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E assim se deu a luz em Vila Velha (30/07/1910) – Por Dijairo Gonçalves Lima

Contra Capa do Livro - Autor: Dijairo Gonçalves Lima

30 DE JULHO de 1910. A cidade amanhece alegre, banhada por um sol brilhante. É inverno. Em Vila Velha, nessa época do ano, as manhãs são agradáveis, mas as noites pedem agasalhos, principalmente quando sopra o Sudeste, um vento frio que faz doer os ossos. Quando o tempo está para mudar é comum as pessoas com problemas reumáticos ou cicatrizes recentes sentirem fisgadas no corpo, dores que prenunciam a chegada do Vento Sul, como popularmente é chamado. Quando ele chega o mar se agita, espraia com furor as suas vagas sobre a areia ou remete com ímpeto as suas águas espumantes que gorgolejam entre as fendas da penedia. Quando no silêncio da noite ouve-se um uivo longo e triste é o Vento Sul açoitando as ramagens ou penetrando entre as frinchas das portas e janelas. Felizmente, naquele sábado memorável para os vila-velhenses não soprava o Vento Sul. As pessoas saíam às ruas com um sorriso nos lábios e uma esperança no olhar. Cumprimentavam-se e faziam comentários sobre o acontecimento que iria acrescentar mais um capítulo à história de Vila Velha.

A partir de agora os candeeiros a querosene, nos postes das ruas, passariam a ser peças de museu. A luz mortiça dos lampiões mal iluminava a distância de alguns passos ao redor dos postes. Por medida de economia não eram acesos nas noites de lua cheia mesmo que o plenilúnio estivesse prejudicado por negras nuvens ou por contínuas chuvas. Não se levava em consideração se o tempo era ou não chuvoso. Simplesmente obedecia-se às fases da lua. Se a "folhinha" na parede marcava lua cheia, nessa noite os lampiões das ruas ficavam apagados.

Agora, porém, a cidade se modernizava. Emergia de um passado nebuloso para entrar na era da luz elétrica. Era natural, portanto, que seus habitantes estivessem alegres, mal podendo esperar a chegada da noite.

Não fazia muito tempo. Havia dez meses Vitória inaugurara com festas sua iluminação elétrica pública. Por isso, a população vila-velhense estava ansiosa para sentir o bafejo do progresso, sair também da escuridão. Não era para menos. Por mais de três séculos Vila Velha se debatia quase agonizante na longa noite de esquecimento que sobre ela caiu a partir do momento em que deixou de ser o centro administrativo da Capitania. Transferido o núcleo da administração para a ilha de Duarte Lemos, a Vila do Espírito Santo ficou abandonada e cada vez mais empobrecida.

Apesar do abandono a que ficou relegada, a Vila do Espírito Santo, agora mais conhecida por Vila Velha, não perdeu o seu fascínio. O dom de cativar todos aqueles que a visitavam se sobrepôs ao tempo e varou os séculos.

Em 1561, ao falecer Vasco Fernandes Coutinho, o governo da Capitania já estava instalado em Vitória. No entanto, seu sepultamento ocorreu em Vila Velha. É possível até que, por motivos sentimentais, o primeiro donatário tenha pedido para ser enterrado na vila primitiva, lugar onde deu os primeiros passos de desbravador, onde se deixou extasiar pela exuberância de sua beleza selvagem e onde tantas vezes acalentou o sonho de um dia tornar-se rico com a exploração das terras que lhe doara D. João III.

Não obstante a pobreza a que ficou reduzida, Vila Velha continuava a ser um povoado simpático e a exercer sobre os moradores remanescentes ou os seus visitantes uma bucólica atração.

Quando em 1818 o famoso botânico francês, Auguste de Saint-Hilaire, visitou o Espírito Santo, caiu de amores por Vila Velha. Não passava de um "aldeamento formado quase exclusivamente de cabanas semi-arruinadas", (1) um humilde povoado de pobres pescadores com umas quarenta casas, no máximo, a maioria coberta de palha. (2) O abandono e a pobreza de Vila do Espírito Santo eram tão grandes que nem sequer uma escola possuía. Esta situação fez com que a Câmara da vila, em outubro do mesmo ano, solicitasse ao governador Rubim o envio de um mestre para o ensino das primeiras letras aos filhos do lugar. Mesmo assim, o naturalista europeu chamou-a carinhosamente de uma aldeia cativante. (3) Talvez, para Saint-Hilaire, o cheiro selvático da mata, o perfume agreste das lianas, as ondas deitando sua alva espuma contra os fraguedos ou se estirando preguiçosamente sobre as areias das praias, compensassem a pobreza da aldeia contemplada de cima da colina pelo Santuário da Penha.

Quarenta e dois anos depois, ao receber a visita de D. Pedro juntamente com a imperatriz Tereza Cristina e comitiva, a vila continuava em decadência, situação que não passou despercebida ao monarca. Apesar disso, o imperador viu com simpatia o lugar, tendo escrito em seu caderninho de anotações que Vila Velha era uma "várzea excelente para uma cidade". (4) De forma sutil, Pedro II quis se referir ao fato de que a Capital da Província estava construída em local errado.

No mesmo sentido, Silvestre Cirne da Veiga, capitão-mor da Capitania do Espírito Santo, em carta enviada a D. João V, em 10 de agosto de 1736, reportando-se a Vila Velha escreveu: "...quando se passa a barca, à mão esquerda, na terra firme fica a vila do Espírito Santo que não chega a trinta moradores, todos pobríssimos, sendo a melhor que tem toda esta Capitania para ser uma grande cidade..." (4a) Desse modo, previu o capitão-mor o futuro da mais antiga cidade do Espírito Santo.

Somente agora, passados mais de três séculos e meio, desde a transferência do governo da Capitania para Vitória, a cidade começa a dar os primeiros passos em busca do progresso.

Seu aglomerado urbano, na direção norte-sul, restringia-se à área existente entre a Prainha e a residência do doutor Antônio Ferreira Coelho. (5) No mesmo sentido ficavam as ruas do Areal, (6) Municipal, (7) Luíza Grinalda, (8) Padre Carneiro, (9) do Sacramento (10) e São Bento. (11) Na direção leste-oeste ficavam as ruas 23 de Maio, Vasco Coutinho, Coronel Mascarenhas, Pedro Palácios, Capitão Freitas (12) e Frei João N. Valadares. (13) A maioria delas era estreita, variando entre cinco e seis metros de largura.

