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Jerônimo Monteiro - Capítulo X

O Presidente do Estado, Jerônimo Monteiro e correligionários após a entrega do cemitério de Santo Antônio à Prefeitura Municipal de Vitória, 1912

A cidade da Vitória parecia transformada, após as referidas inaugurações. Projetou-se, logo, uma grande manifestação popular ao Dr. Jerônimo. Às 19 horas do dia 5 de outubro, o povo concentrado na Praça Santos Dumont iniciou a Marche aux flambeaux, puxada pelas inesquecíveis Bandas de Música, até a Praça Dr. João Clímaco. Todo o Palácio ficou cercado de gente. E os oradores sucediam-se: — Carlos Mendes, Urbano Xavier, José Lírio e, de uma sacada do Palácio, o Presidente do Congresso, Dr. Paulo de Melo.

Vivas!... (O vitoriense antigo era extraordinário nos vivas!...)

Finalmente, entre palmas e vivas, o Dr. Jerônimo agradeceu aquele conforto que o povo lhe dava, de reconhecer suas intenções de servi-lo, no cumprimento das promessas feitas na sua Plataforma Política.

Bandejas de doces foram distribuídas, na praça e nas escadarias.

Somente quem assistiu àquela hora de vibração popular pode afirmar que devia sua lembrança ter permanecido indelével, na alma do saudoso Presidente, para lenimento da campanha dura que lhe movia a oposição, pelas colunas do "Estado do Espírito Santo".

* * *

Havia o Governo recomendado à população da Vitória que providenciasse a instalação de encanamentos e aparelhos sanitários nas residências, para facilitar a ligação rápida com a distribuição geral da água e a rede de esgotos.

Perante o receio de gasto excessivo com esses trabalhos, o Governo, mediante a imprensa, esclareceu ao povo que tal despesa seria, em breve, coberta com a economia de transporte de dejetos para a maré e compra de água, em pipas e latas.

Começaram, logo, os fios de eletricidade e os canos de água a penetrar nas residências, nas repartições públicas, nos colégios, em todos os lugares onde existisse a criatura humana.

Movimentou-se o comércio e tomou incremento a importação e a venda de novo material. Com o tempo surgiram casas especializadas em ferragens e eletricidade.

Inaugurada a água e iniciada sua instalação domiciliar, devia, certamente, ser cobrada uma taxa para tal serviço. A Lei n° 635, de 20 de dezembro de 1909, que estabelecia a cobrança da Taxa Sanitária, efetiva, para todo o imóvel, deu, porém, oportunidade para que a oposição atacasse mais o Governo. Uma pobre, fã do Dr. Jerônimo, expandiu-se: — “É assim! Essa gente estava acostumada com a sujeira, por isso é mesmo suja! E não quer saber do Dr. Jerônimo, que nos deu água e deu a luz". Apareceram logo versinhos jocosos, como o vitoriense daquele tempo apreciava...

Mas o lançamento era proporcional ao valor locativo dos prédios urbanos: ia de 1$ooo a 20$000. Haveria cobrança judicial, em caso de negativas ao pagamento. Esqueciam-se os recalcitrantes de que, antes, pagavam 500 réis por uma lata de água!... Lata de dezoito litros de água de canoa!...

Mas, de par com o abastecimento de água, Dr. Jerônimo cuidou da construção de duas lavanderias públicas, a fim de auxiliar as pobres lavadeiras, que assim ganhavam honestamente a vida: uma lavanderia, com quarenta tanques, na Vila Moscoso, e outra, com vinte, em Santo Antônio, providas de bastante água e drenos sólidos. Tinham, ao lado, banheiros de chuva e gabinetes sanitários, tudo complementado pela cobertura (telhados), coradouros e varais. Um guarda evitava o assalto dos amigos do alheio.

* * *

Em princípios de junho, portanto dias após a posse do Dr. Jerônimo (1908), a imprensa noticiava casos de varíola, no Rio de Janeiro. Logo providenciou o Governo que funcionassem postos de vacinação, entregues aos Drs. Manuel Monjardim, Olímpio Lírio, João Lordelo, João Duckla de Aguiar e Ernesto Vereza. E, para animar o povo, os primeiros vacinados foram o Presidente do Estado, sua família e seus auxiliares, no Palácio do Governo. Não existiam, ainda, enfermeiros no Espírito Santo, a vacina era aplicada somente pelos médicos.

