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“A Árvore” que frutificou poesia – Por Levy Rocha

Aquarela: Mônica Boiteux

Geraldo Costa Alves publicou, nas Edições do Val, Rio de Janeiro, em 1966, o livro de poesias: "A Árvore", cuja leitura, evocando lembranças, nos transporta ao agradável mundo das inspirações.

O tema leva-me ao tempo de escola, quando um professor, na festa do Dia da Árvore, super-encabulado, voz engasgada pela emoção, não conseguia pronunciar outras palavras senão: "A árvore é nossa mãe..."

De assentada, viro as páginas do livro enquanto o pensamento vai cavalgando num memorialismo ditoso. O poeta, que buscou as melhores inspirações nos episódios da sua infância, fala-nos das jabuticabeiras do Guaçuí, e exclama, após referir-se à "Árvore Amiga", cuja semente ele plantou e anos depois viu vicejar numa esplêndida árvore frutífera:

"Ficai apenas em minha lembrança,

presente em minha fantasia,

para que ninguém no Mundo

possa um dia vos maltratar!..."

Também nós, muitas árvores, estaríamos a recordar, pois tivemos, como Geraldo, jabuticabeiras em nosso passado, a nos encher de saudade.

"A Árvore Que Plantei", do poeta,

"... cresceu, frondosa ...

E deu sombra,

e deu fruto,

e deu agasalho aos ninhos."

A nossa árvore, era tenra muda de eucaliptos, roubada numa gôndola da Estrada de Ferro Leopoldina, na parada do trem, em São Felipe. Agigantou-se ereta, à margem da lagoa, nos fundos do quintal de nossa casa. Lagoa coberta de plantinhas verdes, cheia de peixes camboatás, atolados no barro tabatinga. Afinal, essa árvore perde-se na bruma das recordações, confunde-se com outras, e é o poeta quem nos desembaraça do esforço de buscá-la, em vão:

"... Meus olhos te procuram no arvoredo,

árvore amiga, assim que surge o dia.

E a ti, ao vir da noite, num segredo,

um pensamento bom minha alma envia."

Um soneto antológico, sobre as queimadas, na floresta, merece bem que se transcreva o seu terceto final:

"... O fumo esconde o brilho das estrelas.

Passam aves sem rumo (é triste vê-Ias!)

piando, com saudade dos seus ninhos ..."

No poema: "O Carvão" ("... caminhões negros, carregados de carvão ... Lá vai a seiva da Pá-tria!") uma patética advertência à necessidade de melhor aproveitamento das nossas fontes de energia hidráulica e veemente apelo ao reflorestamento.

"Velho Jequitibá", conduz esse menino leitor à sua paineira, na Chácara do Cachoeira. Frondosa e ramalhuda, fazia muita sombra na casa e nas tardes quentes, um canoro sabiá ia cantar, em suas grimpas. Como constituísse perigo de despencar algum galho, foi derribada a machado. Enquanto esperávamos que murchassem as suas folhas, eis que a verde ramagem estendida ao chão, como num passe de mágica, se transmudou maravilhosamente em flores qual linda mortalha cor de rosa.

Geraldo fez uma mensagem ao seu amigo Demétrio, sobre o "Velho Pé de Carambola": lendo-a, pensamos em duas pitangueiras copadas, ao lado de um grande cedro que gemia, ao vento, como alma penada; pensamos em velhas mexeriqueiras; nas moitas de amoreiras e nas muitas goiabeiras que, além dos frutos de polpa branca e vermelha, também nos forneciam as forquilhas para o estilingue.

Outras árvores, do poeta, nos alçam ao mundo da fantasia: "A Árvore Duende"; a "Árvore-da-Tristeza"; "O Velho Cajueiro"; "A Árvore Que Tombou"; bem como uma "Árvore Triste", ao lado do Matadouro, tétrica, coberta de urubus, compondo impressionante cenário do sacrifício das reses.

No poema "Por quê? Por que será?", o menino Jesus salva uma avezita que cai do ninho, aconchegando-a nas mãos. Pensamos nas histórias e fantasias da Bá Albertina, que Geraldo evoca em outro poema, a aconselhar os "garotinhos endemoniados" que não maltratassem os "bichinhos inocentes".

A "Lenda da Passiflora", ocorre-nos a sugestão que se poderia ter feito imprimir, no campo verde da capa do livro (cujo aspecto gráfico — diga-se de passagem — nada deixa a desejar), uma flor de maracujá estilizada, onde apareceriam "...em floral verticilo, os execrados cravos da dor representados mais a coroa de espinhos ..." do martírio de Nosso Senhor.

Quase a fechar a coletânea, vem o poema: "São Cristóvão", todo de unção ao santo eremita que é levado por uma voz celeste ao alto da montanha, onde "... no esforço da subida, consumira-se-lhe a vida ..." Linda, a imagem poética, o cajado de São Cristóvão, reverdecendo, tocado pela mão milagrosa de Jesus e transformando-se num pinheiro.

A idéia de englobar versos antigos e modernos, visando beneficiar, com a venda do livro, o Hospital Santa Rita de Cássia, de Vitória, beneficia, de fato, a nós, os leitores, tal a abundância de evocações ditosas a que nos conduz.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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