Com exceção da rua do Areal, as demais eram de terra batida e bem tratadas. Quase todas as casas ficavam no alinhamento dos logradouros e as mais antigas guardavam o estilo colonial. A rua Luíza Grinalda, mais conhecida por rua do Torrão, uma das mais antigas da cidade, conservava o velho casario oriundo de um passado remoto. Em seus quintais, divididos por cercas de ripas, árvores frutíferas formavam vicejantes pomares.

Em várias ruas, muitas das casas eram cobertas por folhas de zinco. À noite, principalmente quando chovia, transformavam-se em ninhos acolhedores. O sussurro da chuva fraca caindo sobre as folhas de zinco era um convite ao sono, amparado pelo aconchego das roupas de cama mesmo que fossem simples e pobres.

Em outros logradouros, que tinham habitações mais recentes, as casas eram construídas num estilo mais moderno e algumas delas, com dois andares, abrigavam famílias de prósperos comerciantes. Graciosos bangalôs surgiam aqui e ali, servindo de residências para famílias de porte médio. Muros de alvenaria começavam a substituir cercas de madeira cortada em ripas. Tudo, entretanto, era muito singelo e ao mesmo tempo muito atraente.

Nada perturbava o sono reparador daqueles que repousavam após um dia de trabalho. Somente de vez em quando irrompia ao longe, em meio ao silêncio da noite, a melodia acariciante de uma seresta. Quase sempre a suavidade de uma flauta, acompanhada de um violão boêmio, docemente despertava as pessoas que, em seguida, voltavam a adormecer embaladas pela canção que se perdia na amplidão da noite.

No encantamento de sua singeleza a cidade do Espírito Santo, em 1910, era uma perene fonte de inspiração para os poetas, assim como as suas manhãs ensolaradas e as suas tardes de arrebol criavam a paisagem bucólica digna do pincel de Fânzeres ou de Massena.

Quem saía do centro da cidade e seguia algumas trilhas por entre capoeiras chegava a Maxambomba, (14) bairro muito pobre com rústicas casinhas cobertas de palha.

Mais adiante ficavam os sítios do Buri (15) e do Celamim, (16) este com uma pequena elevação e a maior parte de sua área constituída de terrenos alagadiços.

Nos ex-bairros Maxambomba e Celamim, entre as ruas Araribóia e Coronel Sodré, ainda existe o cemitério cujo muro primitivo, com frente para a Coronel Sodré, tinha no alto do portão de ferro registrado o ano de 1892. O muro foi parcialmente demolido para situar a velha necrópole no alinhamento da rua. (17)

O que sobrava era coberto por vegetação própria de restinga onde abundavam frutos silvestres como pitangas, araçás, mupês, cajus, murtas da praia e guabirobas. Alguns casebres se perdiam na distância embrenhados no matagal ou nas proximidades de lagoas insalubres, de águas verdoengas. No entanto, o cenário no qual se concentrava a maioria dos habitantes era fascinante pela quietude dos dias, que ali pareciam intermináveis. O odor das lianas e o aroma selvagem de árvores seculares que engalanavam a colina em cujo topo foi construída a solitária ermida misturavam-se com o cheiro do mar.

Uma brisa acariciante invadia. mansamente as ruas desta acolhedora cidade.

Na frente da igreja do Rosário estendia-se uma praça (18) que terminava na areia onde a Prainha, no vaivém constante de suas águas, quase sempre cobertas de algas esverdeadas, espreguiçava suas pequeninas ondas. Nas laterais do Largo da Matriz, atapetadas por um gramado sobre chão arenoso, ficavam casas em sua maioria de platibandas, algumas assobradadas, sombreadas na frente por frondosas castanheiras.

Diante da igreja, a uma distância aproximada de cinqüenta metros, estava o chafariz com água encanada da fonte de Inhoá. O Largo da Matriz era mais belo e alegre nos dias banhados de sol, com a criançada em divertidos folguedos e os pescadores com cestas na cabeça e em passos apressados, chegando de porta em porta para vender peixes e mariscos.

Atrás da igreja do Rosário ainda existiam restos do primitivo cemitério da cidade, desativado há muito tempo. Também desse lado havia um largo (19) com frondosa e velha castanheira em cuja sombra madornavam cansados anciãos e os desocupados faziam a sua sesta nos dias de calor intenso.

No sentido oposto, enorme pequiá ainda vivia seus dias de glória, único remanescente, talvez, da mata que em passado longínquo dominava a área desbravada pelo machado do colono pioneiro.

Visto de cima do Convento, até onde os olhos podiam alcançar, um panorama de matizes esmeraldinos abria-se diante de todos que contemplavam a cidade: várzea imensa ornamentada de virgens campinas e de uma vegetação luxuriante e bela. Este mesmo quadro sensibilizara o imperador Pedro II quando, do alto da Penha, viu descortinar-se diante dele o soberbo cenário na bonita manhã de um ensolarado dia de janeiro de 1860.

A cidade, quase sempre tão sonolenta nos dias comuns, naquele sábado, entretanto, regurgitava de vida. O assunto luz elétrica era comentado por todos. Os vizinhos conversavam por cima das cercas divisórias dos quintais. Nas quitandas, nos botequins e nos armazéns de secos e molhados o assunto era sempre o mesmo. Inúmeras casas, principalmente as das pessoas com maiores recursos financeiros, já estavam com suas instalações concluídas. Pouquíssimas famílias encomendaram lustres para as salas de visitas. A maioria, porém, sem condições financeiras, contentava-se com enfeites coloridos de papel crepom, em forma de arcos, adaptados aos pendentes das lâmpadas.

Meses antes, o trabalho de desembarcar da barcaça os postes de madeira e os rolos de fio era motivo de aglomeração dos curiosos no cais da Prainha. Logo a notícia se espalhava e os comentários tomavam corpo nos bares, nas portas das quitandas, no interior dos armazéns de secos e molhados ou nas esquinas das ruas. Muitos ainda tinham dúvida e só acreditavam depois que iam ao local onde o material era empilhado.

— Agora, sim, Vila Velha vai crescer, — diziam alguns, antevendo o progresso da cidade.

Outros, porém, mais idosos, não viam com bons olhos a chegada da luz elétrica. Receavam que o progresso pudesse atrair pessoas nocivas que colocariam em risco o sossego da cidade.

Assim que os operários fincavam os primeiros postes nas ruas e estendiam os fios sob a orientação de um engenheiro, algumas pessoas, movidas por curiosidade, aproximavam-se dos trabalhadores para ver de perto a execução do serviço e dar palpites quando podiam. Humildes mulheres arrastavam seus filhos para longe do local em que os fios eram espichados, temerosas de que as crianças fossem vítimas de choques elétricos.

