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De volta para o futuro – Por Cariê

Visita do governador e sua comitiva à usina Suíça, ainda em construção - Junho 1961

Eu andava pela casa dos doze anos e estava fazendo o mesmo que em outros adoráveis verões: gozando férias em Vitória. Hospedava-me costumeiramente na casa de minha avó paterna, que, além da calorosa hospitalidade, oferecia-me sessões de história de nossa família Monteiro. Eu gostava demais dos casos que ela contava sobre nossos antepassados e por vezes fazia-a repetir os detalhes que mais me interessavam. Ela mesclava os fatos sérios com passagens hilariantes e sempre ria comigo quando as contava.

Uma das passagens que ainda me lembro ocorreu na posse de tio Jerônimo Monteiro no governo estadual, que naquele tempo se chamava pomposamente de presidência do Estado. O presidente já havia comparecido à Assembléia Legislativa e passara em revista as tropas da Polícia Militar, como de praxe. Estava se aproximando o momento do discurso no Palácio Anchieta, quando o tio percebeu que tinha a testa muito suada. Vaidoso, ele enfiou a mão direita no bolso da casaca, tirou o lenço e sentiu uma mistura de manteiga, pão, queijo etc. Discretamente escamoteou a mão, tentando disfarçar a sujeira que seu lenço mal conseguiu limpar. Esta história era sempre repetida para mostrar a ingenuidade dos Monteiro personificada na matriarca da família, que imaginava que um presidente do Estado teria tempo e lugar, no momento de sua posse, para comer um sanduíche caseiro.

Nem mesmo o bispo Dom Fernando era poupado nas histórias da vovó. Ela ria com especial gosto quando se lembrava de um jocoso episódio que se passou no quarto de Dom Fernando, no Bispado. Ele trazia da França alguns queijos que apreciava muito, dentre os quais algumas peças de Roquefort. Este queijo é especialmente conhecido pelo péssimo odor que exala. Para curar o queijo, o bispo colocou as peças do lado de fora da janela, em local ensolarado. Foi quando o meu pai chegou para uma visita ao tio e padrinho. Para agradar o sobrinho, Dom Fernando resolveu servir um pedaço daquela "preciosidade". Quando abriu a janela espantou um grupo de urubus, que voaram, mas continuaram nos ares a se regalar com o queijo episcopal.

A ingenuidade e o liberalismo de minha avó eram coerentes com o tratamento de total respeito à minha liberdade de horários e de itinerários, apesar de minha pouca idade. Por isso eu gostava tanto das férias em Vitória, onde ficava prazerosamente longe da disciplina rígida que meus pais me impunham no Rio, onde morávamos. Exceção era chegar antes das duas da manhã em casa, depois de percorrer invariavelmente o mesmo roteiro: Praça Costa Pereira, onde as reuniões se prolongavam noite a dentro, avenidas Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos, rua General Osório e finalmente ladeira Caramuru, onde vovó morava.

Na rua General Osório, duas coisas atraíam especialmente a minha atenção: as oficinas de A Gazeta e os populares prostíbulos 120 e 130, os mais famosos da cidade pela libertinagem e beleza das mulheres neles residentes. Foram incontáveis as noites que passei sentado na calçada da porta de A Gazeta, observando o trabalho dos gráficos, do qual eu não entendia nada. Mas gostava muitíssimo de observar aquela sinergia, ao mesmo tempo em que me inteirava do movimento do outro lado da rua, identificando quem entrava ou saía dos dois lupanares e observando os eventuais estados etílicos das pessoas. Uma curiosidade tão tola quanto imbecil, pois até hoje nunca freqüentei com habitualidade um bordel. Menos por virtude do que por desnecessidade.

Sentado na calçada, recostado na coluna do portão, ficava apreciando aquela dinâmica desenvolvida pelos operários de A Gazeta, um grupo seleto de denodados trabalhadores que aos poucos fui conhecendo no bar Bota Muito, do mercado da Vila Rubim, onde bebíamos cachaça, comíamos tira-gostos e jogávamos sinuca, depois do fechamento do jornal. Sentia prazer em me sentar diante daquela porta de ferro vazada que, sem esquentar o ambiente, impedia a entrada das pessoas estranhas na oficina.

