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Afonso Cláudio e a Cultura Histórica - Por Gabriel Bittencourt

Afonso Cláudio

A historiografia capixaba muito deve a Afonso Cláudio, historiador, critico etnógrafo, folclorista, jurista, homem de imprensa, também poeta bissexto e teatrólogo. Segundo Elmo Elton, nenhum outro escritor espírito-santense nos legou obra mais ampla, mais meditada, mais duradoura, na qual se destacam trabalhos de Direito Romano, de que foi professor na Faculdade de Direito de Niterói (RJ) e, sobretudo, de História e Critica, que são estudos pioneiros na bibliografia capixaba.

A defasagem econômica que caracterizou o Espírito Santo ao longo de sua formação histórica, na medida em que se ligou tardiamente à economia de exportação, predominante no modelo tropical colonial brasileiro, nos parece, refletiu decisivamente em sua própria historiografia.

A pobreza material da capitania, na fase colonial, adentra-se pelo Império, e só começa dar os primeiros sinais de revigoramento após meado do século XIX com a implantação da cafeicultura, que atingiu em cheio a região capixaba.

As consequências dessa inviabilidade econômica, com reflexos no setor gráfico e da publicação, podem ser captadas no próprio processo político-emancipacionista local, quando, em plena agitação e efervescência do movimento de Independência, pasquins manuscritos eram colados nas paredes de Vitória, devido a ausência total de máquinas impressoras no Espírito Santo. Destarte, este atraso material gerou um atrofiamento na publicação historiográfica local, datando apenas do meado do século passado as primeiras publicações impressas no Espírito Santo.

Aqui, aliás, excluindo os cronistas e viajantes, como frei Vicente do Salvador ou Fernão Cardim que esporadicamente se reportaram ao Espírito Santo, podemos datar apenas do mesmo século XIX o surgimento dos trabalhos impressos sobre a história e geografia capixabas.

Até bem pouco tempo, localizávamos a publicação pioneira nas Memórias para servir a história da Capitania do Espírito Santo, atribuída tradicionalmente a Francisco Alberto Rubim, que a teria escrito em 1818 e publicado em Lisboa, em 1840. Desta versão discorda o jurista e historiador Renato Pacheco, em recente estudo, no qual credita ao filho de Rubim, Brás da Costa Rubim, escriturário do Tesouro Nacional, a autoria do texto.

De qualquer maneira, conforme José Honório Rodrigues, não se iniciou com Rubim, em 1816 ou 1818, a historiografia capixaba, mas com a "Informação que Francisco Manoel da Cunha deu sobre a Capitania do Espírito Santo em 1811".

Rubim, entretanto, um dos raros capixabas que chegou aos quadros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, com sua obra dispersa e fragmentada, segundo Levy Rocha, é fonte indispensável ao estudioso da história capixaba. Em diversos tomos da Revista do IHGB encontramos, ainda, o resultado de sua incansável atividade intelectual como na "Notícia cronológica dos fatos mais notáveis da Província do Espírito Santo" (1856), ou nas "Memórias históricas e documentos da Província do Espírito Santo" (1861), entre outros.

Desse período pioneiro podemos ainda destacar a Memória estatística e documentos da Província do Espírito Santo escrita no ano de 1828, da lavra de Inácio Acioli de Vasconcellos, que presidiu a província nos albores da Independência, entre 1823 a 1829. É nesse contexto que, entre os estrangeiros, agiganta-se a figura de Saint-Hilaire, viajante que visitou o Espírito Santo em 1818. Em 1833 fez publicar, em Paris, seu excelente Voyage dans le District des Diamans et sur le littoral du Brésil e que contém nos capítulos VII a XV (2.0 volume) a Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce (reeditados como obra independente, em 1974, pela Itatiaia/EDUSP).

No entanto, as perspectivas às publicações locais só são ampliadas em 1849, quando Pedro Antonio d'Azeredo, tendo adquirido a primeira tipografia capixaba (que fora montada em 1840, mas sem funcionar de 1841 a 1848) inicia a publicação do Correio da Vitória.

Daí em diante, no século passado, podemos citar como obras de maior interesse para a historiografia espírito-santense as publicações de José Marcelino Pereira Vasconcellos, Ensaios sobre a história estatística da Província do Espírito Santo (Vitória, 1858); Misael Pena (o pai), História da Provinda do Espírito Santo (Rio, 1878); Cezar Augusto Marques, Dicionário histórico geográfico e estatístico da Província do Espírito Santo (Rio, 1878); e Basílio de Carvalho Daemon, que a tantos inspirou com sua Província do Espírito Santosua descoberta, história cronológica e sinopse estatística (Vitória, 1879).

Os trabalhos, entretanto, eram reflexos da própria historiografia nacional, caracterizando-se pelo autodidatismo e técnicas de pesquisa e de investigação quase sempre superadas, via de regra, calçados nas mesmas fontes e temas.