O plantão de uma farmácia, aos domingos, foi uma providência, de muito desejada, a fim de que a cidade tivesse atendimento, em casos necessários.

Criada a Prefeitura Municipal da Vitória, pela Lei n° 528, de 14 de dezembro de 1908, a 9 de fevereiro de 1909 foi nomeado, pelo Decreto de n° 243, o Dr. Ceciliano Abel de Almeida seu primeiro Prefeito. (O Perfeito, — dizia o povo).

Logo, em conjunto com a Prefeitura, o Governo do Estado empreendeu diversos melhoramentos urbanos: o nivelamento da Praça Dr. João Clímaco, com o muro e as escadas diante dos prédios, à esquerda do Palácio; a construção de escadas para a Rua do Egito e as Escolas Normal e Anexas; alargamento da Rua da Alfândega e sua ligação com a do Teatro; prolongamento da Rua do Oriente, até a Praça Marechal Floriano Peixoto; balaustrada e escadaria do Cais do Imperador, depois Marechal Hermes; calçamento das ruas da Lapa e do Sul; aterro e abaulamento da Avenida da República (a famosa Rua da Vala, porque no meio tinha uma vala de escoamento das águas do Campinho e, na preamar, dava acesso da água do mar até o mesmo pântano); igual serviço na Avenida Cleto Nunes; calçamento das ruas José Marcelino, Alfândega, Presidente Pedreira, Ocidente, Vinte e Três de Maio e Sete de Setembro.

Mas o povo devia colaborar na melhora do aspecto da cidade. Por isso, a Prefeitura determinou que se fizessem platibandas nos prédios. Houve, a princípio, resistência; mas assim que uns começaram a modernizar a frontaria de suas casas, outros seguiram-lhes o exemplo. Na Praça Santos Dumont, Clímaco Sales, dono de "A Primavera" (a loja mais atraente da cidade), a Alfaiataria Resemini e a Farmácia Aguirre abriram o caminho e prepararam, naturalmente, o lugar que se tornaria um dos mais aprazíveis da Vitória, principalmente quando a Prefeitura proibiu o trânsito de centenas de muares — verdadeiras tropas no centro urbano.

Lembremo-nos de que era de verdadeira escravidão o trabalho dos comerciários, desde os tempos antigos. Em 1857, por exemplo, os caixeiros dirigiram-se ao Governo para que lhes desse feriado, aos domingos e dias santos; mas o Presidente da Província, a 8 de outubro do mesmo ano, despachou o requerimento dizendo que a solução do caso competia às Autoridades Eclesiásticas e ao Governo Geral.

Continuou, assim, o trabalho no comércio, das seis às vinte e duas horas, ao passo que o alto comércio ia até às doze, aos domingos, enquanto o varejo não se fechava nunca!

Mas no Governo do Dr. Jerônimo tudo devia ter sentido humano. Por isso, a 15 de maio de 1909, o Prefeito Ceciliano de Almeida proibiu a abertura do comércio aos domingos, medida ousada e progressista para o tempo e que despertou incomparável alegria nos comerciários. Embora alguns comerciantes-chefes, gananciosos, movessem guerra ao Governo, outros, compreensivos, receberam a medida com satisfação e aplausos.

Às 20 horas, um foguetão espocava, na Praça do Quartel. Era o sinal de fecharem-se as portas do comércio; TUM!... todos acertavam seus relógios.

Enquanto, porém, nesses quinze meses de Governo, com impressionante, ordenada e segura atividade que exercia decisiva influência em todas as classes da população, cuidava o Dr. Jerônimo de serviços de tanta importância na Capital, voltava-se, igualmente, para o ensino, a lavoura, os presos, as estradas, a Polícia, os bondes e tudo o que estava no seu grandioso programa. Ele próprio diria, mais tarde, na Câmara dos Deputados: — “É um fato positivo, contra o qual não existe argumento que possa prevalecer, seja qual for o esforço da lógica empregada: o povo, quando beneficiado, por trabalhos e diligências de um Governo, de um Partido Político, volta para este sua simpatia, dá-lhe apoio, auxilia sua obra e nele ganha confiança, que se não desfaz com as propagandas mais ou menos apaixonadas".

