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O Rio Jucu e seus canoeiros

Capa livro - A História da Barra do Jucu - Autor: Homero Bonadiman Galvêas

O Rio Jucu nasce nas proximeidades da Pedra Azul, atual Município de Domingos Martins; passa por Marechal Floriano e depois, novamente por Domingos Martins, onde se junta o braço norte ao braço sul. Logo em seguida ele chega a Viana. Passa ainda por Cariacica e Vila Velha, vindo desaguar na Localidade de Barra do Jucu, junto a Pedra da Concha.

Com o passar dos anos vem sendo degradado por esgotos, desmatamentos, assoreamento, agrotóxico, lixo e pela intensa captação de suas águas para abastecer a Grande Vitória.

O Jucu é hoje de suma importância para grande parte da população do Espírito Santo, pois serve, com suas águas, a 70% da população da Grande Vitória, maior conglomerado urbano do Estado. Ainda hoje é um rico manancial, com uma grande variedade de fauna e flora no seu leito e em suas margens, com diversificadas paisagens, apesar do elevado grau de degradação que vem sofrendo, construção de represas e correções do seu curso.

A construção do canal de Camboapina (hoje chamado Rio Marinho) em 1740, que ligava o rio Jucu à Baía de Vitória, facilitando o tráfico de pessoas e mercadorias, marcou, como divisor de águas, a história deste rio e das comunidades ribeirinhas. Esse canal foi feito pelos jesuítas expulsos do Brasil e de Portugal, pouco depois, em 1759-60. Após essa expulsão, o canal não perdeu a importância, pois a população em seu entorno, durante o século XIX, só foi aumentando e ele era a principal via de comunicação com a capital. Tantas eram as comunidades na região que ali foi fundado, já no século XX, o Município de Jabaeté, que hoje não existe mais.

Entre fins do século XVIII e princípios do XIX, esse canal ficou muito tempo abandonado pelos governantes, mas continuou sendo utilizado, apesar de, em algumas partes, a navegação estar muito prejudicada, exatamente por este desleixo das autoridades em fazer obras de reparos, manutenção e limpeza. O primeiro governante que se preocupou com isso foi Francisco Alberto Rubim (1812 a 1818), efetuando essa tarefa como uma das primeiras do seu mandato, desentulhando o canal, que estava obstruído.

O Rio Jucu, segundo Basílio Daemon, era navegável, por canoas e pequenos vapores, até um pouco além de Caçaroca, aproximadamente 20 km da foz, tendo como afluentes, além de inúmeros ribeirões, os rios: Araçatiba, Jacarandá e Jucunema.

Interessante notar que o canal de Camboapina é chamado por Daemon, de Ribeirão do Peixe-Verde, nome dado, no início da colonização, ao Rio Jucu, pelo cacique Pira-obig, que veio fundar, em 1556, o aldeamento jesuítico de Aldeia do Campo Novo (posteriormente anexado ao de Araçatiba, formando a grande fazenda homônima). Pira-obig, em português, significa peixe-verde. Daemon diz que esse rio (que na verdade é o canal dos jesuítas) ligava o Jucu a Vitória, e que nele desaguavam o Braço do Sul e o Rio Formate.

Daemon confirma a existência de uma ilha em frente à foz do Rio Jucu, o que pode ser observado ainda hoje, muito rica em fauna e flora marinha.

Os jesuítas penetravam por este rio até a foz do rio Jacarandá e subindo-o, alcançaram a pedra de Araçatiba. Fundaram ali uma residência e uma grande fazenda. Fizeram uma obra fundamental para o seu tempo, o Canal de Camboapina, que interligava Araçatiba ao Colégio Provincial de São Thiago, em Vitória, encurtando o caminho. Media 2 léguas, cerca de 12 km. Foi feito em 1740 e, até mais da metade do século XX, serviu às comunidades ribeirinhas, para o transporte de mercadorias, além de pessoas, em canoas de pequena e média tonelagem.

No século XVIII, capitão Velasco e Molina e padre Bartolomeu Martins receberam sesmaria de uma légua de largo e três de comprimento, do interior às margens do Rio Jucu, sendo dos primeiros a penetrar esses sertões.

A Barra do Jucu, já em princípios do século XIX, era a principal povoação da Vila do Espírito Santo (atual Vila Velha). Ficava na foz do Rio Jucu e contava com uma colônia de pescadores, rica em pescado e muito produtiva.

Durante todo e século XIX, passaram pelo Espírito Santo renomados viajantes estrangeiros, já citados neste trabalho. Todos os que passaram pelo Rio Jucu nos falaram sobre suas riquezas naturais, grandes florestas e variedades de espécies animais.

Maria Stella de Novaes informa sobre a perfuração de poços artesianos em 1886, para tentar resolver o problema da falta d’água em Vitória. No período de seca, a água vinha do Rio Jucu, em canoas, pelo rio Marinho.

A mesma autora fala que a 6 de março de 1905, Aristides Navarro abre o fornecimento de água para o povo de Vitória (um barril por família) água que vinha, em canoas, do Rio Jucu. Isto já demonstrava a utilidade deste grande rio e a importância de sua preservação. Em 1910, Jerônimo Monteiro faz rede de águia encanada ligando direto às casas, a água da Fonte Grande.

Durante a revolução de 1930, vários governistas vieram de Vitória, pelo rio, para a Barra do Jucu, à espera das coisas acalmarem, enquanto Getúlio Vargas assumia o poder e os escorraçava.

Segundo os entrevistados, o Rio Jucu tinha, em sua foz, um manguezal considerável, lugar de reprodução de inúmeros animais, tanto da água salgada, como doce. Tinha ainda um belo estuário. Mais acima se encontravam florestas e restingas, cuja riqueza animal e vegetal era imensa. Algumas dessas matas, como Juçara, sofriam inundações periódicas, semelhantes as que ocorrem na floresta amazônica (O juçara é hoje conhecido como Ilha da Jussara, embora fosse composto por um conjunto de ilhas. Meu pai conta que quando ia lá desenhar, sempre me levava em sua bicicleta ou no fuscão 72. Nesta época não havia nenhuma casa na região).

Como já disse, a atividade de canoas pelo Rio Jucu e canal de Camboapina não cessou com a expulsão dos jesuítas e até aumentou durante os séculos XIX e XX. Sua interrupção se deveu à construção de duas barragens para captação de água, construídas pela Cesan, a partir da década de 1950.

 

Fonte: A História da Barra do Jucu, 2005
Autor: Homero Bonadiman Galvêas
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2012 

 

 

 

 

 

 

 

 



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