— Não há qualquer perigo. A rede ainda não está ligada a Vitória, — informavam os mais esclarecidos.

— Num sei não! Me disseram que é muito perigoso. Além do que, criança não deve ficar perto de gente grande que está trabalhando.

Em Vitória, algumas pessoas espantavam-se ao ver um cabo de aço estendido entre o Morro Forte São João e o alto do Penedo, passando sobre o mar. Não sabiam que era um cabo de sustentação dos fios que levariam a luz para Vila Velha.

Para muitos a luz elétrica não representava novidade, pois já haviam tido a oportunidade de ver Vitória iluminada. Vários moradores de Vila Velha trabalhavam na Capital e só à noite retornavam a casa nas lanchas a vapor Carlos Alberto, (20) Luíza e Santa Cruz. Faziam o transporte de pessoas e cargas, entre a ilha e o continente. O importante, entretanto, era o conforto que o novo e moderno sistema de iluminação ia proporcionar ao povo.

Nesse sábado de inverno, nas portas dos empórios e dos botequins, pessoas questionavam:

— Por que a solenidade de inauguração da luz elétrica vai ser na casa do coronel Mascarenhas e não na sede do governo municipal?

— É que a sede, além de pequena, não está em bom estado de conservação. A casa do coronel é grande e bonita, — dizia alguém.

Outros, porém retrucavam: Se era por tamanho e beleza então a solenidade devia ser realizada na Chácara dos Quintela, que tinha enorme e luxuosa casa. Por sinal, são amigos do presidente Jerônimo Monteiro.

Algumas poucas pessoas, principalmente as mais humildes, não se conformavam com o fato de a solenidade ser realizada na casa do coronel Mascarenhas.

— Se a sede da Municipalidade é pequena e mal conservada, —opinavam outros, — neste caso a inauguração devia ser realizada na praça da matriz.

— Sim, porque a praça é o lugar do povo e a luz elétrica pública está vindo para o povo e não somente para os ricos, — protestava alguém mais exaltado.

— O que podemos imaginar é que a decisão de escolher a residência do coronel Joaquim da Cunha Vieira Mascarenhas com certeza é de natureza política. E eu acho ser isso de inteira justiça. É uma forma de prestigiar a veneranda pessoa do coronel, decano dos políticos de Vila Velha, uma das nossas reservas morais que hoje está na presidência da Corporação que governa esta cidade. — Essa foi a justificativa apresentada por um ancião com cachimbo de barro preso entre os dentes escurecidos. Talvez antigo e fiel correligionário do coronel.

Veio rápida a resposta de um opositor:

— A meu ver, a justificativa é esfarrapada. Estou com quem afirmou que o ato de inauguração devia ser em praça pública. É nela que se reúne o povo. Do mais pobre ao mais rico. Sem discriminações. Além disso, a iluminação elétrica que hoje vai chegar é fruto do prestígio de outra pessoa.

— Estou de acordo, — disse alguém. — E tem mais. O espaço exíguo da sede da Administração e seu sofrível estado de conservação são meras desculpas para que o ato solene da inauguração da luz não seja ali realizado. O que está havendo certamente é o claro propósito de se homenagear o coronel.

No início da tarde as pessoas começavam a se aproximar da casa do coronel, entre elas as de maior influência política e social. Lá estavam todos os governadores municipais e membros de famílias importantes, tais como os Barcelos, Freitas, Xavier, Coelho, Queiroz, Duarte, Santos, Rodrigues, Ramires, Caldeira, Coutinho, Miranda, Aguiar, Mascarenhas, Serrano, Nunes, Adnet, Vereza, Araújo, Fraga (22) e muitas outras também de expressiva tradição. Pouco depois chegavam o capitão-tenente Maurício Pirajá, comandante da Escola de Aprendizes Marinheiros (23) e o cônego João Maria Cochard, capelão do Convento da Penha. (34)

A família Quintela, de grande prestígio social, não estava alheia ao evento e por isso marcava presença na casa do coronel. Diomedes Quintela e sua mulher Lavínia cumprimentavam e recebiam cumprimentos. Diógenes, irmão de Diomedes, incansável pesquisador da história de Vila Velha, sempre elegantemente vestido e bem humorado, abraçava a todos sem levar em conta a classe ou a condição social de quem quer que fosse.

A ampla sala da casa do coronel estava bem arrumada. Alva toalha de renda estava estendida sobre a mesa, ornamentada também com dois vasos brancos de porcelana que continham lindas e perfumadas rosas vermelhas e amarelas. Tudo feito com muito carinho por determinação de dona Emília Tesch Mascarenhas, dedicada esposa do coronel. Afinal de contas havia muito tempo que não acontecia nada de tamanha magnitude na cidade.

Mas algo não combinava com a ornamentação do ambiente. Quatro lampiões antigos e de mangas esfumaçadas continuavam na sala. Tudo fazia crer que a pessoa encarregada da arrumação esquecera-se de retirá-los das correntes que os prendiam ao teto ou os deixara ali de propósito para que fossem acesos caso as lâmpadas à noite não funcionassem. Pelo visto, tinha-se a impressão de que alguns ainda tinham dúvidas de que, naquela noite, a cidade ficaria iluminada por lâmpadas incandescentes.

Na verdade o detalhe não chegava a ofuscar a aparência festiva, pois o importante era a alegria que a todos dominava. Ninguém dava muita importância ao fato, visto que nenhum comentário era feito sobre os feios e agora ultrapassados candeeiros presos ao teto da casa do coronel Mascarenhas.

Enquanto aguardavam a chegada do presidente do Estado e comitiva, todos conversavam animadamente.

— Coitados, já trabalharam tanto! Acredito que a partir de agora lampiões passam a ser peças de museu aqui em Vila Velha.

A observação partia de Cleto Amorim, secretário da Câmara, amigo de Diógenes e assíduo freqüentador da Chácara.

— Penso que não, — respondeu Diógenes. — Ainda por vários anos continuarão a iluminar muitas casas. Poucas são as pessoas que têm condições de instalar redes elétricas em suas casas. A maioria vai continuar no escuro por muito tempo, respirando a fuligem de suas lamparinas fumarentas. Infelizmente o progresso custa caro e por isso não são todos que podem saboreá-lo.

— Pelo menos a iluminação das ruas vai beneficiar a todos, — redargüiu o outro sem esconder o entusiasmo.

— Sim, quanto a isso não resta a menor dúvida. Mas...

Ao fazer ligeira pausa para em seguida dar continuidade ao assunto, doutor Quintela se viu interrompido pela aproximação do padre Vidigal de Almeida, pároco da cidade, que aos dois estendeu a mão. E com um largo sorriso:

— Meus prezados, como é bom ver as pessoas tão alegres reunidas em ocasiões festivas como esta. E vocês, como estão?

