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Mestre Flores artesão da Vida - Por José Carlos Mattedi

Mestre Flores - Foto: Chico Guedes

Mestre Flores morava numa casinha ao lado de um campo de futebol, no bairro Santa Lúcia, em Vitória. Foi da sua varanda, dedilhando velhos chorinhos e observando o movimento dos jogadores numa “pelada", que conversamos. Ele, que fez histórias nos bailes e festas do Espírito Santo com o seu  cavaquinho, ou violão, morreu no dia 03 de novembro de 2002. Uma vez ele disse: "Sou como uma cigarra. Toco, toco, só paro quando estourar meu coração". Deixou saudades...

Publicação em A GAZETA: janeiro de 1998.

 

O Artesão da Vida Chega aos 80 Anos

O músico Mestre Flores completa 80 anos de vida, sendo que sete décadas foram dedicadas à música regional

Não é preciso ser um quiromante para ler as mãos de Mestre Flores. São tão calejadas que revelam logo suas duas profissões: Carpinteiro e músico. As grossas palmas das mãos construíram e móveis, enquanto as pontas dos dedos achatados e cheios de calos dedilharam no cavaco os mais belos chorinhos. "Sou um artesão da vida", diz. Mestre Flores é pessoa simples, de muita “ sensibilidade. Costuma dizer: "Só fiz coisas boas na minha vida. Vivi como um pobre feliz". Na última sexta-feira, ele completou 80 anos de vida, sendo 70 deles dedicados à música.

Sua casa fica numa rua sem saída, ao lado de um campo de futebol no Bairro de Santa Lúcia. É pequena, mas agradável. "Minha casinha é modesta. Nunca pensei em fortuna. Sempre pensei em orientar meus filhos". Os vizinhos não saem de sua varanda sempre atraídos pelo som afinado do violão ou do cavaquinho. Respeitado e admirado, é considerado um dos grandes músicos do Espírito Santo, apesar de nunca ter tido a oportunidade de gravar um único disco. "Isso não me causa nem tristeza, nem frustração. Não quero botar disco na cabeça para sair por aí vendendo", fala resignado.

Aos domingos, a partir das 10 horas, é possível vê-lo na Praça Costa Pereira, dentro do projeto Artes na Praça, da PMV. Com seu inseparável boné, ele comanda o Regional do Mestre Flores, com seis componentes. Nesses dias, o local ganha ares da cidade do interior. Pessoas sentadas nos bancos (a maioria da terceira idade) e turistas “clicando” suas máquinas fotográficas ouvem chorinhos, sambas e serestas. Uns se animam e partem para o karaoquê, enquanto outros ensaiam alguns passos de dança. A cena lembra uma Vitória que passou, tranqüila e bucólica.

LAMAÇAL - Antônio Flores Rodrigues nasceu em Anchieta. Aos seis anos veio para a Capital. Morou no Morro do Cruzamento em Jucutuquara. "Era criança sofrida. Catava caranguejo para ajudar em casa", lembra. Apesar da vida difícil, enfiado em lamaçal, o menino pobre logo descobriu que carregava uma riqueza: o dom para a música. Autodidata, aos dez anos aprendeu sozinho a tocar violão e cavaquinho. "Fui um analfabeto da música. Não tenho teoria", Costumava sentar sobre um muro numa das ruas do bairro e ali fazia suas serenatas. Tempos bons aqueles...

Aos 18 anos aprendeu a tocar banjo. Mas não dava para fazer da música uma profissão ("ganha-se pouco"). Por causa da "bóia" ele resolveu servir o Exército. "Seria menos uma pessoa pra comer em casa", ressalta.. Lá aprendeu a carpintaria, profissão que exerceu por longos 45 anos. Deixando o quartel, casou-se com Minervina que lhe deu sete filhos. "Mulher maravilhosa. Um apoio constante", diz, com saudade. E após o batente diário, costumava botar o cavaquinho debaixo do braço e saía para a noite. Tocava em bailes, gafieiras e clubes.