Eu já sacava qual era a rota, a seqüência da notícia naquele complexo emaranhado de máquinas e aparelhos gráficos rudimentares. Pendurados em um gancho amarrado a um cordão grosso desciam os papéis escritos pelos repórteres e redatores que compunham o corpo editorial, então constituído de cinco ou seis verdadeiros malabaristas que escreviam mais por ouvir dizer do que apurando os fatos. A esse pessoal cabia ainda redigir um precário telegráfico capturado piratamente das agências noticiosas. Seria impossível, com tão exíguo contingente, apurar-se algo e ainda escrever.

O material político, o mais importante da época em que os jornais praticamente não veiculavam assuntos de economia, era fornecido sob os auspícios dos partidários dos donos do jornal, o que era um hábito nacional. As notícias pasmem, só eram publicadas quando do interesse político dos correligionários do proprietário do matutino, embora este ostentasse, logo abaixo de sua logomarca, os dizeres "Matutino diário e independente". A imparcialidade da maioria dos jornais brasileiros foi um padrão que só anos depois foi alcançado.

No Espírito Santo começou em 1964, com a extinção dos partidos de então, e só se consolidou em 1970. O meu pai e seu cunhado, o Eugênio Queiroz, que em 1947 haviam, com um grupo de amigos e correligionários liderados por Alfredo Alcure, comprado A Gazeta, suportaram com estoicismo e galhardamente a grande cirurgia que aos poucos foi libertando dos interesses políticos a conduta editorial do jornal. Afinal eles haviam comprado o jornal para isto mesmo, ou seja, para fazer política.

A Gazeta é um dos poucos jornais do Brasil que não foram fundados especificamente para fazer política, embora menos de um ano depois estivesse engajada em política. Conta-se que o Sr. Ostílio (ver edição 60 anos), precisando vender o seu loteamento de Camburi, convidou o amigo jornalista Thiers Vellozo para fundar um jornal. O loteamento não foi para frente, mas o jornal sim, mesmo tendo enfrentado, cerca de dois anos mais tarde, um empastelamento por motivos políticos. No final da década de 30, iniciou-se uma ferrenha contenda pela posse do jornal: um grupo tinha A Gazeta Ltda., e outro, S.A. A Gazeta. O grupo que não tinha o controle do jornal passou a remunerar os operários com o objetivo de fazer parar o jornal, o que foi conseguido.

Foi a compra de A Gazeta que deu ao então governador Carlos Lindenberg, meu pai, o descanso de não precisar mais estar escrevendo esdrúxulos e inéditos editoriais no Diário Oficial para se defender das ardilosas críticas que lhe dirigiam através da própria Gazeta, então órgão oficial da UDN (União Democrática Nacional). A passagem do matutino para o grupo político do meu pai tinha o sabor de um fantástico troféu que desequilibrava o jogo político em favor do PSD (Partido Social Democrático). E não deu outra: fora as ajudas eleitorais a deputados, vereadores e senadores que fizeram crescer o partido, A Gazeta foi decisiva na carreira política do meu pai, que já fora duas vezes deputado federal e uma vez governador, e ainda conquistou mais dois mandatos de senador e um de governador.

Voltando ao suposto tema central do menino apreciando as máquinas, as laudas escritas pelos jornalistas eram distribuídas nas três linotipos que havia e que mais tarde chegaram a sete. Esta máquina foi à invenção mais brilhante que ocorreu na área gráfica, já que todas que a substituíram vieram da área de informática. Ela era de uma precisão fantástica na sua missão de providenciar toda a composição tipográfica dos jornais, à exceção dos títulos que ou eram feitos por uma máquina semelhante ou pela mão do tipógrafo. O seu teclado, semelhante ao das máquinas de escrever, era, porém muito maior e as letras eram distribuídas de forma diferente.

A máquina era constituída de várias fontes, de tal forma que estava sempre preparada para trabalhar letras de diversos tamanhos e aceitar, sem paralisações, o trabalho de composição do linotipista. Claro que por trás disso estava um fantástico exercício matemático que determinava quantas vogais e quantas consoantes de cada letra deveriam compor cada fonte (reservatório de letras de metal). Uma enorme haste presa atrás da linotipo fazia o papel de apanhar cada frase escrita na largura previamente determinada e levá-la para um banho de chumbo líquido a mais de 1.100 graus. Ela se encarregava ainda de pendurar em local adequado cada linha de chumbo, agora sólido, com a composição tipográfica na sua borda superior.

