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Principais Clubes Republicanos no Sul do Estado

Capa do Livro: A República no Espírito Santo e Outros Estudos - 2ª edição ampliada e anotado pelo Autor, organizada por FERNANDO ACHIAMÉ - IHGES, 2017

Principais Clubes Republicanos no Sul do Estado(14)

No Espírito Santo,(15) principalmente no sul do estado, a propaganda foi muito ativa e intensa. [Chega-se a essa conclusão] examinando vários documentos, que pertenceram ao venerando republicano Saldanha Marinho, oferecidos, em 1918, ao Arquivo da Prefeitura do Distrito Federal.

A 23 de maio de 1887 foi fundado o Clube Republicano do Cachoeiro de Itapemirim. Em ofício de 8 de junho, o presidente do Clube agradecia a Saldanha Marinho, "como chefe do Poder Executivo do Partido Republicano do Município Neutro", as congratulações que este enviara em resposta à notícia da fundação do mesmo Clube. Anunciava, em seguida o número de sócios, inclusive alguns estrangeiros, "pois o nosso clube não distingue nacionalidades nos obreiros do progresso".

Naquele tempo, o presidente do clube era o ilustre Dr. Joaquim Pires de Amorim.

Outro ofício, da mesma procedência, respondia a uma circular do acatado chefe do partido, a propósito das deliberações que haviam sido firmadas pelo Congresso Republicano do Município Neutro.

Entre os documentos que pudemos examinar, quando foram confiados à Prefeitura, vimos também uma cópia autêntica da ata da assembleia geral realizada no clube, em 20 de junho de 1887: por 16 votos, foram eleitos José Romaguera da Cunha Correia e Henrique Deslandes, deputados ao Congresso Nacional Republicano. Para suplentes foram designados o Dr. Raimundo de Sá Vale, por 16 votos, e o Dr. Eugênio Valadão Catta Preta, por 10; o Dr. Júlio Borges Diniz obteve apenas 6 votos. O Congresso estava convocado para se reunir, no Rio de Janeiro, a 30 daquele mês.

Na sessão comemorativa do aniversário da fundação do clube, em 23 de maio de 1888, foi eleita a nova diretoria, que ficou assim constituída: presidente, Dr. Antônio Gomes Aguirre; secretário, farmacêutico Bernardo Horta de Araújo; tesoureiro, Henrique Wanderley e subsecretário, João de Loiola. Esse último propagandista, que, no ano anterior, servira como secretário do clube, foi proprietário do Cachoeirano, o tradicional órgão do partido republicano no Itapemirim.

A comunicação da nova diretoria foi transmitida em ofício de 9 de junho de 1888, com a notícia de que, nesse mesmo mês, seriam realizadas as primeiras conferências de propaganda. Bernardo Horta, como secretário, encerrava-o com a fórmula "paz e fraternidade".

Em resposta a uma circular de 10 de junho de 1888, um ofício do clube, datado do dia 16, assegurava inteira solidariedade no propósito de hostilizar francamente o terceiro reinado "em todo e qualquer terreno”. E comunicava ainda que os propagandistas estavam resolvidos a votar exclusivamente em correligionários indicados por escrutínio prévio. Acrescentava: "o exemplo recentemente dado pelo Clube Republicano Rio-Grandense, da eliminação de republicanos que auxiliarem candidatos monarquistas, nós já o praticamos em 18 de janeiro de 1888, com um associado nosso, que teve igual procedimento".

Esse documento foi acompanhado de uma cópia da ata da eleição dos representantes do clube ao Congresso Republicano, no biênio de 1889 e 1890: por maioria absoluta, haviam sido reeleitos os mesmos deputados, escolhidos em 1888, servindo como suplentes Leopoldo Rocha e o Dr. Raimundo de Sá Vale. Anexou-lhe também urna lista de 37 nomes de sócios inscritos.

Esse ofício aludia aos clubes já existentes em São José do Calçado e no Alegre.

Sob o n° 30, o clube dirigiu a Saldanha Marinho um longo oficio datado de 8 de agosto, ainda de 1888. Referia-se, a princípio, à publicação feita no Cachoeirano das bases fixadas para a reunião do Congresso Provincial, que teria de escolher cinco delegados para o Federal. Sobre esse assunto, a diretoria informava que já remetera comunicações para as seguintes localidades "onde existem (explicava o ofício) quer clubes, quer núcleos republicanos: Anchieta, Vitória, São Mateus, Alfredo Chaves, Vila de Itapemirim, Alegre, Calçado, Itabapoana, Conceição do Muqui, Rio Pardo e Espírito Santo do Rio Pardo". Anunciava ainda que no dia 15 (naturalmente de agosto) ia ser instalado um clube em Conceição do Muqui, e no dia 19 outro em São Pedro de Itabapoana. Constava que pouco tempo depois seriam funda - dos mais dois: um no Castelo e outro no Espírito Santo do Rio Pardo.(16) Por último, o mesmo ofício tratava de um artigo que havia sido publicado em O País sobre a agitação republicana no Espírito Santo.