O morador da Chácara retribuiu a saudação apertando a mão do pároco. Quando Cleto tentava beijar a mão do padre, este, delicadamente, puxou o braço.

— Sou seu confessor, meu rapaz, mas acima de tudo sou seu amigo. Vamos deixar o beija-mão para o senhor bispo diocesano. — E, voltando para Diógenes: — Então, nossas reuniões na Chácara, sempre regadas com os inigualáveis refrescos de Januária, quando entrarem pela noite serão agora realizadas em sala bem iluminada, sem cheiro de querosene queimado e sem o risco das luzes se apagarem com o sopro do vento. Não é isso?

— É verdade. Tenho certeza que doravante a Chácara será mais animada. E tem mais. Quando a conversa não agradar a algumas pessoas, será fácil observarmos quem estiver cochilando.

 A observação provocou riso entre os três.

— Quando vai ser inaugurada a luz elétrica do Convento? — perguntou Cleto, procurando puxar uma conversa que agradasse ao sacerdote.

— O serviço de extensão da rede já foi iniciado. Me disse o cônego Cochard que em pouco mais de um mês, talvez dois, não só o Convento, mas também a ladeira estará iluminada. (25)

A partir do instante em que o Convento recebesse o benefício da iluminação elétrica, argumentava Diógenes, as novenas que antecediam a Festa da Penha poderiam ser celebradas à noite. A ladeira de pedras, tão íngreme e sempre tão escorregadia, principalmente quando chovia, na verdade não ajudava em nada aos romeiros. Para completar o desenvolvimento, seria importante a abertura de uma estrada de terra até o Campinho. Tal empreendimento, com certeza, iria aumentar o número de romeiros, que já vinha crescendo de ano para ano, apesar do desconforto da subida.

O sacerdote meneou a cabeça como a concordar com as palavras do interlocutor, mas em tom submisso a uma determinação superior revelou:

— É! Seria muito bom. Esta sugestão já foi apreciada em reunião no Bispado, mas D. Fernando, (26) dando o assunto por encerrado, concluiu não ser o Convento lugar para passeios e quem quiser visitar Nossa Senhora deve ter muita fé para submeter-se ao "sacrifício da escalada". Portanto, o projeto da estrada morreu no embrião. (27)

Nesse instante o coronel Mascarenhas deles se aproximou e pediu que, juntamente com as autoridades municipais e pessoas da sociedade vila-velhense, se dirigissem até o Cais da Prainha para receberem o presidente Jerônimo Monteiro e comitiva, que chegariam de lancha. Saíram todos, deixando a casa praticamente vazia.

Centenas de pessoas aplaudiram o presidente e seus ilustres acompanhantes na hora do desembarque. Autoridades locais mantinham-se um pouco distantes para facilitar o desembarque. Além de auxiliares do primeiro escalão do governo e de alguns deputados estaduais, participavam da comitiva o doutor Júlio Leite, presidente do Congresso Legislativo Estadual; doutor Augusto Serrano, presidente da Corte de Justiça; (28) e o coronel Joaquim Lírio, presidente do Conselho Municipal de Vitória.

O presidente Jerônimo Monteiro trajava calça e casaco pretos, sapatos da mesma cor, colete branco, gravata borboleta preta e negro chapéu de coco. Exibia por detrás de basto bigode um franco sorriso. Seus olhos claros possuíam uma vivacidade penetrante, embora em torno deles lívidas manchas denunciassem a presença de olheiras que se acentuavam no final do dia. Isso era, sem dúvida, o resultado de um labor intenso com sacrifício do seu bem-estar pessoal. Pouco tempo lhe sobrava para dormir.

Na plenitude dos seus quarenta anos governava um Estado onde tudo estava por ser feito, a começar pela Capital. Vitória conservava nítidos aspectos dos tempos coloniais.

Quando conversava ou quando determinava providências administrativas, o presidente costumava esfregar as mãos, sinal característico de quem tinha pressa, de quem não tinha tempo a perder e ainda teria muito para realizar. Na verdade, um homem determinado e consciente do grande papel que lhe estava reservado na História do Espírito Santo.

Ao se dirigir em primeiro lugar ao coronel Mascarenhas, presidente em exercício da Corporação que administrava Vila Velha, deste recebeu efusivo abraço, trêmulo de emoção e de reconhecimento. Em seguida, o primeiro mandatário do Estado fez questão de cumprimentar, um a um, os demais membros da Corporação. Acenou para o povo e recebeu caloroso aplauso. Uma salva de prolongadas palmas demonstrou o agradecimento dos vila-velhenses ao único homem que no governo do Estado lembrou-se da tão esquecida cidade em cuja gleba teve início a colonização do Espírito Santo. Do meio da multidão, já agora formada entre o cais e o portão do Convento, bradava alguém com emoção:

— Viva o doutor Jerônimo Monteiro!

E a multidão em coro repetia: Viva!

Aumentou o estrépito dos foguetes a ponto de deixar as pessoas quase surdas. Enquanto isso, com o chapéu na mão, o presidente acenava para o povo.

Durante a caminhada recebia palmas e vivas das pessoas postadas na frente das casas. No decorrer do trajeto procurou achar alguém entre aqueles que o acompanhavam. Sem demora, viu a pessoa por ele procurada comprimida entre os demais. Sorridente, Jerônimo recebeu o amigo e se abraçaram fraternalmente.

— Então, Diógenes, está feliz com a vinda da luz elétrica?

— Muito feliz, Excelência. Apesar de não ter nascido aqui, participo das mesmas alegrias e tristezas dos vila-velhenses, pois esta Cidade adotou-me como filho. — E, em tom mais baixo para não ser ouvido pelos que estavam próximos: — Obrigado, Jerônimo. Muito obrigado.

O agradecimento de Diógenes, embora manifestado em baixa voz, foi ouvido por alguns governadores circunstantes, os quais se entreolharam de modo significativo. Aliás, comentava-se na cidade, principalmente entre os moradores mais antigos, calejados e decepcionados com as promessas de políticos, que a luz elétrica só estava chegando graças à influência do doutor Diógenes, amigo pessoal do presidente Monteiro.

— Sem dúvida, meu amigo, por suas tradições esta cidade merece nossa admiração e respeito. Eu também a prezo e muito.

Após alguns passos em silêncio:

— Quando, finalmente, meu caro, irá aceitar o convite que lhe fiz para trabalhar no meu governo? Desde o dia 23 de maio de 1908, dia da minha posse, portanto, há mais de dois anos, você desconversa e promete pensar no assunto.

