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Colégio Sacré-Coeur de Marie

Colégio Sacré-Coeur de Marie, década de 60 - Arquivo: Colégio Sacré-Coeur de Marie

Silencia o tempo! A imagem do crepúsculo dilui-se aos poucos em instantes de saudade.

O nosso recolhimento transcende a atmosfera do adeus pelo sentimento da recordação. A recordação dos dias felizes passados no convívio do Colégio Sacré-Coeur de Marie.

Vivemos o tempo passado com alegria. Uma alegria contagiante, estampada no rosto de cada aluno.

O cinqüentenário ficou para trás, mas representa um marco vivo em nossas memórias e sinto que não posso deixar de registrar momentos de tanta emoção. Recordamos a nossa infância, a nossa adolescência, época vivida nos moldes dos bons costumes e de uma primorosa educação.

Ah! Foram momentos de riqueza espiritual onde tivemos o privilégio de retornar a um tempo feliz. No encontro, a recordação; a lembrança dos ausentes que partiram desta vida para alçarem vôos céleres rumo aos céus, em ritmos díspares, mas como passageiros de um outro tempo — o encontro com Deus. Sentimos os ausentes vivos em nossas memórias!

Tudo parecia um sonho. Tudo aconteceu, trazendo à memória as imagens do passado.

O Baile — ANOS DOURADOS DO SC. Dançar no Iate Clube como nos velhos tempos, lugar de flertes e de "arrasta-pés". Palco de lembranças e de tantas emoções. Freiras, alunos, pais, professores, antigos e atuais, se misturaram aos sons de "iê, iê, iê", "chá, chá, chá", "twist", revivendo as décadas de 50 a 70. O impressionante é que até os jovens entraram no embalo dos anos dourados.

Uma peça teatral foi a idéia que tivemos: — JE VOUS SALUE SACRÉ COEUR ou a COR DO CABELO DE MA MÈRE.

No dia 11 de junho, o Encontrão, para matar a saudade.

Foi uma experiência nova para mim... além de cuidar dos arranjos musicais — fui atriz! Os meus pensamentos voaram... transformei-me em menina dengosa dos anos 60, com cara de anjo, tranças compridas e uniforme de gala, o tradicional em festas especiais, gravata borboleta, solidéu; luvas e sapatos vulcabrás.

O amor que nos uniu fez-nos esquecer os nossos compromissos profissionais. Fomos à luta! Queríamos passar, para os alunos de hoje, um pouco do ontem.

No início da peça uma procissão, trazendo Nossa Senhora no andor, velas acesas, respirações ofegantes e lágrimas rolando nos nossos rostos. Foi extasiante!

No desenrolar das CENAS:

O cenário do Internato — o tilintar de uma campainha soava aos ouvidos das internas para acordarem, dando início às orações matinais — que eram obrigações do ofício. Muito rigor quanto ao cumprimento dos horários — e quanto ao banho das internas: só de camisolão. Para trocarem de roupa no dormitório, uma de frente para outra, Santo Deus, era pecado!

Jogos praianos — revivemos os jogos de praia (promovidos pelo Praia Tênis Clube), jogos que marcaram a vida de tantos, e mais ainda de importantes convívios. Levávamos para as salas de aula a emoção daqueles jogos. A expressão mais usada, quando falávamos dos rapazes, era: — Você viu aquele "pão" desfilando ontem? Era a gíria da época. A exigência e o rigor do passado foram sendo mostrados com entusiasmo na peça.

A caderneta —  era obrigatória na entrada do colégio, pois ai de quem esquecesse em casa, não entrava naquele dia. As filas eram formadas no galpão, cada fila uma turma, com todo respeito. Não se podia conversar, pois a Mère Lacreche ficava de caderninho em punho marcando cruz ao lado de quem abrisse a boca. E, nessas marcações das nossas falhas, as freiras eram impiedosas — meu nome levava tanta cruzinha, que parecia mais um cemitério.

Dos uniformes — para cada estação um tipo diferente e alguns detalhes em ocasiões especiais. O uniforme de verão tinha o dia determinado para ser utilizado, branco de fustão — eu me sentia um palito engomado. E, como era engraçado, a estação era o referencial. Mesmo com o maior calor tínhamos que mudar para o de inverno no dia exigido. O uniforme de gala era pomposo, tropical inglês azul-marinho e blusa de seda. A diferença era grande dos tempos de hoje. O uniforme tinha que ter quatro dedos abaixo do joelho e, outro dado importante, "moça de família" não podia usar batom. Como era emocionante pintar-se às escondidas!

As músicas, ou melhor, os hinos — eram ensaiados muitas vezes nas aulas de canto orfeônico. Recordo bem o hino do colégio, difícil de entoar, devido aos registros agudos. A turma, ao cantar, desafinava muito, e às vezes a desafinação era para implicar com o professor Valdir, uma das poucas exceções do colégio, pois professores homens não transitavam no SCM — era só ele e o padre capelão.

Trecho do hino:

A exemplo da Virgem Maria,

quais florinhas de viço e frescor.

Aqui vemos haurir a porfia

na virtude, na ciência e labor.

É o lema da nossa bandeira...

Trocávamos tudo, fazíamos até letras para gozação com as freiras — Melodia do repertório popular como "Ninguém me ama" — entoávamos com a letra: ninguém me ama, ninguém me quer, eu vou ser freira do Sacré Coeur... e assim cantávamos, levando a vida.

