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Tanus Sarkis Chelouhi - Por Sérgio Figueira Sarkis

Tanus Sarkis Chelouhi, Rebatizado como Antônio Miguel, no dia do casamento com sua segunda esposa, Azize Tahan

O cidadão mencionado no título, com nome muito esquisito para nós, brasileiros, era o meu avô paterno, aqui rebatizado como Antônio Miguel. Foi um comerciante próspero na cidade de Vitória, durante o final do século XIX até a década de 1940 do século XX.

Nasceu na província de Dar Bechtar, região do Bekaa, no Líbano, no dia 11 de agosto de 1859. Casou-se na sua terra natal com Marem Bouchehin e, desta união, teve uma filha, de nome Hane.

 Ainda jovem, incentivado pelas constantes saídas de seus conterrâneos para o Brasil, resolveu viajar para cá, deixando mulher e filha em Dar Bechtar. Não sabemos por qual razão, veio para Estado do Espírito Santo.

Acreditamos ter sido convidado por algum patrício local, situação muito comum naqueles tempos. Ao chegar, recebeu dele proteção total, inclusive colocando-o a trabalhar como mascate, com mercadorias cedidas em consignação.

Desenvolveu esta atividade por uns bons anos e, mercê de seu espírito de comerciante, conseguiu juntar algum recurso financeiro. E isto lhe permitiu estabelecer-se no Centro de Vitória, na Avenida Jerônimo Monteiro 285.

Era um prédio assobradado, com algumas lojas comerciais no térreo e, na parte superior, sua residência. Nesta ocasião, recebeu a notícia do falecimento da esposa, Maren. Sua filha Hane, já casada com Geies Risk, estabelecido como comerciante, não demonstrou desejo de sair de lá para o Brasil.

Desta união, Hane deu à luz a oito filhos. Alguns vieram para Vitória: Nagib Rizk, Maria Surraf e Haula Sassine. Todos residiram por aqui durante muitos anos, trabalhando também no comércio — e aqui faleceram.

Após vários anos de viuvez, vovô casou-se com Azize Tahan, também de origem libanesa, vinda de Beirute, no dia 8 de junho de 1907. O casal passou a morar na parte residencial do prédio do meu avô.

No dia 11 de agosto de 1909, vovó Azize deu à luz ao meu pai, Miguel Antônio. Este, durante toda sua vida, foi conhecido como Michel. Alguns anos depois, durante o parto de outro filho, minha avó Azize veio a falecer, juntamente com a criança.

Mais uma vez viúvo, vovô nunca mais se casou, criando papai sozinho e com a ajuda de cunhados no Rio de Janeiro.

Foi nesta cidade que papai aprendeu as primeiras letras, no Colégio Pio Americano.

Quando papai atingiu a maioridade, vovô tornou-o sócio da firma comercial. Esta passou a denominar-se Antônio Miguel & Filho. Ela existiu até o início da década de 1940. Por desinteresse de papai pelos negócios, foi adquirida por Nagib Jorge Rizk, que a manteve até o fim de sua existência.

Não obstante meu avô ter sido alvo de muitas histórias engraçadas, algumas delas aqui contadas, era excelente comerciante na área de tecidos. Atuava tanto como atacadista quanto como varejista. Fornecia para todo o Estado do Espírito Santo.

Comerciando para os mais longínquos lugares, permitindo vendas a crédito nem sempre honradas, desfaz a ideia de ser ele um usurário de escol. Além da atividade comercial, vovô foi, por várias vezes, convidado pelo Governo Estadual a dar sua opinião sobre assuntos de interesse público, conforme fax símile do convite do presidente do Estado, senhor Henrique Coutinho, reproduzido na página a seguir.

Vovô ficava sempre sozinho, trabalhando e dando a impressão a todos de viver uma vida de miserável. Por não ter uma mulher para cuidar dele, dificilmente trocava o terno, pois achava o mesmo em excelente condições de uso. Imaginem, então, o que se falava dele pela cidade: pão-duro, miserável etc. e tal.

 

 

Nota do Autor: Há muito, pretendia escrever alguma coisa da minha memória, levando causos ocorridos comigo ou com outras pessoas que me foram transmitidos de forma agradável e hilariante. Meu dilema era: como fazer? não tinha início, nem meio e, muito menos fim. E, invariavelmente, vinha a preocupação deles perderem o charme quando expostos em texto.

Contados verbalmente, tem sabor diferente, agradando a que os ouve. E escritos? Conseguiria eu dar a entonação necessária, estimulando o leitor a continuar até o fim? Entre dúvidas e certezas, amadureci esta ideia anos. Até que decidi: vamos ver como fica! O resultado é este. Tirei da cabeça, coloquei no papel. Eu revisor deu uma boa arrumada.

Me perdoem aqueles que, envolvidos nos fatos, tenha esquecido de mencionar. E os citados não sintam-se ofendidos ou magoados. Minha intenção nunca foi esta.

Espero que gostem,

Sérgio Figueira Sarkis

 

Todo os direitos reservados ao autor.

Partes desta obra pode ser reproduzida por qualquer meio, desde que citada a fonte.

A foto da capa é de Paulo Bonino.

As fotos do miolo são do acervo familiar e de arquivos digitais públicos; as que fogem a isto têm suas origens identificadas junto a suas legendas.

As principais fontes de consulta para este trabalho, além da memória pessoal, foram os livros Os dias antigos, de Renato Pacheco, edição de 1998; A ilha de Vitória que conheci e com quem convivi, de Délio Grijó de Azevedo, 2001; Tipos populares de Vitória, de Elmo Elton, 1985; e, Coquetel de saudades, de Dario Derenzi, 1980.

Revisão, edição e editoração
João Zuccarato
DDD 27 – Telefone 3314-2757 – Celular 9-8112-6920
Textos@textos.etc.br 

Impressão
Gráfica Universitária
DDD 27 – Telefone 4009-2389
www.grafica.ufes.br

A verdadeira viagem se faz na memória.

Marcel Proust

 

 Dedicatória do autor: Dedico este livro à minha querida esposa Regina; aos filhos Sérgio, Michel, Andréa, Alexandre e Ricardo; e aos netos Pedro Henrique, Ingrid, Carolina, Leonardo, Thiago e Victória

SFS

 

Fonte: No tempo do Hidrolitrol – 2014
Autor: Sérgio Figueira Sarkis
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

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