Esfriada a linha, chegava à vez da figura do emendador entrar em cena e juntar aquela composição à lauda datilografada que lhe deu origem e devolver à redação pela mesma via que chegara. No original dos jornalistas eram marcados pelos revisores os erros cometidos pelos linotipistas, que em alguns casos eram terríveis.

Eu me lembro que, ao noticiar a morte de Picasso, dissemos: "Morreu Picasso, o maior pinto do mundo". Por galhofa, ou não, esqueceram o r de pintor. Também o sobrenome Carvalho apareceu algumas vezes sem o v. Uma senhora muito conhecida com o sobrenome Bulhões sofreu o constrangimento de ver o seu nome grafado na primeira página, três colunas, com c em vez de b. E para encerrar este pequeno recreio, tem o caso daquele funcionário público demitido "a peido", em vez de a pedido. E pensar que a autoridade coatora era o governador...

A matéria voltava à linotipo para as correções e, pronta, ia se constituir em paquês (matéria completa ou parcialmente completa). Os paquês eram colocados dentro das ramas, que eram uma espécie de janela de ferro que abrigava as composições, que, uma vez completas e ajustadas, iam para o local de impressão na máquina, que na época era plana. Quando os paquês desordenadamente distribuídos estavam na rama, chegava a vez do paginador dar o seu toque artístico à capa, contracapa e demais páginas do jornal.

É fantástico vermos quanto evoluímos em relativamente tão pouco tempo. Hoje, este mesmo trabalho é feito por profissionais chamados diagramadores que trabalham em terminais computadorizados com telas coloridas, nas quais, com sua habilidade, vão dispondo as matérias digitadas nos microcomputadores pelos jornalistas nas diversas páginas do jornal. Dessas máquinas as páginas já saem completas e diretas em forma de fotolito, e daí vão para a chapa que vai para a impressora. O jornal moderno suprimiu a revisão e logicamente também a emenda.

Quando todas as páginas já estavam completas nas ramas e colocadas no local apropriado da impressora, era o sinal de que o jornal estava prestes a sair. Diferentemente do que é feito hoje em
dia, a velha impressora Marignoni era uma máquina plana cuja impressão se processava pela fricção direta das letras de chumbo no papel. Sendo uma máquina plana, a sua impressão se processava em papel em ramas e não em bobinas, como passou a ser usado por nós em 1969, quando se mudou para o processo off-set, praticado em rotativas. Aquele reeecoreeco se iniciava muito lento e aumentava vagarosamente até saturar o ouvido de todos com a velocidade máxima de uns 500 exemplares por hora. A rotativa modelo Community, que sucedeu à velha Marignoni, além de inaugurar o tempo da cor em A Gazeta, era menos barulhenta e rodava 16 mil exemplares por hora. A sucessora desta, por sua vez, tira até 50 mil jornais por hora, e o processo é igual ao da sua antecessora: o fotolito é gravado em uma chapa e esta é presa nos rolos da máquina, de onde imprime um rolo de borracha que por sua vez imprime o papel em bobinas.

O cheiro do chumbo que saía das linotipos junto com uma ligeira fumaça se juntava ao da tinta e formava um consórcio madrasto de poluição. Esse pessoal preferia levar para casa o leite para desintoxicar que a empresa dava e bebia mesmo era cachaça no tradicional bar Bota Muito. Uns ainda reclamavam pilheriando que a empresa deveria pagar a cachaça e não o leite.

A freqüência de minha presença, sentado na porta da oficina de A Gazeta, de madrugada, acabou por me tornar conhecido de todo o pessoal. E como a minha presença viesse se repetindo ano após ano, fui me tornando, sem querer, um conhecedor das pessoas e do manejo daquela oficina quase artesanal. Como eu supusesse que meu pai tinha algo a ver com aquele negócio, a minha cabeça desenvolvia sonhos em torno de um dia trabalhar ali. E na verdade não deu outra.

No final do ano de 1962, eu estava de partida para Belo Horizonte, a convite do grande amigo Pedrinho De Biase, para trabalhar em uma empresa de distribuição de valores mobiliários, quando inesperadamente meu pai perdeu a eleição para o Senado. Isso ocorreu por circunstâncias que poucas pessoas sabem, pois, na verdade, ele estava no auge de seu prestígio. Constrangido de deixar o Estado e parecer com isto que a família estava magoada com os capixabas, resolvi ficar e me estabelecer aqui.