As aulas de bordado — tínhamos cestinha de costura e realizávamos bordados em ponto cruz, ponto de marca, ponto corrente... para as exposições do fim do ano.

Civilidade?! — aula de civilidade, bons costumes, comportamento e etiqueta social.

Reverência — ao cumprimentarmos as "mères" ou a "notre mère" — costas eretas, mãos cruzadas (uma sobre a outra), pés juntos e inflexão pelo lado esquerdo, o lado do coração. Em todos os momentos, nas salas de aula ou nos corredores.

Retiro espiritual — eram iluminados de fé e orações. Rezávamos todo o tempo e tínhamos que ler a vida dos santos como Santa Rita, Santa Terezinha, Santo Agostinho e tantos outros, para depois escrever a vida deles em 100 linhas, como penitência. Que dose! Mas tirava-se de letra. Nos momentos de diversão, não faltava criatividade. Vamos à música da noviça rebelde (brincando com as notas musicais), eu no piano e a turma no barulho:

i a gente com Mère Angela

Re tiro é uma babação.

Mi nha alma, já está pura

Fa lta-nos é distração

Sol o nosso astro rei...

Mês do Rosário — o terço era rezado todos os dias antes do recreio — mistérios gozosos, gloriosos... que tortura! Não faltava embolação, pois bem rápido respondia-se a todas as Ave-Marias para descermos mais cedo para o recreio. Foi uma passagem importante em nossas vidas.

— O mais curioso era descobrir o verdadeiro nome das freiras — fazíamos incríveis sindicâncias para desvendar esse mistério. Mère Agnes era Alice, Mère Santa Face era Nice, Mère São Tomás era Beatriz, Mère Marie Bernard era Gláucia... Outra proeza era entrar na clausura das irmãs, lugar proibido e que enchia de fantasias as nossas cabeças de adolescentes... Ah! Qual será a cor do cabelo de Ma Mère?! Que época gostosa!

— A marca dos carros da época — Dodge, Gordini, Karmann-Ghia,

— E os artistas — Alain Delon, Sophia Loren, Gina Lollobrigida...

— A língua — como seria pedante hoje falar: Bon jour ma mère... Bon soir ma mère... Merci ma mère... Mas, tradição é tradição! O francês era obrigatório, até o hino da França sabíamos todo e com pronúncia perfeita.

— Ave-Maria — assim como cumprimentávamos, também rezávamos em francês.

Je vous salue Marie

pleine de grâce

le Seigneur est avec vous

Vous êtes benue...

... ... ... ... ... ...

Ainsi soit-il.

Fizemos parte ativa do Grêmio Lítero Esportivo Padre Gaillac — lembro-me do discurso de posse da nossa chapa: A nossa diretoria, sabemos bem, será constituída de meninas boas, inteligentes e amigas... Nós, alunas do SCM, que vivemos num ambiente santo, orientadas por essas abnegadas religiosas, sabemos das responsabilidades que nos pesam...

Vivemos também a época da ditadura. Tensão e medo! Vitória, essa ilha tão pequena, onde todos se conheciam e onde as notícias se espalhavam facilmente. Pais, amigos e parentes de alunos foram depor no quartel. O negócio foi mesmo feio. Uma triste página da nossa história...

— Leitura das notas — as presenças da Mère Provincial e da Notre Mère. A ternura de Mère Regina, diretora de nosso tempo, hoje ainda viva, com 83 anos, era notada por todas nós na sessão solene. O momento mais importante era o da entrega das notas com quadros de honra, medalhas e prêmios. Aluna por aluna era chamada à frente do grande salão, e reverenciava as mestras presentes. Os resultados eram lidos em voz alta e as que mais se destacavam eram orgulho da família. As estrelas azuis, verdes e vermelhas representavam os 1o, 2o e 3o lugares, respectivamente.

O lema do colégio era trabalhar de verdade durante o ano para colher os louros no final. O colégio valorizava a ordem, a assiduidade, a disciplina, missões (que representavam as ações voltadas para a prática da fé), além do crescimento intelectual. As alunas que perdiam a "Excelência" pelo comportamento eram chamadas em tom elevado pela Notre Mère. A competição era sadia uma vez que o desafio para conquistar melhores lugares quanto a honra e mérito era notório. As medalhas na vitrine da minha sala são motivo de orgulho. Relembrar essas passagens e revivê-las é como expressar:

Éramos felizes e não avaliávamos quanto!

Obrigada, Sacré Coeur, valeu a experiência.

— A semana da cultura — Fui mais longe... Ao tirar da gaveta o concerto nº 2 de Shostakovitch, op.101, ousei!

Não tocava em público há cinco anos, coloquei os dedos em dia, a estrutura física em forma, lancei-me a favor do tempo e a minha corda sensível soou mais alto. Deus, na sua bondade infinita, me acolheu. O concerto aconteceu no Teatro Carlos Gomes, pelo lançamento do carimbo comemorativo dos cinqüenta anos do Colégio SCM, pela Orquestra Filarmônica do Espírito Santo, com a minha participação. Uma emoção indescritível!

Silencia o tempo! A imagem do crepúsculo dilui-se aos poucos em marcas de saudade.

 

Fonte: Coleção Escritos de Vitória, nº 10 Escolas - ano 1995
Autora: Maria das Graças Silva Neves
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2015



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