Ao lado do presidente o magistrado Ferreira Coelho interferiu ao dizer:

— Será uma ótima aquisição para o governo de V. Exa. Pois o nosso prezado Diógenes, além de bom pesquisador da história do Espírito Santo, possui cultura suficiente para participar da administração do Estado, principalmente na área da instrução pública.

— Não é tanto assim, presidente. O excesso vai por conta da bondade do nosso ilustre magistrado.

— Não, eu sei que não é exagero, — respondeu doutor Jerônimo. Eu conheço o seu valor. Aliás, nós nos conhecemos há muito tempo. Lembra-se, Diógenes, dos tempos do Caraça e do Itu?

Em público, ou na presença de pessoas estranhas, Diógenes Quintela dispensava ao doutor Jerônimo um tratamento protocolar: "senhor presidente", "doutor", "vossa excelência" etc. Fora dessa situação, dirigia-se ao primeiro mandatário do Estado com intimidade, chamando-o de "você", embora sem se descuidar do respeito que o velho amigo sempre lhe mereceu.

Conheceram-se quando garotos no Colégio do Caraça, em Minas Gerais, Diógenes com quatorze anos e Jerônimo com quinze. A solidão angustiante das montanhas geladas e o excessivo rigor dos padres lazaristas infundiram nos dois meninos um sentimento de abandono e de desespero. Três irmãos da família Souza Monteiro estudavam no mesmo colégio, mas Diógenes lá estava sozinho, tendo apenas por amigo o menino Jerônimo. O futuro presidente do Estado ficou somente um ano no Caraça, ao passo que o amigo continuou amargando a quietude e a solidão das montanhas sem outra coisa a fazer senão estudar. Após dois anos, ele estava novamente na casa dos pais, na Província do Espírito Santo, de onde saiu, depois de um ano, para continuar os estudos. Por coincidência, outra vez os dois se viram juntos, matriculados no Colégio São Luís, em Itu, São Paulo. A disciplina rigorosa dos padres jesuítas não conseguiu dobrar a rebeldia anticlerical do jovem Diógenes Quintela que, dois anos depois, despedia-se do conterrâneo e retornava à casa paterna.

Aos vinte e três anos, com o objetivo de recuperar o tempo perdido, de retomar os estudos que havia abandonado, seguiu para o Rio de Janeiro. Formou-se em Direito mas não chegou a exercer a profissão. Militou na imprensa carioca e passou a conviver com intelectuais. Nunca se interessou pela política. Atormentado por tristes recordações, entregou-se à boemia e não cuidou da saúde, circunstância que, a contragosto, forçou sua vinda para Vila Velha, trazido por Diomedes, seu único irmão. Aqui chegou com trinta e quatro anos.

Durante três anos, um no Caraça e dois em Itu, Diógenes e Jerônimo estudaram juntos. Nasceu entre ambos uma amizade que permaneceu não obstante o longo tempo em que deixaram de se ver. Nos anos posteriores encontraram-se várias vezes no Rio de Janeiro quando Jerônimo, no período de 1897 a 1900, exercia o mandato de deputado federal e, depois disso, quando este se dirigia à Capital do país, a serviço, no exercício de suas atividades advocatícias. Sempre que possível estavam juntos e, em 1907, a aproximação tornou-se mais freqüente devido à campanha política para a presidência do Estado.

Respondendo a uma pergunta do presidente sobre o tempo em que estudaram juntos nos mesmos colégios, disse Quintela com um sorriso:

— Sim, lembro-me bem. Mas, apesar da boa aprendizagem, de minha parte não tenho certeza se recordo com saudades aqueles tempos devido ao relacionamento não muito amistoso que tinha com os mestres.

Segurando o braço do amigo, Jerônimo aproximou-se do seu ouvido e, como se fosse segredar-lhe alguma coisa, murmurou:

— Nunca pretendi e não pretendo forçar você a nada. Mas sua colaboração, em qualquer época, será muito útil não só para o meu governo, mas para todo o Estado. Quando resolver, avise-me.

De repente, chegaram ao local onde seria realizada a solenidade.

Na rua os esforçados músicos da Lira 23 de Maio, regida pelo maestro Osório, tocavam entusiasmados e arrancavam aplausos dos que se concentravam na frente da residência do coronel Mascarenhas. Irrompe, em seguida, o Hino Nacional, que a "furiosa" ensaiara diariamente, por mais de um mês, especialmente para essa ocasião.

Em silêncio, com a mão direita sobre o coração, todos, inclusive o presidente, assim ficaram até o final do hino. (29) O entusiasmo do maestro Osório era tão grande que a batuta tremia em sua mão. Em determinado momento quase deixou que ela caísse ao chão. Foi um delírio. O povo aplaudia com palmas e com gritos.

Antes de entrar na casa do coronel, Jerônimo Monteiro esperou até que o chefe da Municipalidade se postasse ao seu lado. Logo depois ambos entraram, acompanhados do presidente do Congresso Legislativo, do presidente da Corte de Justiça, do presidente do Conselho Municipal de Vitória, representantes da Igreja, deputados estaduais, governadores municipais e várias pessoas pertencentes a tradicionais famílias da cidade. Apesar de ampla, a sala era pequena para ali caberem todos aqueles que desejavam entrar. Por isso a multidão comprimia-se lá fora, esperando ouvir o que se falaria no interior da casa. Mas era ainda muito intenso o espocar dos foguetes e devido a isso muitos na rua reclamavam e pediam que se soltassem os rojões no final da solenidade.

Ao sentar na cabeceira da mesa, o presidente Monteiro declarou aberta a solenidade e, a seguir, concedeu ao presidente em exercício do governo municipal o privilégio de apertar um interruptor instalado na sala de maneira a ser inaugurada a iluminação elétrica da cidade. Para não fugir a uma rotina introduzida por Jerônimo Monteiro nas inaugurações do seu governo, o coronel agradeceu e transferiu a honrosa incumbência ao presidente do Congresso Legislativo Estadual. Depois de ligado pelo doutor Júlio Leite, com ligeiro toque, o interruptor, as lâmpadas da sala foram acesas ao mesmo tempo em que estrugiram as palmas dos presentes com gritos e vivas.

Na rua as pessoas confraternizavam e alguém ateava fogo ao pavio das girândolas. Embora as lâmpadas dos postes fossem acesas somente à noite, alguns vila-velhenses de origem humilde, antigos moradores do lugar, derramavam lágrimas de contentamento. Era uma festa. A Lira 23 de Maio não parava de tocar.

