Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Garotos na redação – Por Rosental Calmon Alves

Primeira página da primeira edição dO Diário, julho 1955

Eu acabava de fazer 17 anos, já tivera uma experiência de jornalismo no Rio, como estagiário nO Jornal, e tinha resolvido mudar para Vitória. Quando cheguei, fui para uma república onde moravam o meu irmão, que era estudante de engenharia, o Gerson Camata e outras quatro pessoas. Como Camata acordava cedo para fazer um programa de rádio às 7 horas, nos primeiros dias eu comecei a ir com ele e me ofereci para trabalhar de graça. Fiquei um mês fazendo isso até que conheci o Rubinho Gomes num barbeiro que tinha na Praça Costa Pereira. Rubinho então falou para eu aparecer nO DIÁRIO. Eu andava com um gravador enorme. Era da época do pré-cassete, um Philips portátil com dois carretéis de fitas, com que andei fazendo umas gravações para a Rádio Vitória.

Entrei nO DIÁRIO de terno e gravata com o gravador na mão. Logo nesse primeiro dia encontrei o José Casado, muito desconfiado ao ver um outro garoto chegando. O Casado tinha 14 anos e eu 17. Isso foi no início de 1969. Comecei como repórter, o salário mínimo era de CR$ 150,00 e eles me pagavam CR$ 100,00 sem carteira de trabalho assinada e entregue em vales semanais. Mas antes disso eu já vendera uma matéria para o jornal. Foi uma entrevista que eu fiz no Rio com um diretor do Serviço de Proteção ao Índio. "O que há com os nossos índios". Este foi o título da matéria na primeira página do Caderno Dois. Rogério Medeiros - na época um dos diretores - pagou CR$ 10,00, que foi o primeiro dinheiro que ganhei como jornalista. Desci a Rua Sete amassando o dinheiro no bolso. Não era muito, pois eu tinha uma boa mesada. E pensava: vou guardar esta nota como lembrança do primeiro dinheiro que eu ganhei. Mas aí, passei no Britz e gastei. Depois passei a cobrir a Prefeitura. Um mês depois, em março, eles já me colocaram como chefe de reportagem, pauteiro etc., com o mesmo salário.

Éramos todos muito jovens. O DIÁRIO tinha descoberto uma maneira barata de fazer jornal com estagiários. Embora isso pareça uma coisa antipática, ao mesmo tempo tinha a faísca da renovação. Ele foi precursor do que veio a ser a Folha de São Paulo uns tempos depois, uma coisa meio de ditadura dos jovens.

Eu tinha feito no Rio um curso de jornalismo aos 16 anos de idade. Lia diariamente cinco jornais e, entre as matérias, descobri em 1968 que havia um curso da Associação Guanabarina de Imprensa. Me apresentei e, depois de muitas dificuldades por causa da idade, acabei fazendo o curso noturno durante seis meses. Passei a ter uma idéia teórica de jornalismo muito interessante, que eu não via no Espírito Santo.

Na mesma época em que O DIÁRIO puxava essa renovação, um trabalho muito mais consistente era o dA Tribuna, com o pessoal do Rio que tinha saído da Rua Sete para lá. A Gazeta era o jornal mais atrasado, embora fosse o maior. Tinha uma ênfase muito maior para a organização empresarial e para a distribuição do que para a redação.

Uma das melhores aventuras que eu vivi nO DIÁRIO foi quando chegou a notícia de que tinham visto um disco voador em Itapemirim. O Jakaré emprestou o Galaxie dele, o carro mais sofisticado da época, e um monte de gente embarcou. Foi uma festa, embora o tal disco não passasse de um balão metereológico. Acabei ficando lá porque a gente encontrou na rua o Carlos Imperial. Pedi uma entrevista e ele me convidou para ficar hospedado na casa dele porque estava dando uma festa que tinha entre os convidados o tricampeão mundial Tostão, saído de uma operação em Houston.

A minha saída é que não foi muito boa. Fui convidado para trabalhar nA Gazeta por CR$ 150,00 e carteira assinada, e aceitei. O Erildo dos Anjos ficou com raiva e brigou comigo. Ele gritava: "Você não pode usar mais o telefone, vai embora; você é um traidor." Era uma coisa passional, mas eu não fiquei com raiva. Anos depois, eu até recomendei o Erildo para ser o correspondente do Jornal do Brasil no Espírito Santo.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: Rosental Calmon Alves
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

Imprensa

Uma transformação difícil – Por Arlon José de Oliveira

Uma transformação difícil – Por Arlon José de Oliveira

Agora O DIÁRIO era dirigido por Plínio Marchini - um caráter independente e humano, em busca de uma independência e de um humanismo destituído da pieguice de então

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Um ateu no convento – Por Areovaldo Costa Oliveira

Fui encarregado de fazer a cobertura da Festa da Penha, mas não me informei a respeito do que escrever

Ver Artigo
Fé na gente, bairrismo neles – Por Marien Calixte

Uma sociedade sem hábitos culturais não tem como formar opinião. Uma sociedade sem opinião não está apta a formar sua própria cultura

Ver Artigo
Carlos Tourinho - Jornalismo Regional: Mudanças à vista, 1996

A vida do jornalista é cercada por “sirenes”. Em vários sentidos, em diferentes configurações

Ver Artigo
A guerra do sete dias – Por José Costa

Viajei num raio ao passado e desci no jornal 7 Dias, onde conheci o estoicismo, cada edição era uma história, um desafio, uma prova de obstáculos

Ver Artigo
Seis meses sem escrever – Por Milson Henriques

NO DIÁRIO eu fui desenhista, crítico de rádio e TV, e levei o Jornaleco pra lá

Ver Artigo