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Zanine, o Artesão de Sonhos – Por José Carlos Mattedi

Zanine, o Artesão de Sonhos – Foto: Luiz Pajaú

Zanine: O Artesão de Sonhos...

Quando entrevistei Zanine, ele estava doente e pouco falava. Decidi, então dar à matéria um perfil mais lúdico, pegando impressões de sua arte e da sua figura que mostrava-se frágil. O resultado, creio, foi positivo...

Publicação em A GAZETA: setembro de 1998.

 

Um dos mais conceituados arquitetos do país, José Zanine Caldas escolheu Vila Velha para morar, onde montou seu ateliê

Um dia ele entrou em uma das salas da Sorbone para dar aula. Uma grande petulância daquele menino do Vale do Jequitinhonha, Sul da Bahia. Imagine, não tinha nem o primeiro grau e falava para doutores. E mais: ao final do curso, recebeu um diploma da Sociedade dos Arquitetos da França pelos serviços prestados à arquitetura mundial. Depois dos louros, ele ainda saboreou uma exposição no Louvre. Detalhe: foi o único arquiteto brasileiro a expor em Paris. Mais um atrevimento daquele baianinho que aprendeu, desde pequeno, a trabalhar "espiando os outros fazendo coisas". Explicação para tanta petulância? Nenhuma. Apenas talento natural para a arte, talvez. Só pode ser isso...

Os fatos narrados deram-se no final dos anos 80 e o autodidata citado é José Zanine Caldas, um dos mais conhecidos e conceituados arquitetos do país e de fama internacional. Mas sua carreira não se resume apenas à França. Tem obras espalhadas pelo mundo em mais de 60 anos de criação e arte. E através desse ofício, aproximou-se de grandes mestres: Niemeyer, Alcides da Rocha Miranda, Osvaldo Bratke, Lúcio Costa, e tantos outros. No Espírito Santo algumas de suas obras se destacam como a Pousada Pedra Azul, em Domingos Martins, e a Pousada da Praia, em Vitória. A especificidade de seu trabalho está na experimentação com a madeira.

Zanine tem em sua obra o traço forte da brasilidade. Ao contrário da concretude moderna de Oscar Niemayer, ele desenvolveu uma arquitetura artesanal. Abriu mão das vigas de cimento, fazendo toda a estrutura em madeira. Seu estilo cedeu espaço à luz e à ventilação natural; fez uso de materiais reciclados e de demolição, e utilizou pinos e encaixes no lugar de pregos. Seu trabalho tem aspecto romântico ou quase primitivo, e fez (e continua fazendo) sucesso - por seu caráter singular, foi prestigiado e requisitado pela burguesia, mas menosprezado por muitos arquitetos. Poucos sabem, mas as maquetes para a construção de Brasília e também do Maracanã foram feitas por ele.

CIRURGIAS - Aos 79 anos, esse baiano de Belmonte já correu o mundo e viveu no Rio, São Paulo e Brasília. Há dois anos descobriu os encantos da Capital capixaba e foi residir em Vila Velha, onde mantém um ateliê. "O povo daqui é simpático e fui bem acolhido", revela. O seu constante bom-humor, entretanto, não deixa escapar marcas de um recente e difícil período. Vítima de um diagnóstico errado do Mal de Alzheimer, por dois anos Zanine ficou afastado de suas criações. Depois foi submetido a três cirurgias no cérebro para tratar de sua verdadeira doença - hidrocefalia. "Vivi uma experiência espiritual e fui salvo por Cristo", diz Zanine com dificuldades na fala.