À medida que os encanamentos avançavam nas residências, operários assentavam novos trilhos e abriam leitos para as manilhas, trabalho penoso, numa cidade cheia de ladeiras, ruas desniveladas e solo rochoso!... Era a luta do homem contra os obstáculos da Natureza, para o progresso. Luta que daria à cidade os serviços de esgotos, oficialmente inaugurados a 29 de janeiro de 1911. No dia 31, o Dr. Jerônimo retirou-se, doente, para Cachoeiro do Itapemirim. Estava esgotado e não se tinha de pé. Foi para o Monte Líbano, junto à querida Mamãe! — Lembremo-nos de que o Presidente não dispunha de outra residência, fora do Palácio do Governo. Era um prisioneiro na administração dos interesses de um povo!

O serviço de esgotos complementava-se com dois poços, construídos de cimento armado, ou estações de recalque e tratamento: uma das quais no Porto dos Padres, onde se encontra, atualmente, a Mercearia São José. E a descarga fazia-se no Forte de São João, ponto, naquele tempo, considerado "fora da cidade".

Cada bomba era acionada por dois motores trifásicos de trinta cavalos de força. Em caso de falha nos motores, havia o sifão, colocado em ponto conveniente, para fazer-se a descarga direta, no mar.16

A tração elétrica foi oficialmente inaugurada em 1911, a 21 de junho. Antes, porém, os bondinhos a muares, que partiam da Cidade de Palha, atual Vila Rubim, e seguiam a faixa beira-mar até o Suá, já estavam derrotados pelos elétricos, rápidos e higiênicos em duas linhas: uma que seguia de Santo Antônio ao Suá, e outra, até a Praça Dr. João Clímaco, na chamada Cidade Alta, tudo de acordo com a situação do comércio, dos funcionários públicos, dos escolares e dos moradores, agora obrigados à subida de ladeiras e escadarias! Lamentam, por isso, sua retirada, mormente nos dias chuvosos.

Desde os idos tempos de bondes de tração animal (bondes de burros, dizia o povo), havia, no Forte de São João, um bar, organizado pelo Sr. Gustavo Schmidt. Era o Bar do Schmidt, assim conhecido, que muito animava os passeios de bonde, apreciados pelas famílias vitorienses, na falta de outra distração. A cervejinha gelada era incomparável!... E os docinhos, manuês e queijadinhas daquele tempo?!...

O serviço de bondes para Vila Velha foi contratado pelo Governo com o Sr. João Nicolussi, mediante a concessão de alguns favores, com garantia de juros. Ao ser inaugurada, a 14 de abril de 1912, já estava produzindo “renda muito superior à cota garantida pelo Estado". De 14 a 30 de abril, sua renda era de 7:000$000, conforme se lê na "Mensagem" final do Dr. Jerônimo ao Congresso Legislativo do Estado.

Para a viação elétrica até Santo Antônio, providenciou o Dr. Jerônimo a abertura de uma estrada que substituísse o velho caminho, permitido apenas a pedestres e cavaleiros. Mesmo porque lá devia ser construído um Cemitério Público, no antigo sítio do Sr. José Ribeiro Coelho, onde havia o curral de bois. E a estrada se fez a picaretas e pás. Trabalho hercúleo, num tempo distante da maquinaria atual. Estrada bem amparada pelos muros de sustentação.

Inaugurada a linha de bondes elétricos para Santo Antônio e aberto o Cemitério Público, organizou-se o serviço especial de enterros: um bonde puxava o reboque fúnebre, seguido de outros, com o cortejo. O povo, sempre imaginoso, dizia "Enterro de bonde". Com o tempo, como o "Enterro de bonde", apareceu o "Casamento de bonde", para noivos, quando residentes longe das Igrejas.

O Cemitério Público, em Santo Antônio, foi inaugurado a 1° de maio de 1912. A 8, realizou-se a primeira inumação, a de Da Isabel Borges de Aguiar.

