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Dez anos depois – Por Paulo Torre

Capa do Livro: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1998 - Capa: Anderson Marques

Para esta geração que hoje ocupa os cargos de chefia nos jornais capixabas, O DIÁRIO representará sempre a lembrança de uma escola, onde as primeiras e elementares lições foram aprendidas, onde o cheiro de chumbo das velhas linotipos era muito mais estimulante que os inodoros papéis das modernas tecladoras.

Para gente, como eu, que estava descobrindo os dramas e as comédias do mundo naquele velho casarão que ainda hoje sedia O DIÁRIO, não haverá jamais recordação de trabalho tão marcante. Há dez anos eu pensava em jornal muito vagamente - apenas como um veículo para artigos sobre livros e filmes - mas O DIÁRIO se encarregou de me mostrar a realidade. Lançado como repórter policial para cobrir o assassinato do Major Orlando Cavalcanti, fiquei atordoado com a responsabilidade. Foca, levei furos estrondosos, enfrentei a má vontade de uns, contei com a simpatia de outros, mas tomei gosto pela busca da notícia, dia a dia.

Quando olho esta geração de hoje, paga em dia, com direitos trabalhistas assegurados e transporte na porta do jornal, acho graça. E nO DIÁRIO daquele tempo não havia isso. A condução, pelo menos no início, era por nossa conta. Éramos obrigados a trabalhar de graça por muito tempo até conquistar o crédito necessário para um vale minguado às sextas-feiras. Não havia carteira assinada nem horário determinado. Trabalhava-se de manhã, à tarde, à noite, a hora que fosse necessário.

Mas não escrevo para me queixar, apenas para mostrar aos mais jovens como era naquele tempo. Não tenho queixas de O DIÁRIO mas saudades. Não há como se esquecer das longas noites passadas na oficina, com as mãos sujas de tinta, a paginar os suplementos dominicais. Perdi boas noites de vinho pelo jornal, mas foi nele que aprendi que a profissão é dura, mas estimulante, frustrante, às vezes, mas emocionante.

Para quem tinha boa vontade e entusiasmo, O DIÁRIO ensinava um pouco de tudo - diagramação, fotografia, revisão - e foi lá que obtive essa "cultura geral” de jornalismo, esse treino exaustivo que me permite saber os segredos da profissão.

Foi lá que conheci os melhores jornalistas que estão hoje nas redações de Vitória, mais velhos, mais amargos talvez, mais restringidos pelas grandes empresas que os jornais se tornaram, mas ainda capazes de se entusiasmar por uma notícia.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: Paulo Torre
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2018

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