia portuguesa dirigia os povos sujeitos ao seu jogo absoluto, ainda está por se escrever. E não vai nesta afirmação um paradoxo.

Os informes em que se basearam até hoje os escritores que se tem ocupado daquele grande acontecimento do Brasil Colonial, o maior incontestavelmente de quantos a nossa história pátria registra, como precursores da nossa emancipação política, emanam do testemunho pessoal dos que a eles assistiram, como participantes diretos ou indiretos, e foram transmitidos à posteridade pela tradição oral ou escrita. São, portanto, fontes suspeitíssimas de parcialidade a favor de uma das facções cujos interesses se chocaram naquele momento histórico.

Diante, pois, da dificuldade quase insuperável de se separar o joio do trigo, isto é, de se despir o fato da roupagem com que a tendência personalíssima de cada um dos observadores o vestiu, de modo a ressaltar a verdade em toda sua pureza, os nossos historiadores se deixaram levar pelas simpatias individuais e escreveram as suas narrativas eivadas de apreciações inexatas.

Os que se fundaram no depoimento de Francisco Muniz Tavares (1) e J. J. Dias Dias Martins (2) aplaudiram a revolução, endeusaram os seus autores; ao passo que os que ouviram as suas informações nas crônicas de L. F. Tollenare (3) malsinaram aquele sucedimento e cobriram de ápodos os que nele tomaram parte.

Uns e outros, porém, mentiram ao fim a que se prepuseram e fizeram obra de ficção que não pode ser aceita sem muitas restrições e depois de um contraste rigoroso com outros elementos de convicção provindos de origem diversa. Não obstante, aqueles autores continuam, ainda hoje, a ser os únicos mananciais em que vão beber conhecimentos os que se dispõem a escrever sobre a malograda revolução pernambucana.

É realmente muito mais cômodo e agradável compulsar-se um livro impresso em caracteres nítidos do que um grande in-folio escrito à mão, em caligrafia irregular, e as vezes, quase ilegível... E outra não é a razão da preferência que deixa ao abandono e às traças a grande cópia de documentos autênticos que possuímos e que bem espelhados, viriam projetar grande luz sobre os fatos que constituem o episódio interessante de 1817.

Uma das primeiras preocupações das autoridades portuguesas, incumbidas de punir os implicados naquele surto redentor, foi como era natural, a apreensão dos papéis pertencentes à malograda república e aos homens a ela ligados. E, apesar do cuidado que alguns tiveram de destruir aqueles elementos de prova, como fizera o padre Miguelinho que lançou às chamas protetoras todos os papéis comprometedores do arquivo do governo provisório que pôde levar consigo na fuga precipitada, a messe foi abundante graças às atribulações dos últimos instantes em que cada um procurava salvar-se, carregando apenas o precioso fardo da vida, único despojo que ainda lhe restava do naufrágio medonho das suas ilusões!

Os documentos assim colhidos foram presentes às sanguinárias Comissões Militares, e mais tarde à célebre Alçada presidida por Bernardo Teixeira Coitinho de Carvalho, e figuram nos autos da Devassa. Outros, porém, encontrados depois de encerrado esse processo monstruoso, andam esparsos pelos arquivos dos governos e das sociedades científicas e em mãos de colecionadores de autógrafos.

A maior porção desse inestimável acervo documental, todavia, está recolhida ao Arquivo Público Federal e na Biblioteca Nacional. No primeiro desses estabelecimentos, figuram as peças do processo da Alçada, reunidos em 17 grossos volumes; e, no segundo, uma grande quantidade de documentos soltos, atirados a granel, dentro de 10 gavetas. Lá, como aqui, não se obedeçeu a critério algum na organização dos tais volumes e na arrumação das gavetas; não há um índice que facilite a consulta; não há um sistema na distribuição da matéria que possa orientar o consultante; reina o caos absoluto e desafiar a paciência resignada dos investigadores.

Não sei se devido a essas dificuldades, aliás, superáveis, ou ao descaso dos nossos grandes historiadores, o certo é que ainda nenhum se abalançou à empresa ingente de enfrentar o problema e tirar a limpo a verdade que ressumbra daqueles importantes documentos. E a prova do que venho de afirmar, está em que o Sr. Dr. Oliveira Lima, indubitavelmente um dos maiores investigadores das nossas cousas históricas, tendo sido incumbido pelo Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco, de anotar a nova edição da obra mais completa que se há publicado sobre os acontecimentos de 1817, de Francisco Muniz Tavares (4), pouco concorro para esclarecer os pontos obscuros da questão, pois quase só se limitou a contrapor a opinião do autor a de Tollenare, e a tirar ilações que geralmente mais traduzem um conceito pessoal que a verdade dos fatos; e lá ficaram à margem, mais uma vez, como bagaço inútil, as preciosas coleções de provas autênticas, à espera de alguém que, com elas, queira reconstruir com a pureza primitiva o majestoso edifício que os patriotas idealizaram e executaram, e o sopro impetuoso da tirania derrocou.

 

Vitória, Junho de 1917

 

NOTAS

(1)       História da Revolução de 1817.

(2)       Os Martyres Pernambucanos

(3)       Notas Dominicais

(4)       Op. Cit.

 

 

Fonte 1: Revista Nº 1 – Anno I do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1917
Fonte 2: Edição fac-similar da edição Nº 1, 2017
Texto: M. Teixeira de Lacerda
Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 2017
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Jornalista Responsável: Álvaro José dos Santos Silva
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Texto: M. Teixeira de Lacerda
Compilação de acordo com a nova ortografia: Walter de Aguiar Filho, setembro/2018

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