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Os meandros da prática política estadual

Ponte que foi inaugurada no lançamento do Loteamento Camburi

A partir desse quadro geral, podemos, de agora em diante, embrenharmo-nos na “mata escura” da micropolítica capixaba do período compreendido pelo nosso tema, que se situa entre os anos de 1928 e 1930. Entretanto, para um melhor entendimento desse espaço temporal, faz-se necessário pinçarmos alguns fatos políticos importantes ocorridos em anos anteriores. Utilizamos a metáfora da “mata escura” com o intento de realçar e reiterar que estamos penetrando em um território ainda muito pouco explorado dentro da historiografia espírito-santense. Em que pese o temor deste capítulo se tornar muito factual, no entanto, faz-se premente esse estudo para podermos descortinar as conexões existentes dentro dos sinuosos caminhos da prática política.

Utilizamos, como suporte para desenvolver o segundo e terceiro capítulos, dois dos principais jornais espírito-santenses editados à época. O primeiro se chamava Diário da Manhã, era o jornal do Partido Republicano do Espírito Santo e tinha um contrato com o governo do Estado para publicar os atos do executivo e do legislativo. Pertencia ao Coronel Marcondes Alves de Souza e, entre os anos de 1928 a 1930, foco desta dissertação, esteve sob a direção de seu filho Marcondes Junior. Após a Revolução de 1930, o Diário foi encampado pelo Governo e, embora tenha continuado com o mesmo nome, foi transformado efetivamente em diário oficial. O segundo, mas não por isso menos importante para a consecução do nosso trabalho, se denomina A Gazeta. Este se transformou em parte integrante da principal rede de comunicações do Espírito Santo na atualidade.  

O jornal Diário da Manhã foi fundado em agosto de 1907, com o propósito de defender a causa da situação em todas as ocasiões, deixando sempre transparecer que as decisões tomadas pelos poderes constituídos foram as melhores e as mais acertadas. Já A Gazeta foi fundada em setembro de 1928, com a intenção de fazer propaganda de um novo loteamento em Camburi. “A firma Cambury precisava vender lotes. Viu que um jornal poderia ser bom instrumento de propaganda para atingir seus objetivos. O dono da imobiliária, Hostílio Ximenes, chamou o advogado, professor e jornalista Adolpho Luís Thiers Vellozo. E ele topou.” Entretanto, é interessante destacar que o Diário da Manhã também fazia a divulgação dos lotes em Camburi. Tanto propaganda em locais e destaques apropriados, quanto subentendidas ou camufladas, pois, após o lançamento desse loteamento, era uma constante, dentro do jornal, referências enaltecendo as qualidades da localidade, com dizeres como praia paradisíaca e, ao mesmo tempo, frisando a pequena distância de Vitória, apenas 20 minutos de carro. O Diário chegou a sortear um lote em Camburi, que foi doado pelos empreendedores, entre os leitores “a titulo de bôas-festas”. Fazendo uma leitura mais apurada, ficava transparente  existência de uma ligação entre o jornal e os donos do loteamento. Partindo desse fato e como é evidente que o Diário, o Partido Republicano e o Executivo estavam todos entrelaçados, podemos inferir que a inauguração da nova ponte da passagem em dezembro de 1929, construída pelo Presidente Aristeu, além de atingir outros interesses como a melhoria da estrada para o município da Serra, estava privilegiando o loteamento em Camburi. Na foto número 01 está representada a nova ponte durante as festividades inaugurais.

Embora tenha sido bastante divulgada, a região de Camburi não alcançou o seu desenvolvimento nesse período da história da capital capixaba, permanecendo um longo tempo como uma praia deserta, um lugar “paradisíaco.”

No início da circulação de A Gazeta, não existiam divergências entre os dois jornais, inclusive Thiers Vellozo tinha acabado de retirar-se da chefia de redação do Diário da Manhã. Um dia após a publicação inicial de A Gazeta, saiu na primeira página do Diário a seguinte nota:

 

Circulou, hontem, a A Gazeta, o nosso novo diário vespertino.

Bem feito, variado, com bôas secções, o apparecimento do brilhante confrade foi, sem

duvida, o melhor acontecimento de hontem.

Desejando ao collega a realização integral do seu bello programma, que é um formoso

padrão de cultura e de ideal jornalístico, felicitamos os seus redactores pelo brilhantismo da estréa.

 

Os jornalistas desses órgãos de imprensa nem de longe poderiam imaginar o entrevero que começaria a existir entre os dois após A Gazeta passar a ser dirigida por Affonso Lyrio, advogado e jornalista, que já fazia oposição ao governo no jornal Folha do Povo. Depois do nascimento da Aliança Liberal, o vespertino A Gazeta passou a apoiá-la sistematicamente e, ao mesmo tempo, intensificou a oposição aos governos estadual e federal. Com o acirrar dos acontecimentos, os dois jornais se transformaram em fervorosos rivais até a vitória dos revolucionários. Após esta, Affonso Lyrio fez parte da Junta Governativa que governou o Estado durante um curto período, em companhia de João Manoel de Carvalho e do Capitão João Punaro Bley. Quando da escolha definitiva de Bley para a Interventoria, Lyrio foi nomeado Secretário do Interior. 

 

 

Fonte: Aristeu Borges de Aguiar, um presidente atropelado pela história, Vitória/2008
Autor: Flávio Calmon Wanick
Pesquisa e Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2011



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