* * *

A fim de que tudo estivesse às suas vistas, o Presidente do Estado reuniu as repartições públicas no andar térreo do Palácio do Governo. Adaptou, para isso, as diversas dependências ali existentes e desocupou algumas, pela reorganização da Biblioteca Pública em prédio independente. Criou, a 18 de julho de 1908, o Arquivo Público Espírito-Santense e o Museu do Estado, para documentos e objetos encontrados numa sala, empilhados, entregues à poeira e aos insetos bibliófagos.

Na “Mensagem" de 1912, lemos que "numa antiga dependência da Igreja de São Tiago, jazia, abandonado, um depósito, empoeirado e desordenado, de papéis e documentos importantes, em lamentável confusão, entre jornais velhos, panfletos, leis, relatórios e instrumentos de engenharia, enferrujados".

Para a organização metódica e exaustiva, e de responsabilidade técnica, de um documentário rico e inapreciável — esse referido, encontrou o Dr. Jerônimo o Dr. Diocleciano de Oliveira, uma das primorosas culturas daquele tempo, cultura aliada ao devotado amor ao ensino e à sua terra.

Sim, reconhecia o douto Presidente o valor dessas instituições básicas, para o conhecimento real do Passado de um povo, tanto na parte administrativa quanto noutros setores da História.

Iniciado o trabalho, a 12 de novembro de 1908, com o auxílio de três empregados e, mais tarde, doze, o Dr. Diocleciano de Oliveira, em setembro de 1909, concluiu a organização do Arquivo que, a 27, foi inaugurado, numa dependência do Palácio do Governo, convenientemente adaptada para isso.

Diz a "Mensagem" de 1912: — "Os diversos documentos e papéis foram catalogados e classificados, por assunto ou natureza e época, além de se ter organizado um índice geral, para os livros manuscritos, dos quais o primeiro data de 1809". (Quem atualmente se enche de coragem para enfrentar uma pesquisa no Arquivo Público do Espírito Santo sente infinita tristeza perante as preciosidades ali simplesmente depositadas, e com o mesmo catálogo daquele tempo!...)

A Biblioteca do Estado achava-se recolhida a uma sala da Diretoria da Instrução Pública, desde 1897, abandonada e desorganizada. Perdera obras valiosas!...

O Dr. Jerônimo confiou sua reorganização ao Dr. Ubaldo Ramalhete Maia, com o auxílio de quatro empregados. De fins de julho a 27 de setembro de 1909, quando foi reaberta ao público, durou o trabalho cujo resultado foi o Catálogo de 5.073 volumes, inclusive novas obras adquiridas, umas por compra, outras, em virtude de doações espontâneas. Preparou­ -se, igualmente, o fichário para as consultas.

Designou o Dr. Jerônimo o Sr. João Calmon Adnet para examinar todos os jornais daqui, do Rio de Janeiro, de São Paulo, Minas e outros recebidos, a fim de recortar e catalogar todas as notícias relativas ao Espírito Santo. Assim, estaria o Governo sempre bem informado, tanto das críticas e dos elogios, quanto das sugestões.

* * *

Para a vaga aberta no Senado em abril de 1908, com a morte do Sr. Cleto Nunes Pereira, foi apresentada a candidatura do Dr. João Luís Alves, em julho do mesmo ano.

Fortemente combatida pela oposição, mormente pelo Dr. Graciano Santos Neves, na Câmara Federal, essa candidatura representava um agradecimento aos serviços prestados, como conciliador da política agitada, no quadriênio anterior (1904-1908). Alguém apelidara o candidato — o Ramo de Oliveira. Realizou-se a eleição no dia 14 de julho. E, no dia 26, o Dr. João Luís chegou a Vitória para agradecer ao povo sua eleição. Foi festivamente recebido, após a estreia da viagem marítima, no Olinda. Jamais entrara em navio. Permaneceu no Espírito Santo até 7 de agosto. Visitou diversos pontos da Capital, estabelecimentos de ensino, Vila Velha, a Penha, além de uma excursão pela Estrada de Ferro Diamantina, ao interior do Estado.