Melhores perspectivas surgem no século XX, embora persistisse grande parte dos problemas anteriores, com uma série de edições versando sobre assuntos municipais ou regionais, custeadas geralmente pela municipalidade ou pelos próprios autores. Essas perspectivas ampliam-se, ainda mais, em 1916, com a criação do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, com vistas à promoção de estudos de História e Geografia, em nosso meio. Embora seja um autor também do século XIX, é nesse período que se sobressai a figura de Afonso Cláudio, ao lado de Torres Filho, que nos legou a incomparável O Espírito Santo e seu desenvolvimento econômico (Rio, 1913).

Nascido aos 2 de agosto de 1859, no atual município de Santa Leopoldina, Afonso Cláudio, que se destacara pelas lutas abolicionista e republicana, foi escolhido primeiro governador do Espírito Santo. Viveu no Espírito Santo até 1920, quando foi aposentado no cargo de desembargador do tribunal de Justiça, seguindo daí para o Rio de Janeiro, onde ingressou no magistério como professor de Direito Romano, na Faculdade de Direito de Niterói. Dois de seus livros, os mais importantes para o nosso estudo, datam, porém, do período em que aqui permaneceu: Insurreição do Queimado e, a História da Literatura Espírito-santense.

A Insurreição do Queimado data de 1884. A obra já conta com três edições e aborda a revolta de escravos ocorrida em março de 1849, no distrito de São José do Queimado, no município da Serra. Dessa revolta, de duração efêmera, mas plena de lances dramáticos, resultou o sacrifício de inúmeros negros daquela localidade e de regiões circunvizinhas, onde atuava o vigário Gregário José Maria Bene.

Pesquisando e buscando a interpretação deste movimento, Afonso Cláudio, mesmo se valendo de escassas fontes, pretendeu recriar este episódio, ocorrido dez anos antes de seu nascimento, e que levou à forca e ao chicote participantes ou não do levante e que permanece ainda em muito inexplicado — o que se deve ao extravio do processo-crime, como, também, de confissões, interrogatórios e sentenças. Essa obra, embora pequena, mas escrita com garra de quem pugnava pelo abolicionismo, vem sendo, de uns tempos para cá reestudada e até dramatizada por outros autores locais.

Com a História da Literatura Espírito-santense, editada em Portugal, sofreu o dissabor a que está sujeito, ainda hoje, o autor capixaba.

Elegendo seu campo de ação o local regional, não consegue o estudioso de nossas coisas despertar o interesse das editoras, dada a limitação geográfica do plano da obra que restringe seu público, obviamente não renumera satisfatoriamente o capital investido, objetivo principal do empresário; tampouco conta com o Poder Público, que relega a atividade cultural a ínfimo plano, raramente concedendo-lhe apoio financeiro ou meios de viabilização de projetos.

A História da Literatura de Afonso Cláudio estava destinada a ser impressa pela Imprensa Nacional, em virtude de autorização do presidente da República. Entregues os originais em 1907, na Secretaria do Interior, não se realizou, porém a Impressão, sob o pretexto "de não agravar o déficit orçamentário".

Em 1909, pretendendo o governo do Estado (Jerônimo Monteiro) inaugurar a Imprensa Estadual e desejando solenizar o acontecimento com a impressão de um estudo regional, distinguiu com sua preferência a obra de Afonso Cláudio. Decorridos dois anos, porém, mais uma vez, nada foi realizado, solicitando o autor a devolução dos autógrafos que só vieram a público, em 1912, graças a seus esforços pessoais.

Seguindo o mesmo plano esboçado por Silvio Homero, na História da Literatura Brasileira, Afonso Cláudio metodizou o estudo da literatura espírito-santense, dividindo-a em dois momentos, sendo o primeiro de 1770 a 1870, e o segundo de 1871 à data da publicação do livro, incluindo, ali, não só capixabas natos mas, também, os que aqui viveram e produziram. Seu prefaciador, Clóvis Bevilacqua, assinala que Afonso Cláudio "não quis inculcar que nesse pedaço do Brasil tenha florescido uma literatura vigorosa e autônoma, já que pretendeu apenas mostrar que também aí têm vivido e trabalhado cultores conspícuos das letras, alguns dos quais influíram na evolução do pensamento geral do Brasil; outros, mais modestamente dotados, apenas formaram o plano de onde se destacaram aquelas figuras maiores".

É bem certo, porém, que nesse volume de 560 páginas figuram, um a um, todos os legítimos representantes da cultura, poetas, romancistas, ensaístas, teatrólogos, jornalistas e historiadores, nomes alguns que, não fosse o cuidado do autor em situá-los no contexto da nossa literatura, já agora estariam totalmente esquecidos, com grave perda desta ampla visão que hoje podemos formar, concluída a leitura do livro, de todo processo evolutivo de nossas letras até o início do século atual.

 

Fonte: Notícias do Espírito Santo, Livraria Editora Catedra, Rio de Janeiro - 1989
Autor: Gabriel Bittencourt
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2021

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