Entretanto, o dinheiro continuava curto. Então, aos 28 anos tomou uma decisão: "O meu martelo vai bater no Rio", disse. E foi embora com a família, isso em 1946. Na capital carioca tocou com músicos conhecidos da época, como o flautista Tengo e o violonista Tatí Cruz. Mas o que gostava mesmo era do conjunto Amigos do Bairro, de Nilópolis. Os ensaios aconteciam numa barbearia, e depois partiam para as festinhas. "Mas não consegui lá o conforto que queria". E assim, por 16 anos, Mestre Flores tentou a vida na terra de Noel Rosa. Porém, não deu certo. E voltou.

BATUCADA - Por aqui a coisa não mudou muito, mas ficou mais alegre. O cavaquinho dele ganhou as noites da "cidade" de São Sebastião, na Serra. “Adoravo tocar naquelas boates. Sentia alegria no povo que dançava". Andou ao lado de uma turma boa de músicos:

Antônio Paulo, Manelito, Eduardo Alves, Teobaldo e Sargento Hernandes. "Todos já se foram. Só resta eu", diz lacônico. Com esse time e outros amigos, fundou o grupo Os Coroas do Samba, em 1964. No mesmo ano, ele assumiu a presidência da batucada da Mocidade da Praia. Seis anos depois, esta passou a ser escola de samba, e com ela ganhou três títulos carnavalescos. Foi aí que deixou de ser Antônio Floris para ganhar o apelido de Mestre. Merecido.

A partir de 1970, ele deixou as boates e gafieiras para tocar nas churrascarias da Praia de Camburi. "Fazia para me distrair, por amor. O cachê sempre foi pequeno", enfatiza. No início dos anos 80, deixou a presidência da Mocidade da Praia e se aposentou da carpintaria. Com o tempo todo livre para a música, ele criou o Regional do Mestre Flores, há 15 anos. Começou, a partir daí, uma série de apresentações em praças, clubes e festas em todo o Estado. E lá se vão 70 anos de música, que deixaram as pontas dos seus dedos calejadas e achatadas. "Isso aqui já não dói nada", diz, exibindo-os como um troféu.

Com a morte da esposa, há dois anos, o cavaquinho, antes inseparável, agora virou uma espécie de tatuagem. Quando Mestre Flores se sente sozinho, pega o "companheiro" e vai até a varanda para dedilhar velhos chorinhos. Nas sextas-feiras, segue com o cavaco para o Bar do João, próximo à sua casa. Ali, junta-se aos amigos e se rende ao saudosismo. As músicas que mais gosta de tocar? A resposta é rápida: "Carinhoso', de Pixinguinha, e 'Brigas' de Alternar Dutra. As duas tem um passado em minha vida". O que aconteceu, ele não revela - coisas do coração, com certeza, e coisas do coração costumam morrer com a gente.

PAIXÃO - Uma tristeza? "Nenhuma. Mas gostaria que um dos meus filhos ou netos tivesse sido músico", confessa, para arrematar logo em seguida: "Minha arte não vai morrer comigo. Já formei mais de dez instrumentistas". Mestre Flores se define como uma pessoa calma, "que vai devagar". E essa tranqüilidade e também sua longevidade, diz ele, são frutos da paixão pela música. "Sem ela, teria 'fechado o paletó'. A música não me deu dinheiro, mas trouxe felicidade", afirma convicto. Sua calma só "desce pelo ralo" quando defende a MPB da "invasão estrangeira". E, por isso, faz uma reverência ao pagode e à música sertaneja: "Elas foram importantes, pois agüentaram o impacto e frearam o rock internacional, que traz outra cultura. Temos que fazer valer a nossa música".

E assim, como um "artesão da vida", Mestre Flores foi construindo muitas coisas: uma personalidade sensível e forte; uma família de sete filhos ("todos bem-encaminhados"); compôs chorinhos, marchinhas carnavalescas e românticas; fez grandes amigos e escreveu sua história na música capixaba. E aos 80 anos, descobriu que música para ele é como oxigênio: se deixar de tocar, morre. “No dia em que não toco, não consigo dormir. Sinto falta. Sou como uma cigarra. Toco, toco, só paro quando estourar meu coração". Pode acreditar: um Mestre nunca diz inverdades.