No dia 5 de agosto, o Dr. João Luís recebeu um telegrama de Belo Horizonte, que lhe comunicava ter o Congresso Mineiro votado uma verba para auxiliar as obras do Porto da Vitória. Era de 100:000$000, porque se tratava, desde os tempos da Capitania, de um meio de escoamento dos produtos mineiros, trazidos primeiramente pelas tropas, agora pela Estrada de Ferro Vitória a Minas.

* * *

Urgia, contudo, ao Governo valer-se do civismo tradicional do povo espírito-santense e impor ao meio o respeito aos Poderes constituídos.

Na Plataforma de 15 de janeiro de 1908, dizia o Dr. Jerônimo: — "A despeito da separação, entre os diversos órgãos do Poder Público Estadual e bem assim entre este e o Poder Municipal, é fora de dúvida que a harmonia, entre todos, presidida por estreita unidade de visitas, facilitará, proficuamente, a direção dos negócios públicos".

A separação dos órgãos do Poder Público devia ser respeitada. Então, logo ao início do seu Governo, tratou o Presidente de providenciar a desacumulação de cargos públicos e eletivos. Conclamou à renúncia os seus detentores, medida que, além de assegurar aos representantes do povo independência de pronunciamento no Congresso Estadual, mantinha-os inteiramente votados à urgência de estudos cuja rapidez era necessária.

Certo foi que surgiu velada luta política pela exigência da desacumulação. Interesses contrariados! Muita gente guardou a mágoa de ter perdido vantagens pecuniárias. A medida administrativa foi, porém, afinal, compreendida e amplamente elogiada na imprensa da Vitória e do Rio de Janeiro. No "Diário da Manhã", de 28 de maio de 1908, lia-se um artigo de rara importância, no qual eminente causídico, ao referir-se à deliberação do Governo, registrou: — "O Dr. Jerônimo inicia o seu Governo, dando ao dogma da independência dos Poderes o maior relevo, sob novos moldes, que restauram o império da Constituição, instituindo uma nova prática, inspirada nas boas doutrinas constitucionais”.

"Foi por amor a esses princípios que S. Exa. resolveu que os auxiliares de confiança da sua administração, qualquer que seja a categoria que ocupem, não podem ter um mandato legislativo".

Concluía, adiante: — "Forçoso é reconhecer: o Dr. Jerônimo Monteiro começa bem".

Resignaram lugar no Congresso Legislativo Estadual os Drs. Olímpio Lirio, Clodoaldo Linhares, Araújo Aguirre e Antônio Ataíde. O Dr. José Belo de Amorim preferiu continuar como Deputado; resignou o lugar de Procurador do Estado, preenchido com a nomeação do Dr. José Espíndula Batalha Ribeiro.

Para as vagas abertas no Congresso, houve eleições a 8 de agosto do mesmo ano. E outra vaga exigia novo candidato: falecera o Deputado Aristides Navarro.

Já que falamos de civismo, anotemos determinações do Presidente, no sentido de vigorar, sempre, nas comemorações oficiais, o Hino Nacional, sem a Marselhesa, que irrompia muitas vezes nas recepções de personagens ilustres e nas festividades públicas, desde a Proclamação da República. Igualmente, nos cardápios dos jantares e banquetes, empregou-se a língua portuguesa.

O edifício do Congresso Legislativo, atual Palácio Domingos Martins, e o Palácio do Governo, agora Palácio Anchieta, este reformado e bem aparelhado, atestam a consideração do Dr. Jerônimo aos Poderes Legislativo e Executivo.

Veremos, adiante, que tratou, igualmente, da instalação condigna da Corte de Justiça e suas dependências.

Mas o respeito à Constituição deu-lhe, não raro, momentos de real amargura, como o chamado Veto da Penha.

Em consideração ao estado em que se encontrava o Convento Santuário da Penha, que necessitava de reforma, sem que a Diocese dispusesse de recursos para empreendê-la, o Deputado Thiers Veloso apresentou e defendeu, em discurso magistral, um Projeto de Lei, apoiado pelos seus pares Bernardino Monteiro, Cônego Cochard e outros, visto como se tratava de um monumento histórico de grande valor para o povo espírito-santense. Cuidava-se de um auxílio de 20:000$000, para a respectiva restauração. Combatido pelo Deputado Antônio Ataíde, que, em longo discurso, invocou sua fé republicana, o Projeto foi consubstanciado na Lei n° 30, de 1908.

