Passarinhos - Rubem Braga e Ruschi

Editor: Morro do Moreno - publicada: 09/01/2013

Rubem Braga e Ruschi

Muito falei do naturalista Ruschi. É aquele homem que cria beija-flores (foi o primeiro sujeito no mundo que conseguiu isso) e que tem espalhado beija-flores pelo Brasil e pelo mundo. Visitei-o outro dia em Santa Teresa (três horas de automóvel para o norte de Vitória, no Espírito Santo) e conversamos sobre aves. Ele me contou que ficou indignado quando leu nos jornais que para aquele banquete da posse do presidente Juscelino o governo importara não sei quantas centenas de faisões da Europa. Os faisões, me explicou, são do Oriente, e é muito mais fácil criá-los no Brasil que na Europa. Já há quem crie no Brasil, ele mesmo sempre teve alguns casais. Entendeu-se com um amigo que vive em Teresópolis e organizou para ele uma criação de faisões; para o primeiro banquete de Brasília- capital promete dar de presente tantas centenas de faisões quantas forem necessárias.

Perguntei ao Ruschi se a carne do faisão é tão boa mesmo, ele disse: "é, parece a do macuco". Então começamos a conversar sobre macuco, jacu, mutum, essas aves que estão sumindo do Brasil; perguntei se não era possível criá-las, ele disse que é facílimo. A conversa passou depois para o bicudo. O bicudo, passarinho de gaiola dos mais queridos do Brasil (há uma confraria secreta de amigos do bicudo, da qual faz parte, por exemplo, o editor José Olimpo) é um bicho que nunca ninguém criou em cativeiro, mesmo porque geralmente só se caça o macho. Ruschi me explica que em gaiola bicudo não se cria mesmo, ele precisa de algum espaço para seu vôo nupcial, como acontece com outros pássaros. A espécie tende a desaparecer com rapidez inclusive porque o bicudo é... monógamo. A fêmea põe duas vezes ao ano, sempre um casal; se um dos machos morre por algum motivo, ou é caçado, as fêmeas que sobram não se reproduzem.

Por que não fazer então uma criação de bicudo? Vale a pena: por menos de três contos não se compra hoje no Brasil um bicudo já "virado" que preste. E, já que existe o Ruschi, por que não criar também corrupiões, xeréus, curiós, graúnas, tanto pássaro encantador que o Brasil tem e está se acabando? Apelo para os amantes de passarinhos brasileiros que tiverem algum espaço e algum dinheiro: escrevam para o Dr. Augusto Ruschi, Santa Teresa, Estado do Espírito Santo, peçam a ele instruções para criar passarinhos. Não é triste criar apenas pássaros mais canoros, mais engraçados e mais amigos do homem que estão ameaçados de acabar para sempre? Escrevam ao Ruschi; ele ficará danado comigo, mas, apaixonado como é por essas coisas, não terá coragem de negar ajuda a ninguém (Rubem Braga).

 

Fonte: Crônicas do Espírito Santo, 1984 - 1ª Edição
Autor: Rubem Braga
Nota: Livro doado a Casa da Memória de Vila Velha por Jonas Reis, abril/1985
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2012
Nota: Tiragem de 5.000 exemplares , 3.000 se destinam a distribuição gratuita, pela Secretaria da Educação e Cultura do Estado do Espírito Santo

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