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O Milagre da Seca – Por Maria Stella de Novaes

Viagem de Nossa Senhora da Penha a Vitória, em 1769 - (Gravura do Século XIX. Oferta da Sra. Maria de Lourdes Melo Silva)

Decorreram alguns anos e uma seca jamais verificada no Espírito Santo assolou a Capitania, prejudicando-lhe todas as fontes da vida: — secaram-se os rios e os poços desapareciam os campos, morriam os rebanhos e as aves, encareciam os gêneros alimentícios, de modo que a fome rondava, já, a população. Tudo era tristeza e desânimo!

Enquanto, porém, as colinas e os montes circunvizinhos, cobertos de uma vegetação crestada pelo Sol, perdiam sua beleza natural, o Morro da Penha ostentava o frescor de sua mata magnífica, despertando, no povo, a idéia de recorrer à Virgem Santíssima, sua protetora infalível.

Organizou-se uma procissão marítima, com as embarcações daquele tempo e, numa lancha de pintura renovada, ricamente guarnecida de colchas cetinadas, flores e demais atavios, colocou-se a preciosa imagem de Nossa Senhora da Penha. Autoridades civis e militares, ordens religiosas e irmandades juntaram-se ao povo, nesse dia de fervorosa prece à Rainha do Céu.

Salvas das fortalezas!

Bimbalhar festivo dos sinos!

Espocar contínuo dos fogos!

E a Senhora da Penha chega à Vila da Vitória, recebida pelo delírio do povo:— Ave Maria! Santa Maria! Ave Maris Stella!

Segue a procissão pelas ruas embandeiradas, juncadas de flores e folhagens, enquanto, nas janelas, drapejam as colchas de damasco e cetim, as cortinas de crivo e rendas da Corte. Num andor, todo florido e coberto pelo rico pálio, especialmente preparado para esse dia memorável, a imagem da Senhora da Penha vem, cercada pela súplica do povo, arrebatado pela Fé! Todos rezam. Todos pedem a clemência do Céu: — Chuva!

O Sol tudo abrasa!

E o povo reza:— Ave Maria! Salve Rainha!

Chega a procissão à Ladeira do Convento de São Francisco.

Entra a Imagem na igreja. Anuvia-se aquele céu, antes, límpido, brilhante pela intensidade do Sol.

Chuva!

Chuva! — exclamam, uníssonas, milhares de vozes. Realizava-se o grande e suspirado milagre.

Lê-se, no "Poema Mariano sobre a Penha do Espírito Santo": —

 

XLV

 

Observa-se, porém, ao pé do monte

Atlântico do céu mais refulgente,

estar viçosa a flor, corrente a fonte,

firme a saúde, a dita permanente;

sem que faça calor, que o dia afronte;

sem que a peste infeliz oprima a gente;

porque dela lhe dá conta o seguro

deste sacro Sião, cipreste puro

 

Adiante: —

 

XLVIII

 

Chega a Senhora à terra e recebida,

em rico pálio de ouro marchetado.

Da turba acompanhada é conduzida

à Santa casa de Francisco amado;

inda não bem ao templo é recolhida

já todo o céu de nuvens carregado,

encobrindo do sol a formosura,

transforma o claro dia em noite escura.

 

XLIX

 

Apenas entra a Virgem, quando os ares

as nuvens vomitando sobre a terra,

parece com dilúvio, que nos mares

quer a água vingar do fogo a guerra.

Os verdes papagaios, nos pomares,

os barbados bugios, pela serra,

e, nos charcos, as rãs, cheias de glória,

estão cantando os vivas da vitória.

 

No mesmo ano (1769), registrou-se, a 1º de Agosto, na Vila da Vitória, impressionante fenômeno sísmico: — a terra estremeceu, como se estivesse a revirar-se, para esmagar a população que repousava do labor diurno.

Sacudido pelo fragor de uma descarga elétrica, na Penha, o povo de Vila Velha foi presa de incrível pavor, porque, segundo a imprensa vitoriense, todos que se encontravam no Convento e os habitantes da Vila caíram de bruços no chão... Calcularam que se tivesse desmoronado a montanha magnífica.

Repetiam-se os trovões, enquanto o solo tremia e aquela, eminência de onde, até então, se irradiava um fluido de Paz, agora parecia oscilar, oscilar, desde a base! Domingos de Caldas, assim relata: —

 

XXXIII

 

Inda em sessenta e nove, o sol girava,

visitando o Leão, que atroz rugia,

tendo no augusto mês, que começava,

uma só vez mostrado a luz do dia;

Morfeu os doces laços apertava;

o mar, o vento, o céu adormecia,

quando a terra, com grito assás ingente,

desperta os animais e acorda a gente.

 

XXXIV

 

Principia o tremor, no monte e vale;

aumenta a confusão da morte o susto;

pedra e tronco não há, que não se abale,

sendo o dano maior no mais robusto.

Agora só o assombro é bem que fale,

e se emudeça a voz no espanto justo,

vendo ficar cessando o infausto indício,

constante a pedra, imóvel o edifício.

 

Foi o primeiro raio caído, na Penha. Daí em diante, sucederam-se outros. O de 1843 deixou uma depressão nos ladrilhos da sacristia. Nenhum, porém jamais atingiu a sagrada imagem da Virgem Maria, apesar dos seus adornos de ouro, prata e pedras preciosas. É certo, portanto, o que diz o poeta: —

 

XXXVIII

 

Muitos com raro assombro têm passado

por entre a Virgem Mãe e o seu Menino;

outros têm, não sem dano, procurado

ao Senhor — Ecce Homo — autor divino.

Olha triste mortal, quão descuidado

continuas teu louco desatino,

sem ver que, quando a si Deus se condena,

mostra de tua culpa a sua pena.

 

XXXIX

 

Vê que nem sua Mãe já se reserva,

a qual do nosso dano ressentida,

no raio que a conhece e que a preserva,

golpe não encontrou, e está ferida;

Por seus rogos repara, atento observa,

que a Onipotência quis ser ofendida

mostrando no infalível do castigo

custar nosso perdão o seu perigo.

 

A 10 de Outubro de 1864, um furacão destruiu a Casa dos Romeiros. Acabaram-se as festas profanas, ruidosas, ali.

 

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição, 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2017

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