Celebrando o acontecimento discursaram, enaltecendo o presidente do Estado, o doutor Júlio Leite, o doutor Antônio Ataíde, (30) o doutor Augusto Serrano e o senhor Dario Araújo.

Seguindo um costume adotado no Conselho para ocasiões solenes, o coronel Mascarenhas designou o governador municipal, Francisco Chagas, para em nome do povo de Vila Velha agradecer o grande melhoramento público oferecido à cidade.

Francisco adorava fazer discursos, principalmente em circunstâncias como aquela. De todos os representantes da Corporação que administrava a cidade, ele era o mais inspirado e eloqüente. Era de palavra fácil, embora às vezes atropelasse a gramática, e de um bairrismo exagerado, pois não permitia que na sua frente se apontassem defeitos a Vila Velha.

Quando falava ou ouvia falar do passado histórico da cidade, dos colonizadores, dos pioneiros que de machado em punho derrubavam árvores que se transformavam em seus primeiros abrigos, das lutas para manterem a conquista da terra, da construção da igreja do Rosário e do Convento da Penha, Chico não conseguia conter a emoção nem às vezes as lágrimas. Assíduo freqüentador das reuniões na Chácara e da biblioteca de Diógenes, quem quisesse privar de sua amizade bastava elogiar Vila Velha, falando da beleza de suas praias ou do encanto de suas noites enluaradas. Ele não se conformava com o fato de Vitória ser a Capital do Estado. Costumava dizer que era uma ilha de formação rochosa, cheia de morros que não permitiam a expansão da cidade. Torcia o nariz em sinal de menosprezo quando se referia à estrutura colonial de Vitória, com suas ruas estreitas e enladeiradas, becos tortuosos, enfim, desconfortável e feia, conforme dizia.

O bairrismo radical de Francisco Chagas encontrava adeptos em muitos vila-velhenses, pois havia séculos que existia tal rivalidade. Chegou a ser mencionada por Anchieta quando, em seu Auto da Visitação de Santa Isabel, fez referência às rixas existentes entre os moradores de Vitória e de Vila Velha.

Não cansava de dizer que sua cidade, em razão das excelentes condições topográficas que possuía, reunia todos os requisitos para ser a capital do Estado. E quando falava sobre isso os seus olhos faiscavam ou refletiam um brilho diferente. Seus lábios tremiam e seu pensamento transcendia os limites do tempo, navegando em direção do futuro. Ao seu redor os amigos sorriam incrédulos e indiferentes às divagações consideradas utópicas do governador municipal. Ele sonhava com uma cidade profusamente iluminada com lâmpadas elétricas, ruas amplas e arejadas, longas e largas avenidas calçadas e arborizadas. De tanto falar do futuro e dos belos jardins públicos que um dia enfeitariam a cidade dos seus sonhos, que por certo se expandiria para as bandas do Jucu, apanhou o apelido de Chico Avenida.

Possuía vasto círculo de amizades e era sempre admirado por muitos, principalmente pelos mais humildes, que aplaudiam sua facúndia sempre tão inflamada. Diante dele, poucos falavam do seu apelido a não ser os mais íntimos. Mesmo assim, não usavam a alcunha no sentido pejorativo. Pelo contrário, com muito carinho era recebido e cumprimentado onde chegava. Afinal, tratava-se de um homem que tinha verdadeira veneração pela terra natal. Brigava ou até morria por ela, se necessário.

Tinha estatura mediana, tez morena, cabelos lisos e negros. Os olhos, rasgados e ligeiramente acanhados, demonstravam correr em suas veias o sangue de um antepassado índio. Seu tipo físico tinha a característica do homem nervoso. Era magro, de andar apressado e de decisões algumas vezes impensadas. Solteiro ainda, aos trinta e cinco anos, costumava dizer: "Quando me casar, minha mulher deverá ser uma conterrânea." Agora, porém, não pensava em casamento porque uma esposa sempre prende um homem em casa e ele não podia deixar de comparecer às reuniões da Chácara nem muito menos aos encontros políticos, que se realizavam quase sempre à noite.

Servia com a maior alegria à comunidade vila-velhense, sem auferir um níquel sequer, mesmo porque a Constituição do Estado não permitia remuneração ao representante do Poder Legislativo Municipal. Seus meios de subsistência originavam-se do emprego que tinha nos Correios. Quando a situação financeira não estava muito boa para o seu lado, apelava para o amigo Diógenes, que sempre o socorria nos momentos de agrura.

Ao ser designado para falar em nome da Municipalidade, Chico Chagas empertigou-se todo e mandou:  - Excelentíssimo senhor doutor Jerônimo de Souza Monteiro, digníssimo presidente do Estado. Excelentíssimo senhor doutor Júlio Leite, ilustre presidente do Congresso Legislativo Estadual. Excelentíssimo senhor doutor Augusto Serrano, digno presidente da Corte de Justiça do Estado. Excelentíssimo senhor Joaquim Lírio, respeitável presidente do Conselho Municipal da Capital. Excelentíssimo senhor presidente e demais membros da Câmara de Vila Velha. Reverendíssimo padre Vidigal de Almeida, piedoso pároco da nossa cidade. Demais autoridades que integram a ilustre comitiva presidencial. Minhas senhoras, meus senhores, meus queridos conterrâneos.

Fez uma pausa, enfiou a mão no bolso do casaco preto e trouxe um lenço branco que segurou na mão direita. Para ele, o lenço significava complemento indispensável para falar em público. Tinha-se a impressão de que sem ele Chico perdia a inspiração e não conseguia construir as frases.

Por alguns segundos olhou para as lâmpadas presas aos pendentes da sala e, voltando em seguida para os representantes, disse em tom alto e vibrante:

— Hoje, inegavelmente, é um dia histórico. Ficará para sempre gravado nos anais desta cidade, a mais antiga do Estado, em cujas plagas, bafejadas por Deus, Vasco Fernandes Coutinho lançou as sementes que, adubadas pelo suor, as lágrimas e o sangue dos primeiros colonos, formaram o berço da civilização espírito-santense.

Após ligeira pausa, preenchida com muitas palmas, o orador prosseguiu:

— Ao compulsarmos as amarelecidas páginas do passado, vemos no curso da história, como se estivessem gravados nas telas do infinito, os episódios mais dolorosos que marcaram Vila Velha e a submeteram a séculos de esquecimento e de humilhações. Hoje, entretanto, graças ao espírito dinâmico e empreendedor do grande presidente Jerônimo de Souza Monteiro, que reconhece e respeita as mais caras tradições do nosso povo, saímos afinal das trevas nas quais estávamos mergulhados e penetramos triunfantes na era da luz elétrica. Certamente tal acontecimento constitui para a nossa terra um marco de progresso que não poderá ser desfeito por ninguém.

