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Eternidade - Jardim ou O Poema Moscoso - Por Gilbert Chaudanne

Parque Moscoso, lambe-lambe

Pelo desejo de estar magnificamente só

sentado neste banco de mim

sobre meu eu que está fluindo

lentamente no jardim

e debaixo de mim

fluindo

porém com um fluxo que não anda em linha reta

mas que gosta de fazer arabescos

redemoinhos de que moinho

ou dos carrosséis e dos coretos que aqui estão

diante do meu olhar redondo;

pode ser o moinho do meu eu

moendo este jardim-medalhão em reflexo pelo

mundo

o moinho místico — quem sabe — que não seria o do meu eu mas o de uma divindade que toma conta da vida-morte

dos marrecos, dos macacos e dos humanos

e os mói

assim como se isto, este jardim fechado, fosse uma

espécie de purgatório

antes da solução final.

 

Homens idosos, ou meio maduros — anciãos — e

extremamente: crianças pequenas — extremamente, com alguns adultos pingando das suas preocupações o desligamento geral da criança- velha, do vovô-neném

congelado debaixo das árvores

(que levantam suas mãos de ramos na direção de

um céu que corre em linha reta para os morros)

e todo mundo formando uma espécie de ciranda

nas construções circulares: que tocas!

onde os homens fluindo nos seus anos idos

jogam o baralho do destino

o baralho da vida-morte de que roleta russa

ou pode ser aquela roleta da entrada do jardim

com seu guarda: João Pedro Joaquim.

 

E os macacos, estabelecidos na plena simetria

em relação ao homem, na sua toca-coreto

com a seriedade brincalhona de quem desconhece

a metafísica e os baralhos do Destino,

catam quase cientificamente as pulgas na superfície  da sua pele cabeluda

olhando com uma certa surpresa tranquila para

mim

ou para minha consciência

que anda sempre com o "conceito da angústia"

debaixo do braço

e um jogo de baralho no bolso como loteria

metafísica na bunda do Destino.

 

E o fluir imperial dos marrecos acenando para

nós com seus traseiros felizes

e buzinando por pura felicidade de ser marreco

e o homem só, debaixo do velho relógio desgastado, sem ponteiros para indicar a hora — hora parada — hora  perdida, o homem só, mexendo nos seus papéis, poemas,  documentos, testamento,

o homem meio velho e só que tenta segurar sua vida

fluindo nessa papelada toda

debaixo do relógio parado sem ponteiros

mas que eternidade é essa, onde tudo flui fora

o tempo parado?

que eternidade é essa que faz com que os macacos e os marrecos pareçam olhar o homem com ar gozador, mandando-o,  esse homem, de volta para sua consciência  de sutil crueldade,

Relógio aposentado, como esse jardim em geral,

um pouco cansado de já ter vivido suas horas

de glória

e que vive do seu passado entretanto recente e

já ido

como a cidade toda que não sabe envelhecer

com aquele brilho meio fosco, essa pátina característica do que já passou

e que se reflete nas máquinas fotográficas à antiga

como garças de um olho só

a consciência de qual câmara escura,

relâmpago mole de uma consciência cansada de ser consciência,

o Relógio, primo irmão de uma balança de pesar

o peso de que corpo

a meio caminho no declive desse montículo

no jardim

das oliveiras ausentes

da reza impossível e do amor falido

das mangueiras presentes imensamente como notável

expansão tropicalista

a força das seivas e o peso do corpo velho

ou de um corpo que vai sumir

em que espaço intocável e predileto

que é aquele, pode ser, onde se jogará baralho até

o fim dos tempos

ao pé de um relógio parado

e diante de uma eternidade raspada

que não quer dizer nada.

 

Entretanto, aquele senhor de cabelo branco grisalho

paquerando aquela mulher "jovem ainda", de

corpo esguio e levemente ossudo

mas com uma leveza que pode ser tocada sem sentir

o peso

do tempo do relógio parado e da sua eternidade besta

o último namoro

a última paquera

e as árvores levantando as mãos para o céu, meu deus,

como lavadeiras que se exasperam nas suas fofocas,

e é para todo mundo descer de novo e dançar a ciranda

de um novo mundo

que foi sonhado no tempo em que o homem ainda sonhava

mas que não existe

mas que expande o notável perfume da sua

inexistência

na elegância natural

dessa mulher aparentemente simples,

que o homem respira, não como uma flor, mas

como o cheiro incompreensível

do estar-aqui.

 

Fonte: Escritos de Vitória nº 6 - Parque Moscoso, PMV e Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo, 1994
Autor do texto: Gilberto Chaudanne. Nascido na França, em Vitória desde 1985 - Escritor e artista plástico
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2019

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