No Calçado já existia o Clube Republicano Tiradentes, quando foi abolida a escravidão: a moção congratulatória que, por esse ato, o referido clube enviou a Saldanha Marinho e Quintino Bocaiúva, além das assinaturas de 22 sócios, está subscrita pelos seguintes membros da diretoria: presidente - Dr. Germano Chaves Tiradentes; vice-presidente - Pedro J. Fernandes Medeiros; 1° secretário - Aureliano Medina; 20 secretário - João Guilherme de Souza; procurador - Marcolino Celestino Vieira.

Na freguesia de São Pedro de Alcântara do Rio Pardo, por iniciativa do capitão Francisco Lopes Pimenta e do tenente Florentino Gomes da Silva Laura, a 24 de junho de 1888, foi fundado o Clube Republicano São João da Escócia. Um manifesto desse clube, datado de 30 de julho, registrava a seguinte diretoria: presidente - Florentino Gomes da Silva Laura; secretário - Domingos José de Oliveira; subsecretário - capitão Carlos Rodrigues Pereira; tesoureiro - Tibúrcio Ribeiro Velasco.

Nos três anos que precederam à queda do Império, os princípios republicanos vinham evidentemente sendo pregados, com muito entusiasmo, no sul do estado. De todas as províncias surgiam, a cada instante, novas adesões à República. De um extremo ao outro do país ecoava a palavra inflamada de Silva Jardim, evangelizando e difundindo os novos ideais.(17)

Nos últimos tempos, forçoso é confessar, com a libertação dos escravos o Império alienara as simpatias dos senhores de senzalas. Entre os velhos papéis de Saldanha Marinho, há realmente uma carta apaixonada de lavrador do Itapemirim, afirmando que a monarquia "só serviu para iludir a lavoura", tendo sido todos "roubados com os pretos com a má lei de 13 de maio". E concluía assim, com despeito: "ficamos pobres e, por isso, a monarquia tome rumo; o governo deve ser feito pelo povo" (vide, nesse sentido, Calógeras, Formação histórica do Brasil, 340 e 351).

Apesar de depoimentos como esse, pode-se afirmar que, em geral, por todo o Brasil, o esforço admirável da propaganda não foi obra de escravagistas.

No Espírito Santo, a sementeira vinha de longe. Ao escrever, antes de 1880, a História e estatística da Província [sic], Basílio Daemon(18) reconhecia, à p. 264, já haver alguns republicanos espírito-santenses.(19)

 

NOTAS

(14) Reproduzido na RIHGES 12, 1939. [O autor se refere ao ensaio "A República no Espírito Santo", em que aproveitou muitos trechos deste artigo, publicado originalmente na Vida Capichaba de 15 de novembro de 1925].

(15) [Trecho inicial suprimido pelo autor: "Em uma das primeiras páginas do livro Sob o Cruzeiro do Sul, dom Luís de Orleans alude à rapidez dos acontecimentos de 15 de novembro de 1889, asseverando que, 'durante toda a revolução o povo brasileiro, inteiramente alheio ao movimento das classes armadas, permaneceu sob a impressão de um assombro, que o impediu de manifestar sua opinião sobre os fatos consumados. // A atitude do elemento popular, no advento da República, tem sido analisada, por alguns escritores, com expressões inexatas e profundamente injustas. // Em ligeira referência aos sucessos daquele dia, feita no Tratado de Ciência da Administração, Viveiros de Castro, por exemplo, afirma que, 'tendo perdido inteiramente a fé no regime monárquico, o povo brasileiro assistiu indiferente (e não bestificado) a sua queda, porque estava convencido de que não era possível piorar'. Nessa apreciação o escritor quis naturalmente se referir a uma rude e conhecida frase que, durante muito tempo, teve grande curso, favorecido pelo despeito de alguns monarquistas. // A explicação do falecido príncipe, se não é perfeita, não encerra, como a do referido tratadista, lamentável injustiça à patriótica e arriscada propaganda republicana, desenvolvida em todo o país nos últimos anos da monarquia.”].

(16) [O autor repete essa informação algumas vezes].

(17) [Parágrafos seguintes suprimidos: "O notável professor Alfredo Varela, a certa altura do discurso preambular do Direito constitucional brasileiro, formula a seguinte pergunta: 'o povo assistiu bestializado, como se disse, ao extraordinário ato de 15 de novembro?' E logo a seguir dá concisamente esta resposta: 'Não. A propaganda de há muito lhe fazia esperar e desejar a República’ / É a justiça que se deve fazer ao trabalho brilhante dos propagandistas"].

(18) [O autor se refere à obra de Basílio Carvalho Daemon, Província do Espírito Santo: sua descoberta, história cronológica, sinopse e estatística, editada pela primeira vez em 1879].

(19) [O autor suprimiu o trecho final: "Não podia deixar de ser assim, na terra que viu nascer Domingos Martins, o herói que se deixou sacrificar pela República, desferindo, mesmo ao morrer, um grito altivo de liberdade! / Rio, 12-X-1925. / MÁRIO A. FREIRE". Segue-se o documento "Reportagem de Barros Vidal".

 

Fonte: A República no Espírito Santo e Outros Estudos - 2ª edição ampliada e anotado pelo Autor, organizada por FERNANDO ACHIAMÉ - IHGES, 2017
Autor: Mário Aristedes Freire
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2019

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