Várias vezes o orador fora interrompido com palmas e por expressões de "muito bem". Em alguns momentos deixava escapar, mas de forma sutil, algumas críticas aos filhos de Vitória. Tratava- se de uma rixa secular, que vinha desde os primórdios da colonização. Naquele momento, todavia, Chico procurava não se exceder.

E continuava a falar. Empolgava-se de tal modo que em seu discurso provocava um verdadeiro desfile de personalidades históricas.

Na passarela de sua imaginação passavam os Coutinho (pai e filho), Luíza Grinalda, Jorge de Menezes, Duarte Lemos, Belchior de Azeredo, Miguel e Marcos de Azeredo, frei Pedro Palácios, os padres jesuítas e várias outras personalidades que ajudaram a construir o Estado do Espírito Santo. Para cada uma tinha uma referência importante, mas que nem sempre condizia com a história. No ardor do entusiasmo não raro deturpava fatos históricos a fim de enaltecer a importância de sua cidade. E dessa forma costumava às vezes perder-se em digressões e esquecer que o tempo não parava. Por isso, a preocupação do chefe e dos demais membros da Corporação Municipal era que o orador perdesse a noção do tempo e prejudicasse o horário de retorno de Jerônimo Monteiro a Vitória.

 

Rapidamente Diógenes redigiu algumas palavras em um pedaço de papel que fez chegar às mãos do orador. Este balançou a cabeça em sinal afirmativo.

— Concluindo, meus senhores, em nome da Municipalidade da qual sou o mais humilde representante, desejo manifestar ao grande presidente Jerônimo Monteiro os sinceros agradecimentos do povo de Vila Velha, que acaba de ser contemplada com tão importante benefício público.

E, a exemplo do que sempre fazia ao encerrar seus discursos, citou um pensamento de autor famoso:

— Virgílio, o genial poeta latino, escreveu com sensível acerto: "Enquanto os rios correrem para o mar, enquanto os montes fizerem sombra aos vales e as estrelas fulgirem no firmamento, deve durar na mente do homem o benefício recebido." Repetindo o que escreveu o imortal autor da Eneida, ficai certo, senhor presidente, enquanto os rios despejarem no mar as suas águas, enquanto os vales forem sombreados pelos montes e as estrelas cintilarem na amplidão dos céus, o povo desta terra abençoada por Nossa Senhora da Penha será sempre reconhecido a Vossa Excelência. Tenho dito.

Na rua voltam os foguetes a espocar. Antes que alguém, sem saber do que fora previamente combinado, resolvesse pedir a palavra e assim prolongar a solenidade, o presidente do Estado, dirigindo-se às autoridades e a todos os presentes, disse:

— Estou sensibilizado com as palavras dos ilustres oradores, aos quais penhoro meus agradecimentos. Conforme prometi, trouxe hoje a luz elétrica para a nossa querida Vila Velha e ainda vos prometo, senhores, que até o final do meu governo aqui instalarei água encanada e um moderno sistema de transporte coletivo: os bondes elétricos. Será uma linha a cortar, de acordo com o projeto em fase de conclusão, os principais pontos da cidade. Dessa forma, uma grande parte da população ficará mais próxima da Capital, sem falarmos do grande desenvolvimento urbano que os bondes trarão para o vosso município. Era o que eu tinha a dizer. Até breve ou até a próxima inauguração, se Deus quiser. Muito obrigado.

Os aplausos pareciam intermináveis. O entusiasmo de todos era muito grande. O foguetório e o estampido dos rojões ensurdeciam.

Na oportunidade em que o presidente assinava a ata lavrada para registrar (31) o acontecimento, Diógenes dele se aproximou. Trazia pelo braço o irmão Diomedes e a cunhada Lavínia.

— Jerônimo, o meu irmão e a minha cunhada desejam rapidamente falar com você.

Com a fidalguia que lhe era peculiar, Jerônimo Monteiro pousou a mão sobre o ombro de Diomedes.

— Em que posso ser útil a tão simpático casal?

— Trata-se apenas de um convite, senhor presidente. Para comemorar o grande acontecimento, minha mulher, eu e o meu irmão receberemos na Chácara, logo mais à noite, autoridades e amigos. Ficaríamos felizes se o senhor nos concedesse a honra de sua presença. Mas, pelo que vemos, parece que compromissos urgentes exigem o seu retorno à Capital.

— Na verdade, tracei um programa de trabalho para esta noite. São as obrigações de um governo que ainda tem tantas coisas para realizar. Fico lisonjeado com o convite mas lamentavelmente não dá Para ficar. Vamos transferir para outra oportunidade.

E, ao se dirigir a Diógenes, depois de abraçar o casal:

— Meu amigo, preciso ir. Até breve.

— Eu o acompanho até o cais.

Com palmas e vivas o presidente do Estado se retirou, seguido pela multidão. Carinhosa demonstração de regozijo muito merecida. Afinal, Jerônimo Monteiro acabava de dotar de iluminação elétrica a mais antiga cidade do Espírito Santo e prometera água encanada e bondes elétricos, que seriam inaugurados ainda em seu governo. Nunca ninguém havia feito tanto por Vila Velha e nunca a cidade havia sido tão bafejada pelo progresso.

As pessoas que dele foram se despedir continuaram no cais até que as lanchas, zarpando na superfície serena da enseada, desapareceram tomando o rumo de Vitória.

Nessa tarde a Prainha, como sempre linda, mais se parecia com um lago.

 

Notas do Capítulo I

1. Auguste de Saint-Hilaire, Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce, p. 113.

2. A mesma observação de Saint-Hilaire havia sido feita por Francisco Manoel da Cunha, em 23 de junho de 1811, em relatório dirigido a Antônio de Araújo e Azevedo, conselheiro de Estado de D. João VI, conforme documento publicado na Revista do IHGES, n° 35, 1984, p. 99: "Pouco acima do dito forte de São Francisco Xavier está a Vila do Espírito Santo, a primeira que houve na Capitania; quarenta casas pouco mais ou menos e pela maior parte coberta de palhas, compõe-se essa povoação". Disse também o que viu na vila: "...os alicerces de uma pequena alfândega estabelecida logo depois da descoberta da mesma Capitania e que desapareceu, bem como a antiga navegação, que ela nutria diretamente com a Europa e a África, de que hoje não há a mais ligeira sombra". O autor do relatório não indicou o local onde viu as ruínas da alfândega.