Essa descoberta o levou ao batismo Mórmon, coisa impensável até bem pouco tempo para quem tinha convicções quase atéias. "Fui um homem auto-suficiente e sempre achei o trabalho a coisa mais importante da vida. Um erro. Primordial é o contato com Deus e a família", admite. Casado cinco vezes e pai de seis filhos, o arquiteto tem seus revezes quanto à relação a dois: "O problema do casamento é que não há respeito à individualidade do outro". Apesar de circular por seu ateliê numa cadeira de rodas, ele não deixou de lado o trabalho. Sempre ao seu lado, o "braço direito" Miguel Angelo Targa, a quem ensinou a ser artesão. Sob a voz do "mestre". o rapaz dá forma e acabamento à madeira.

Com seu jeito bonachão, Zanine não deu lá tanta importância ao dinheiro - até bem pouco tempo não tinha nem casa própria.

Explica-se: na infância, menino miúdo, bebeu da seca do Nordeste e por isso aprendeu a dividir a cuia d'água. Aprendeu também a fazer uso da natureza, mas não de maneira antiecológica. "O Brasil tem a maior reserva de madeiras sobre a face da Terra e se for usada como deve, nunca acaba. Precisamos crescer para estar à altura da nossa natureza", sublinha. Verdade. O trabalho do arquiteto jamais violentou a natureza. Ao contrário. Muitas vezes ressuscita aquilo que um dia morreu. Soa estranho tal afirmação, mas para Zanine o trágico pode parecer canônico.

QUEIMADA - Dia desses, descendo a serra de Domingos Martins, descobriu num campo troncos e raízes cicatrizados pela queimada. "Parecia um cemitério", lembra. Levou então aquela matéria-prima para seu ateliê e lhe deu vida. "A madeira tem duas vidas. Vive a sua primeira vida para si mesma, deixando-nos colher suas frutas. A segunda vida da madeira é gerada pela mão e pelo espírito humanos", filosofa. Palavras bonitas na boca de um homem pouco letrado, que cresceu às margens do Jequitinhonha, iluminado pelo velho farol de Belmonte e dentro de quintais sombreados de árvores frutíferas.

"Minha escola foi a obra e a maquete. Minhas bibliotecas foram as estruturas antigas e as serrarias", diz o arquiteto em artigo no livro Zanine - Sentir e Prazer, coordenado pela arquiteta Suely Ferreira da Silva. Até hoje, argumenta, sobrevive sem a Matemática, usando apenas a Aritmética. Já a Geometria começou a entender no espaço com os frutos da cabaça e na fábrica de rodas de carroça. Diz Zanine: "Uma tora de madeira bruta ia afinando, ganhando retas e curvas perfeitas, enquanto o aro de ferro ardia na forja”. Olhos arregalados e atentos, o menino começava assim a se encantar com o universo do "fazer".

Conta que desde pequeno foi fascinado por quem fazia. O alfaiate que fazia roupas, a cozinheira que fazia comida, o farmacêutico que fazia remédios, o carpinteiro que fazia mesas e cadeiras, o mestre-de-obras que fazia casas... "Espiando os outros fazendo coisas, fui me envolvendo com as árvores, que os fazendeiros apressados em plantar mais chocolates suíço, derrubavam e queimavam", recorda. As casas de taipa e adobe de Belmonte, cobertas por telhas de barro cozido em fornos, também inspiraram o futuro arquiteto. "Foi por aí, exatamente, olhando o fazer, que aprendi a fazer. também. Sobretudo, casas", confessa.

MAQUETES - Encantado com a madeira, entregou-se a ela com paixão. E com a idéia de construir na cabeça, o menino saiu pra vida. Não se prendeu apenas aos grandes centros do país, mas fez viagens de estudo à África e à China. Em suas oficinas, no Rio e São Paulo, executou mais de 700 maquetes - ele habilmente "construía" miniaturas sob encomenda dos arquitetos, numa troca de idéias e mútua colaboração. Já nas construções de casas ou pousadas, sua equipe não buscava detalhamento nas pranchetas, mas teve aprender a observar as maquetes. Assim, do olhar sensível nasciam as obras, e a natureza não se furtava a elas, afinal, dizem que os deuses sempre conspiram em favor da arte.