Bucólicas manhãs de domingo

É como um toque mágico: o simples dedilhar de Mestre Flores no cavaquinho parece remeter Vitória a um passado distante. Como num flashback, a Praça Costa Pereira "veste-se" de tranqüilidade nas manhãs de domingo - o barulho dos carros é pequeno, as pessoas andam com menos pressa e é possível ouvir os passarinhos. O som macio dos instrumentos encharca o ambiente do bom chorinho, da seresta romântica e do samba de tradição. É engraçado como as pessoas, sentadas nos bancos, ficam atentas, quietas e, principalmente, reflexivas. O que pensam? Saudade, talvez.

Esse cenário de época é comandado por sete cavalheiros, todos aposentados do trabalho, mas ainda operários da música: Elias (violão de seis cordas), Loiola (violão de sete cordas), Ivo (sax-tenor) Luiz (bateria), Dilson (percussão), Elomar (crooner) e Mestre Flores. A eles se juntam coadjuvantes, que num karaoquê improvisado soltam a voz - esta nem sempre é afinada, mas conta com a "cumplicidade" de uma platéia respeitosa e paciente, em sua maioria de terceira idade. No repertório, Noel Rosa, Pixinguinha, Caymmi, Carlos Galhardo, Dalva de Oliveira e tantos outros.

Sabino José de Almeida, 68 anos, é um desses cantores anônimos. Com uma gaiola à mão, levando um coleiro também "cantor”. todos os domingos ele deixa o Bairro Itacibá, em Cariacica, e segue para o Centro. Seu forte é o samba de breque e o tango. E, sem desafinar, ele faz uma queixa: "Falta banheiro público aqui". Sabino e seu passarinho são alguns dos personagens desses ensolarados domingos de verão na Praça Costa Pereira.

NOSTALGIA - Mestre Flores explica que o seu regional dá oportunidade aos "velhos" cantores: "Não vai ser uma banda de jovens que vai permitir que eles cantem. Aqui damos a chance para que lembrem o passado". E é para lembrar desse passado que a dona-de-casa Firmina Gonzaga dos Santos, 72 anos, moradora da Rua Duque de Caxias, Centro, há meses freqüenta o local. "Não gosto de ficar em casa. Essa música me faz lembrar dos velhos tempos, que eram muito bons", diz, rindo e com simplicidade. E assim, entre nostalgia e saudosismo, as horas ali vão passando...

Para tocar na Costa Pereira, dentro do Projeto Artes na Praça, os componentes do regional recebem da Prefeitura de Vitória um cachê de um salário mínimo cada um, mensalmente. "Juntando com o dinheiro da aposentadoria e de algumas apresentações extras, dá pra viver", acrescenta Mestre Flores. Agora, quem não anda faturando muitos são os donos de barraquinhas de artesanatos, quitutes e guloseimas.

Os vendedores andam meio cabisbaixos com o fraco movimento de vendas. Por isso, o número de barraqueiros diminuiu nos últimos meses, com a maioria indo se abrigar na movimentada Praça dos Namorados, na Praia do Canto. O que acontece, aparentemente, é que os freqüentadores da Costa Pereira estão ali mesmo é para “degustar” da boa música, deixando para mais tarde os prazeres da gula, em casa.

Quando o sol fica no meio do céu, já é hora de “baixar o pano”. Os barraqueiros recolhem seus produtos e desarmam suas “tendas”. Os componentes do regional, silenciosamente, guardam seus instrumentos como se fossem cristais finos. E a platéia se retira. O teatro, então, parece que se apaga como num sonho. E com ele, leva o som do dedilhar de Mestre Flores. Até o próximo domingo...

 

Nota do site: O autor trabalhou como repórter do Caderno 2, de A Gazeta-ES, no período de 1990 à 1998, quando produziu várias matérias que recontam acontecimentos e registros da História do Espírito Santo. Muitas vezes em parceria do repórter fotográfico Gildo Loyola.


Fonte: Anjos e Diabos do Espírito Santo, 2004
Autor: José Carlos Mattedi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2016

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