3. Saint-Hilaire, op. cit., p. 113.

4. Levy Rocha, Viagem de Pedro II ao Espírito Santo, p. 62.

4a. Arquivo Histórico Ultramarino, documento cuja cópia encontra-se no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. CTA: AHU — Espírito Santo, Cx 02, doc. 104. / AHU-AGL — CU — 007, Cx 02, doc. 208.

5. Atual Colégio São José.

6. Atual rua Luciano das Neves. Em 1841 ele era presidente da Câmara Municipal. Foi também professor de ensino primário e em 1852 ainda lecionava em Vila Velha

7. Atual rua Antônio Ataíde.

8. Na época mais conhecida por rua do Torrão, denominação que trazia de um passado distante.

9. Desapareceu para dar lugar ao prolongamento da rua Luíza Grinalda ou rua do Torrão.

10. Não mais existe. Comunicava a rua Coronel Mascarenhas com a Prainha.

11. Atual rua Bernardo Schneider.

12. Desapareceu por se tratar do prolongamento da rua Pedro Palácios.

13. Atual rua Antônio F. Queiroz (em frente ao Parque da Prainha).

14. Nome dado a uma área que hoje compreende parte da avenida Jerônimo Monteiro, no trecho entre as ruas Presidente Lima e Henrique Laranja, incluído o lado norte dessas ruas. Aí moravam humildes lavadeiras que passavam as roupas com antigo ferro de engomar, a carvão, chamados de "maxambomba".

15. Ficava localizado no final das atuais ruas Henrique Laranja e Freitas Lima (lado sul).

16. No final das atuais ruas Coronel Sodré e Araribóia (lado sul).

17. Como prova da construção desse cemitério no final do século XIX, nele ainda existe, em mau estado de conservação, pequeno túmulo com um anjo esculpido em mármore assinalando 09/02/1897 como data do sepultamento da menina Iracema, primogênita do casal Antero e Rosalina de Almeida. Anteriormente, os sepultamentos eram feitos no cemitério que existia no areal onde mais tarde foi aberta a avenida Jerônimo Monteiro, esquina com a rua Presidente Lima. Substituía o primitivo campo santo situado atrás da igreja do Rosário, removido nos anos trinta do século XX para dar lugar à construção da praça Otávio Araújo.

18. Atual praça Almirante Tamandaré.

19. Atual praça Otávio Araújo.

20. Era cobrador dessa lancha Adolfo Barcelos (Adolfinho), irmão de Clementino Barcelos, membros de tradicional família vila-velhense.

21. Segundo a Constituição Estadual, de 02/05/1892, a cidade era governada por uma corporação constituída de sete membros, com mandato de quatro anos, denominados governadores. Dentre eles um era escolhido para presidente, o qual exercia funções executivas pelo período de um ano, podendo ser reconduzido ao cargo de acordo com a vontade da maioria dos seus pares. Por força de mandamento constitucional não eram remunerados.

22. Todas viviam em Vila Velha e participavam de sua vida pública, comercial, social ou política.

23. Com a recuperação do Forte São Francisco Xavier, em Piratininga, no local foi instalada a Escola de Aprendizes Marinheiros em abril de 1909. Visitando Vitória, em maio de 1910, a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida escreveu um artigo, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, sobre o que viu em Vitória e em Vila Velha (texto transcrito na revista Você, da Secretaria de Produção e Difusão Cultural da UFES, ano II, n° 23, junho de 1994). Em certos trechos do artigo assinalou a autora:

Depois de algumas horas de repouso numa hospedaria fidalga, de uma visita ao governo municipal de Vila Velha e outras visitas aos colégios públicos do lugar, cujas aulas estavam repletas de crianças robustas e alegres, seguimos por uma linda estrada para a Fortaleza de Piratininga, Escola de Aprendizes Marinheiros.

Tinha de notável essa estrada, perfeitamente construída, ter sido feita pelos aprendizes da escola sob a direção de um dos seus oficiais. E eis aí uma iniciativa que deve ter lisonjeado a municipalidade de Vila Velha por facilitar a comunicação do povo da terra com a pitoresca e velha fortaleza. Aí, ao transpor o portão da entrada, não tive a impressão de penetrar numa praça militar; mas num belo e vasto parque de castelo europeu, com suas largas alfombras veludosas e suas aléias de belas perspectivas.

O local é amplo, todo numa curva de terra beijada pelo mar. No pátio do edifício, de forma convexa, tocava a banda dos aprendizes com muito garbo e afinação, embora constituída havia poucos meses.

O diretor da Escola, comandante Maurício Pirajá, oficial distinto e que alia às suas qualidades de militar severo as de um perfeito gentleman, teve a delicadeza de percorrer conosco todo o estabelecimento: enfermaria, cozinha, lavanderia e paiol, fazendo notar em tudo o maior asseio e a ordem mais absoluta.

A escola foi extinta em março de 1913. É importante assinalar que, até o primeiro trimestre de 1913, quando, por motivos óbvios, a praia de Piratininga estava fechada ao público, os moradores de Vila Velha procuravam a praia da Costa. Para se chegar até ela, era utilizada estreita ponte sobre o rio da Costa, com dois ou três pranchões de madeira para a travessia apenas de pedestres. A ponte ficava situada na direção da atual rua 15 de Novembro. Ao atravessá-la, caminhava-se do outro lado margeando o pequeno rio até o porto de Isidoro. Chegava-se afinal à praia da Costa.

Muitos anos antes dessa escola, que funcionou no período de 1909 a 1913, ali foi instalada uma "companhia de aprendizes-marinheiros" por força do Decreto n° 2.890, de 8 de fevereiro de 1862, do governo imperial.

Ao  tratar do assunto em relatório apresentado à Assembléia Legislativa Provincial, em 1862, assim se expressou José Fernandes da Costa Pereira Júnior, presidente da Província:

Esta medida, de incontestável utilidade não somente para o Estado mas também para os menores que vagueiam ociosos e desamparados nas povoações reduzidos muitas vezes a um cativeiro disfarçado sob o título de tutela ou contrato para soldada, encontra à primeira vista certa repugnância pela natural aversão que na Província se vota ao serviço do exército e da armada, não obstante ser a população geralmente afeita à vida marítima. Todavia, espero que a certeza das vantagens oferecidas pela instituição vença aquele sentimento e dê ao Estado um viveiro de homens preparados para o serviço naval.

O Governo Imperial escolheu a fortaleza de São Francisco Xavier para sede do estabelecimento autorizando-me a mandar fazer os reparos de que ela precisasse com maior urgência. Já oficiei aos juízes&

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