"Não há no meu trabalho, seja casa ou móvel ou objeto místico, outra intenção que não seja a de abrigar e refletir a natureza humana", ressalta. E foi assim, com esse pensamento, que nos anos 50, em São José dos Campos (SP), montou a fábrica de móveis "Z". Nos anos 60 e 70, abandonou o "brinquedo" (maquete) para fazer suas próprias obras. Introduziu na paisagem carioca casas com forte traço artesanal, conjugando madeira, pedra e vidro. Em 1983 fundou o Centro de Desenvolvimento das Aplicações da Madeira, por achar que no Brasil falta pesquisa sobre o aproveitamento da madeira na construção civil, móveis e utensílios. Ali, fez aquele que considera seu principal projeto: a "Casa do Nilo", protótipo de habitação popular.

A grandiosidade de sua obra, contudo, fez com que sofresse perseguições por não ser arquiteto formado. Foi processado pelo Crea duas vezes "por exercício ilegal da profissão". Comenta o autodidata: "Não dava bola para eles. Enquanto enchiam o meu saco, eu me aprimorava". O urbanista Lúcio Costa, em seu depoimento ao "Zanine - Sentir e Prazer", considerou a perseguição um disparate: "Zanine é um arquiteto nato. Ele nasceu arquiteto". Não à toa, Lúcio correu em defesa do baiano, dizendo que assinaria os projetos do amigo. Mas justiça foi feita: no Congresso Brasileiro de Arquitetos, de 1991, Zanine emocionou a todos ao receber a comenda de honra e o título de arquiteto do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil).

CONSTRUTOR - "Não estudei, mas sei mais do que muito arquiteto", desabafa. E o que esse construtor de sonhos viu na vida? "Vi povos passarem da auto-suficiência tribal para a miséria e a fome das favelas urbanas. Vi artesões milenares começarem a falsificar o próprio talento para atender a turistas ignorantes sob incentivo dos próprios governos". Tamanha sensibilidade só podia mesmo resultar em arte, uma arte artesanal... E a solução, Zanine? "Não podemos deixar que o desenvolvimento continue a inventar coisas que não correspondem às necessidades, nem à natureza humana", resume.

Apesar do altos e baixos, comuns à vida, o arquiteto agora abdicou dos sonhos por se dizer realizado. "Tenho uma satisfação interna de que fui correto como ser humano", observa para completar em seguida: "Estou feliz em poder voltar a trabalhar. Isso me basta". No momento, vem desenvolvendo um projeto de casas populares em Ipatinga (MG) e, em breve, vai expor maquetes, quadros e peças na Ufes. "É para ensinar os alunos", finaliza com simplicidade. Zanine, dizem arquitetos e urbanistas, é "dono de um olho atento e o melhor no fazimento arquitetônico do país". Alguém duvida? A capacidade de vender sonhos não é para qualquer um...

 

Nota do site: O autor trabalhou como repórter do Caderno 2, de A Gazeta-ES, no período de 1990 à 1998, quando produziu várias matérias que recontam acontecimentos e registros da História do Espírito Santo. Muitas vezes em parceria do repórter fotográfico Gildo Loyola.


Fonte: Anjos e Diabos do Espírito Santo, 2004
Autor: José Carlos Mattedi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2016

Personalidades Capixabas

Maurício de Oliveira

Maurício de Oliveira

Quem nunca viu um violão rir, cantar, chorar, lamentar-se, dançar ou meramente conversar, não viu o músico Maurício de Oliveira acariciar as cordas de seu Takamine, o violão utilizado por ele em suas apresentações. Nas mãos do mestre, este objeto inanimado de madeira com seis cordas se transforma. Cria vida e é capaz de arrancar suspiros involuntários da platéia, seja ela composta por duas ou duas mil pessoas. Como amante atencioso, Maurício de Oliveira conhece bem cada som de seu instrumento, e vê-lo tocar é um ato de profundo amor".

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