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Defensor do patrimônio imaterial - Guilherme Santos Neves

Câmara Cascudo e Guilherme Santos Neves no alto da Rua Nestor Gomes em Vitória - Década de 1950

Sem dúvida Mestre Guilherme idealizava o povo capixaba, o que pode ser facilmente constatado em muitas passagens dos seus artigos. Era uma idealização que pertencia ao zeitgeist, ao “espírito da época”, com fortes componentes paternalistas, em que o povo sempre deveria possuir “protetores” de suas práticas, usos e costumes. E que também tinha componentes míticos: apesar de o povo ser em várias passagens definido como o “povo-povo’, a “arraia-miúda”, não deveria ser desprezado por isso, mas, ao contrário, valorizado – quando vamos ao encontro do povo não nos rebaixamos mas “subimos”. Ele acreditava nisso, e resta-nos respeitar essa crença e entendê-la no contexto histórico em que foi exercida.

E que povo seria esse? Um povo puro, rural, ingênuo, que estava perdendo sua “inocência” a olhos vistos. E nosso folclorista, que não era ingênuo e sabia estar a realidade social em permanente mudança, almejava que esse “povo bom” não fosse corrompido pelo mundo capitalista industrial, em que imperam a impessoalidade, a indiferença, o individualismo no trato social, para dizer o mínimo. Desejava que as relações interpessoais fossem regidas por parâmetros emotivos e vinculatórios, iguais aos vigentes no mundo rural. Acreditava ser o povo por natureza bom, sobretudo se bem conhecesse seu lugar na sociedade. Lugar que o Estado brasileiro já tinha delimitado estritamente, quando promoveu a sindicalização de cima para baixo, sempre com soluções conciliadoras tão ao nosso gosto. E sem atingir a grande massa de trabalhadores rurais, que somente no final da vida do autor começa a usufruir de alguns direitos sociais.

Assegura Carlo Ginzburg: “Os instrumentos que nos permitem compreender culturas diversas da nossa são os instrumentos que nos permitiram dominá-las”, ao tratar da formação acadêmica de Picasso e a apropriação que fez de imagens da cultura africana em proveito de muitas de suas obras (GINZBURG, 2002, p. 43). No caso da cultura popular existente no Espírito Santo, seu conhecimento mais amplo permitiu que o domínio dos aparelhos ideológicos de Estado fosse reforçado frente às camadas subalternas da população. Não que Guilherme Santos Neves pretendesse isso, ou que para isso trabalhasse; ao contrário, ele verberava contra o dirigismo em assuntos de folclore, seja promovido por governos, por partidos políticos ou por corporações empresariais. Mas não há como negar que, a partir de sua obra, aquele domínio foi reiterado, a que se seguiram apropriações realizadas pela indústria cultural – como se deu no caso da música Madalena do Jucu, adaptação feita por Martinho da Vila a partir de toada pertencente a banda de congos capixaba e, segundo ele, um dos maiores sucessos de sua carreira.

No entanto, devemos também enxergar o outro lado dessa atitude de Mestre Guilherme pela conservação do ambiente social e, por extensão, do folclore, que não deve de forma mecânica ou simplista ser assimilada ao conservadorismo em termos ideológicos e políticos. Esse outro lado nos fala da resistência cultural que, mesmo de forma limitada ou quixotesca, como queiram, mas sempre bem intencionada, foi por ele utilizada contra a mediocrização das riquezas intangíveis produzidas pelo povo capixaba.

Essa postura de Mestre Guilherme guarda inteira atualidade. Se não, vejamos. As casas de farinha já desapareceram (pela década de 1980, diversas pessoas a elas se referiam, talvez às mais modestas, como “quitungos”). Populações, antes dispersas no meio rural, especialmente no nordeste e noroeste capixabas, foram tangidas para as cidades, inchando o tecido urbano. Em seu lugar temos agora extensas plantações de eucalipto e de cana-de-açúcar, ou grandes pastagens, que muitos consideram como iniciativas errôneas promovidas aqui por grandes corporações controladas pelo capital estrangeiro. A essa postura se contrapõe outra que vê tais empreendimentos como trazendo a riqueza e muitos empregos, ainda que para tanto o progresso cobre pesado ônus. Mas todos estão de acordo que a cultura local, típica, popular deve ser incentivada. Sem querer idealizar as elites empresariais globalizadas, observa-se atualmente que até elas já começam a entender que não é necessária a uniformização massiva de toda a população, e que uma diferenciação cultural talvez seja mesmo desejável, daí o incremento para revalorização do nosso patrimônio imaterial.

Podemos preparar uma boa torta capixaba (feita originalmente para aproveitamento de sobras nas refeições da Quaresma) em tabuleiros de alumínio, decerto, mas o uso das autênticas panelas de barro faz a diferença, que mais não seja na apresentação típica desse também famoso prato da nossa culinária. E é bom que haja registro do saber fazer a panela de barro e das músicas de congo, para que não ocorram apropriações indébitas ou imitações baratas que induzam os incautos a comprar gato por lebre. Porque acaba que muita gente hoje em dia vive, e bem, do folclore. Serve-se do folclore para fins particulares e comerciais, e não serve ao folclore, como durante toda a vida fez Guilherme Santos Neves. 

 

Fonte: Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo - Guilherme Santos Neves, 2013
Texto: Fernando Achiamé e Linda Kogure
Coordenação: Antônio de Pádua Gurgel/ 27-9864-3566 
Onde comprar o livro: Editora Pro Texto - E-mail: pro_texto@hotmail.com - fone: (27) 3225-9400

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