Por este tempo, minha experiência empresarial era pouco mais do que nada. Havia feito um bom curso de Direito e passado cerca de três anos e meio assessorando o meu pai, então governador. A convite de amigos fundamos uma corretora, incorporadora e depois uma construtora de imóveis e uma empresa de publicidade. Os negócios iam relativamente bem e eu até me alegrava por não ter que trabalhar no jornal de meu pai, o que, eu achava, me daria a sensação de que não tinha capacidade para sobreviver por mim próprio. Ledo engano. No momento em que começamos, eu e tio Eugênio Queiroz, a desenvolver projetos arrojados para o crescimento do jornal e para a implantação da TV Gazeta, me senti útil e mais do que necessário às empresas, e o mal-estar foi substituído por uma gostosa sensação de confiança naquele terreno já do meu conhecimento. Foi muito antes, numa tarde de verão, no início de 1963, que o tio Eugênio, que dirigia sozinho o jornal desde 1947, me convocou para conversar. Ele, como sempre muito maneiroso, foi curto e grosso ao assunto.

— Meu filho, — disse — você sabe que seu pai é o maior acionista deste jornal. Isto está crescendo, mas poderia ir melhor se você viesse me ajudar. Você tem que tomar conta do que vai ser seu. Além do mais, os meus negócios particulares estão ficando muito prejudicados, pois cada dia me ausento mais para atender A Gazeta.

Este último argumento superou inteiramente o pavor que tinha de enfrentar a direção do jornal, face à minha condição de inteira ignorância daquele que me parecia um complexo mundo.

Poucos dias depois de saber com clareza que A Gazeta era de meu pai, fui escolhido, em 13 de janeiro de 1963, para ser o seu diretor comercial, cargo então criado para definir a minha atividade. Por mais de doze anos éramos, o presidente e eu, os únicos diretores da casa. Os procedimentos eram muito embrionários, rudimentares mesmo. Sabíamos que as coisas iam bem, ou não, pelo sistema de controle que a "madrinha" da casa, Matilde, exercia sobre a Tesouraria, ou seja, olhávamos diariamente se tinha entrado mais dinheiro do que saído, e por aí balizávamos nossa ação. Algo de uma insegurança enorme. Só em 1972 implantamos o orçamento empresarial e definimos as funções e a competência dos principais executivos da empresa. Foi por este tempo que substituímos o tradicional sistema do vale, atendido apenas quando havia dinheiro disponível, pelo pagamento da folha quinzenal.

Um grave problema coronário afastou por um longo tempo o presidente de suas funções, o que me obrigou a acumular as tarefas dos dois cargos. Em função disso, abandonei o meio expediente que até então dava na imobiliária e me concentrei apenas na área de comunicação.

Entre todos os componentes dos quadros do jornal éramos 38 pessoas, se tanto. Com um quadro de, tal sorte enxuto, todos trabalhávamos demais, à exceção do folclórico contínuo Amado, sempre muito vagaroso e desatento. De tal forma que, certa vez, Hélio Dórea lhe pediu para comprar um maço de cigarros Minister e ele, horas depois, trouxe um misto quente.

Um grande espírito de solidariedade e um especial amor a A Gazeta eram os fortes elementos que irmanavam este pequeno corpo funcional, entre suas famílias e na dedicação ao trabalho. Trabalhou-se muito e também se riu e divertiu com as coisas que diariamente serviam de galhofa. Tinha episódio para exemplificar tudo.

Eu, especialmente, gostava da história ocorrida entre mim e o diagramador de apelido Presunto, porque servia para demonstrar a impessoalidade e a simplicidade dos diretores da casa. Ainda não tínhamos PABX e Seu Eugênio e eu atendíamos em extensões distintas que a secretária Nelsira nos avisava por campainha. Por alguma circunstância, Nelsira afastou-se de seu local de trabalho e o telefone tocava sem parar. Presunto, que ia passando, em gesto de solidariedade, atendeu e em seguida abriu a minha porta e perguntou: — Cariê, trabalha algum Lindenberg aqui?

Outra vez papai, que quase nunca ia a A Gazeta, ligou o telefone para a redação e foi atendido pelo jornalista Paulo Maia. Quando papai se identificou, Paulo Maia não acreditou e incontinenti esbravejou: — Olha aqui, seu filho da puta, vai gozar o cu da mãe — e desligou. Papai, que precisava botar uma notinha sobre a morte de um amigo, voltou a ligar; Paulo atendeu novamente:

— Já que você diz que é Carlos Lindenberg, em vez de ficar ligando para a redação, deveria aumentar este salário de merda que A Gazeta paga. — E acrescentou mais outros impropérios. Só na terceira ligação Paulo sacou e o atendeu adequadamente. Por alguns dias esperou o bilhete azul ou o aumento. Em vão...

