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Clubes Republicanos

Muitas alegorias da época mostram a República triunfante. Nesta da Revista Ilustrada o Ministro Ouro Preto, ajoelhado sobre sua pasta, entrega-lhe a coroa imperial, símbolo do poder.

Sob o governo de Pedro II o regime parlamentar brasileiro, se não primou por grandes arrancadas de progresso material, foi contudo uma verdadeira democracia. A tal ponto que o presidente da Venezuela, ao ter notícia da queda da monarquia brasileira chegou a dizer: "Se ha acabado la única república que existia en América: eI Imperio del Brasil". A tal ponto que nunca hostilizou os mais agressivos pronunciamentos da propaganda republicana, transbordantes desde o manifesto de 1870, firmado por civis e militares, diatribes vociferadas no parlamento e na imprensa pelas colunas dos diários República e Globo com a pena de Salvador de Mendonça, nos artigos de Quintino Bocayuva no País e nos de Ruy Barbosa pelo Diário de Notícias. Se fosse hoje, os autores do tal manifesto estariam na grade com muita justiça.

Ruy exagerava por jactância quando pintava como heróis os conspiradores republicanos, dizendo que em caso de fracasso morreriam na forca. Mas a verdade é que se atreviam a tanto porque confiados na tolerância do monarca cuja índole democrática encarava como progresso político a fundação do partido republicano em 1870.

Esse partido recebia orientações estrangeiras, de Gambetta e Castelar: carta de Gambetta e delegado de Castelar especialista em conspirações e manobras ocultas. E à frente do partido encontravam-se homens como Quintino Bocayuva, Lafayette Rodrigues Pereira, Aristides Lobo, Salvador de Mendonça, Rangel Pestana, Campos Salles, Américo Brasiliense, - que deviam ter descortino bastante para organizar e dirigir um partido.

Cerca de 28 anos após a proclamação da República o estadista espírito-santense Muniz Freire, proferia no Senado veemente discurso, de que o historiador Oliveira Lima, no seu livro O Império Brasileiro transcreveu o seguinte trecho:

"O Império desmoronou-se, o poder pessoal do monarca foi destruído e em seu lugar surgiu essa vegetação daninha de poderes pessoais muito mais intoleráveis... Em resumo: o poder pessoal do Imperador, aliás muito atenuado depois da lei de 9 de janeiro de 1881, consistia em mudar os governos e as situações sem outro critério que o seu. Era um arbítrio que tinha o objetivo impessoal de manter na governança as diferentes competências separadas umas das outras pelas arregimentações partidárias e de permitir que cada uma delas pudesse gozar por sua vez das honras, vantagens e responsabilidades da direção política. Fazia ofício de balança para o equilíbrio dessas forças e procurava te-las satisfeitas, vigiando-se mutuamente e competindo no serviço da pátria. O objetivo do poder pessoal que hoje domina em toda a parte é de garantir aos seus detentores, suas famílias, seus parentes e sequazes o emprego que fornece o ganha-pão ou a posição que dá o prestígio à sombra do qual aumentam os bens se fazem as fortunas. . . O Brasil político pode ser considerado um agregado de ventres".

Não é forma de governo que traz o progresso, mas o modo laborioso, esclarecido e honrado de governar. Os países de melhor política administrativa são cinco monarquias: Suécia, Noruega, Dinamarca, Bélgica e Holanda, e para ombrear com estas, apenas uma república a Suíça.

Conquanto progredisse o movimento da propaganda republicana, o que apressou a proclamação da República foi à fúria dos senhores de engenho e dos grandes fazendeiros de café, enraivecidos pela completa perda dos escravos com a lei de 13 de Maio de 1888. E contra tal perda já vinham clamando desde a lei do ventre livre de 28 de setembro de 1871. A República não lhes devolveria os escravos, mas era um meio de se vingarem da liberdade do imperador. Foi uma vingança longamente premeditada.

Leia-se em Teixeira de Oliveira (Hist. do Est. do ES Rio, 1951), a propósito das pregações republicanas, p. 373:

"A propaganda da nova idéia muito se beneficiou aqui, como nas demais províncias - com o despeito que a abolição da escravatura provocara entre os fazendeiros. Contando, portanto com o apoio dos verdadeiros chefes das municipalidades - os proprietários rurais - foi fácil aos republicanos a pregação de seu evangelho e a formação de núcleos por todas as localidades da Província".

Pedro ll abominava a escravidão e desde 1850 declarava que preferia abdicar a manter-se à frente de um império repelido pela humanidade. Continuar governando um país explorador da escravatura foi para ele um suplício, que amargou sob a pressão dos latifundiários.

A vingança dos poderosos escravistas, transfigurada pela eloqüência das propagandistas republicanos, brilhava aos olhos da nação como alvorada maravilhosa.

A 17 de novembro de 1889 dois dias depois da proclamação da República, Aristides Lobo escrevia, num artigo para o Diário de São Paulo, que o povo assistiu bestificado à proclamação da República. Depois procurou mascarar a verdade declarada. Mas a pujança oratória da propaganda eletrizava as províncias de norte a sul e o Espírito Santo teve também os seus republicanos históricos e dos mais decididos segundo os testemunhos registrados.