O Dr. Jerônimo vetou a Lei, conforme o “Diário da Manhã", de 1° de dezembro de 1908.

À noite, apareceu no escritório de Dom Fernando e começou a discorrer sobre o caso, que se tornara conversa obrigatória na cidade: “A Constituição!..." Esgotou o assunto: “A Igreja estava separada do Estado, etc."

Dom Fernando interrompeu a leitura do Breviário e tudo ouviu, silencioso, inalterável.

(A sobrinha, que estudava sempre ao lado do Tio Bispo, a tudo assistia; notou o sofrimento no olhar dos irmãos. Via, nas profundas olheiras do Presidente, sua luta íntima, e, em Dom Fernando, a amargura. Correu a buscar um café, que ambos apreciavam).

Finalmente, Jerônimo expandiu-se: — "Por que, Sr. Bispo, este silêncio que me tortura? Diga-me alguma cousa!..."

Dom Fernando: — "Está muito bem. Muito bonito".

O cafezinho demonstrou a sagacidade da estudante que, desse modo, concorreu para amenizar a entrevista. Ambos mudaram de assunto, com a maior finura. Eram assim, estimavam-se e respeitavam-se.

Geralmente, o Dr. Jerônimo saía, após o jantar, para visitar escolas noturnas, surpreender o trabalho na Imprensa Oficial, visitar algum funcionário doente, ou verificar se os fiscais de higiene registravam os "patuscos", embrulhos de dejetos atirados às ruas. João Capuchinho, o sineiro da Catedral, foi um dos contratados para esse ofício. Anotava o número da casa, diante da qual encontrasse um.

 * * *

Nas escolas noturnas, que já funcionavam a 12 de agosto de 1908, o Dr. Jerônimo, quase sempre acompanhado de Da Cecília e dos filhos, procurava saber da situação dos estudantes: — "Eu lavo prato, areio talheres, tiro poeira", dizia, por exemplo, um pequeno que, à noite, procurava instruir-se.

Estavam essas escolas confiadas aos eméritos professores Francisco Loureiro, Amâncio Pereira e João Nunes, educadores de tantas gerações espírito-santenses.

Às vezes, nessas excursões noturnas, o Dr. Jerônimo chegava ao Bispado para ligeira visita ao irmão. Encontrava, geralmente. Dom Fernando escrevendo, escrevendo sempre, ou rezando o Breviário. Vinha logo o entusiasmo das obras, nessas fraternas entrevistas: escolas, fábricas, estradas, fazendas, asilos, etc.

— "Para, Jerônimo!"

— "Oh, Sr. Bispo, é preciso que se faça tudo!..."

Relatavam, nessas ocasiões, os planos de cada um.

O Bispo referia-se aos asilos que pretendia fundar, às missões, às Visitas Pastorais programadas, etc. O Presidente observava o volume de cartas sobre a mesa. (Tudo manuscrito, pois não existiam máquinas de escrever Remington naquele tempo. E Dom Fernando trazia a correspondência pontual).

— "Isso é demais, Sr. Bispo. É preciso cuidar da saúde". Dom Fernando: — "E você? Não está se desdobrando e se esgotando, seco, de trabalhar?"

 

 

Notas:

 

A presente obra da emérita historiadora Maria Stella de Novaes teve sua primeira edição publicada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo -APEES, em 1979, quando então se celebrava o centenário de nascimento de Jerônimo Monteiro, um dos mais reconhecidos homens públicos da história do Espírito Santo.

Esta nova edição, bastante melhorada, também sob os cuidados do APEES, contém a reprodução de uma seleção interessantíssima de fotografias da época — acervo de inestimável valor estético-histórico, encomendado pelo próprio Jerônimo Monteiro e produzido durante o seu governo — que por si só, já justificaria a reimpressão, além do extraordinário conteúdo histórico que relata.

 

 

Autora: Maria Stella de Novaes
Fonte: Jerônimo Monteiro - Sua vida e sua obra
2a edição Vitória, 2017 -  Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Coleção Canaã Vol. 24)
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2019

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