Mas nem tudo foram flores. Houve um meio tempo aí, naquele período das duas maxidesvalorizações, que sofremos muito. Estávamos construindo a nova sede de Bento Ferreira, que só iniciamos porque dispúnhamos da quase totalidade dos recursos para cobrir o orçamento da obra. Só que a inflação comeu tudo rapidamente. Havíamos também adquirido uma impressora 400 Harris de 50 mil exemplares por hora para atender à nova tiragem e às perspectivas de crescimento, substituindo uma máquina de 16 mil exemplares. O financiamento não nos era favorável, mas foi o que conseguimos. A primeira máxi não nos apavorou, mas a segunda nos pareceu dramática.

Parti para o Rio e fiz um apelo patético ao vendedor da máquina para cancelar o negócio. Apenas conseguimos reduzir de um milhão e duzentos mil dólares para oitocentos mil, diminuindo unidades e implementos. Encontrando-me casualmente com Jônice Tristão, no Rio, aceitei o convite para regressar em seu avião particular, onde acabei companheiro de poltrona do Emane Galvêas. Ele sempre me tratou com muita distinção, desde os anos 60, quando era assessor do ministro da Fazenda e eu do governador daqui. Eu não sabia falar de outra coisa senão da compra da máquina, do financiamento e principalmente das maxidesvalorizações, que por sinal aproveitei para reclamar diretamente do ministro da Fazenda, meu vizinho de banco. Ele resolveu olhar as nossas condições de financiamento, que eu nunca tirava do bolso, e sisudo sentenciou:

— Vocês não vão conseguir pagar isso nunca.

Esta estocada me trouxe de imediato à lembrança o que me dissera anos antes um senador muito amigo e conhecedor do ramo, depois de ler, também no avião, o projeto que havia feito para conseguir recursos na Caixa para montar a TV Gazeta.

— Estou com pena de seu pai, Cariê, porque vai perder aquela fazenda de Linhares e também os boizinhos.

Essas coisas me deixavam extremamente deprimido, mas de fato foi por pouco que os vaticínios não se concretizaram. Chegamos pouco depois a ter negócios com oito bancos, pois o dinheiro que nos queriam emprestar vinha em contagotas. Era uma ginástica seguida de uma ciranda. Para pagar a folha, que por sinal nunca atrasou, o banco que mais confiava na gente adiantava o valor e aguardava alguns dias, enquanto descontávamos as duplicatas nos outros sete. Conseguimos, trabalhando duro, alcançar o objetivo a que nos propusemos de não recorrer ao crédito, senão externo de longo prazo e para compra de equipamentos. Estamos agora em negociação para compra de uma nova impressora, cujo valor será entre nove e doze milhões de dólares, e exigirá a construção de um prédio novo, cifra impensável, numa empresa como A Gazeta, há cinco anos. É mais um risco calculado que vamos enfrentar só que hoje, em vez de 38, somos mais de 980 funcionários; e, em vez de dois, somos quinze diretores para segurar a peteca. Além disso, colocamos nas ruas cerca de cem mil jornais nos domingos, ao invés de cinco mil, como em 1969.

Nestes tempos de empresa grande acabam acontecendo coisas inesperadas, fruto do embaralhamento da história na cabeça do grande número que hoje constitui o contingente do jornal.

Há pouco tempo ia eu saindo pela porta dos fundos de A Gazeta, passadas às 8 da noite, e uma alegre e divertida pelada rolava no pátio entre os jovens da distribuição do jornal. Por uns poucos minutos observei o jogo e fui pegar o meu carro, quando três dos garotos me interromperam com a pergunta: — É o senhor que é o Thiers Vellozo?

Mas muito mais importante mesmo do que todo esse folclore ou história é a grandeza do passado e hoje das pessoas que se constituem nos recursos humanos da empresa, que dividem conosco a responsabilidade e a alegria de ser parte das peças fundamentais que formam o corpo de A Gazeta.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Volume 17 - Imprensa - Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

Personalidades Capixabas

Antônio Francisco de Athayde

Antônio Francisco de Athayde

Antônio Francisco de Athayde foi prefeito de Vila Velha entre 1918 e 1921

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