Aqui foi Afonso Cláudio o primeiro a declarar pela imprensa, em 1883, o seu credo republicano, empolgado e sinceramente decidido pela publicidade propagandista da Corte agitada desde 1870, com a fundação do partido republicano, publicidade prosseguida e multiplicada em livros, panfletos, artigos de jornal discursos e comícios. Voltando mais tarde ao Espírito Santo, Afonso Cláudio dedicou-se à propaganda no norte da província e em Vitória.

Em 1887 Cachoeiro do Itapemirim tornou-se o mais ardoso centro da propaganda espírito-santense. Ali se fundou então o primeiro Clube Republicano, com a participação dos mais esclarecidos dos propugnadores: - Dr. Joaquim Pires Amorim (Presidente), Dr. Antônio Aguirre (Secretário), João Loyola (Subsecretário), Henrique Wanderley (Tesoureiro), Leopoldo Rocha, Joaquim Ayres, Rafael di Martino, Julião de Oliveira, Francisco H. dos Santos, Diogo Amorim, Antônio Ursino Toscano, José Manoel Rodrigues, João Izidoro Bicalho, Longo Batista Pereira, Bernardo Horta.

O Clube Cachoeirano adotou o manifesto de 3 de dezembro de 1870 e concluía em sua reunião de 23 de maio de 1887:

"Os seus associados não farão transações políticas com as facções monárquicas nos comícios populares e (o Clube) será o dirigente dos destinos do partido republicano no 2° distrito eleitoral desta província, que é de esperar logre grande progresso com a propaganda que vai iniciar".

Os clubistas davam provas de coragem cívica, pois se não estavam sujeitos a qualquer penalidade legal, tinham de arrostar as represálias dos partidos locais - conservador e liberal - cujos chefes poderosos lutavam pela própria estabilidade ameaçada. É assim admirável que conseguissem ainda tantas adesões e seguidores imediatos, pois outros clubes brotaram quase ao mesmo tempo: em Vitória, Vila de Itapemirim, Itabapoana, Alegre, Calçado, Rio Pardo, Muqui, Anchieta, Alfredo Chaves, Castelo, Santa Isabel, São Mateus - e de todos consta o registro dos diretórios e associados e de sua atuação no campo político agitado da época.

No interior novos jornais aparecem com o objetivo primordial de propagar os ideais republicanos e nos jornais já existentes era esse o assunto de maior importância. No momento temos à vista o fac simile da primeira página do periódico "A Tribuna", órgão republicano publicado na cidade de Anchieta pelo Dr. José Horácio Costa figura da maior projeção nos meios jurídicos e políticos e para quem a oposição foi sempre a arena predileta. Por ocasião da propaganda republicana percorreu toda a província, fazendo conferências, organizando clubes, animando comícios. Em Cachoeiro do ltapemirim, "O Cachoeirano" foi outro órgão da propaganda republicana no Espírito Santo.

Nem todos estes propagandistas estariam claramente convictos das vantagens que poderia trazer o novo regime, mas a disposição de se atirarem de corpo e alma na campanha para ele pessoalmente perigosa e de resultados imprevisíveis, o propósito de lutarem pela mudança da situação, demonstram desassombros de atitude e entusiasmos reformadores. Vários deles, ocupantes de cargo público, exoneraram-se antecipadamente.

Foram lutadores cuja hombridade serve de modelo para as gerações seguintes - modelos especialmente para os que se movem pela esfera política por onde se pavoneiam e sobem tantos aproveitadores.

Na comemoração deste Quinze de Novembro, alinhavamos esta ligeira palestra com o fito de chamar atenção para prosseguir no desenvolvimento do capítulo histórico da propaganda republicana no Espírito Santo, cujos personagens são exemplos de integridade de denodo combativo. Os universitários de história, política e sociologia empregarão bem o tempo investigando fatos e episódios desse período, rastreando arquivos e coleções particulares além dos trabalhos mais acessíveis já publicados

Entre estes últimos apontamos os seguintes (sendo os dois primeiros publicados na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, número 12, de novembro de 1939):

Mário Freire, A República no Espírito Santo

Amâncio Pereira, A propaganda republicana

Amâncio Pereira, Homens e Coisas Espírito-Santenses (Vitória, 1914)

Afonso Claúdio, História da Propaganda Republicana no Espírito Santo (livro ainda inédito e cuja publicação deve ser pleiteada)

Alvimar Silva, Vitória no Período do Brasil-Império (1949)

Judith Freitas de Almeida Mello, Afonso Cláudio ensaio biográfico (Ed. Pongetti, Rio, 1959)

José Teixeira de Oliveira, História do Estado do Espírito Santo (Rio, 1951)

Luiz Serafim Derenzi, Biografia de uma Ilha (Ed. Pongetti, Rio 1965)

Maria Stella de Novaes, A Escravidão e a Abolição no Espírito Santo (Vitória 1963)

Oliveira Lima, O Império Brasileiro (Comp. Melhoramentos de São Paulo, São Paulo 1927)

Também nos arquivos das Prefeituras Municipais, uma busca paciente poderá ser compensada com o achado de alguns subsídios para esse tema, até que seja possível integrá-lo com a devida amplitude na história da civilização do Espírito Santo.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico – nº 40, 1989
Autor: Christiano Ferreira Braga
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2014

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