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Você se lembra? - Por Ronaldo Nascimento

Regata na Baía de Vitória

Parece que foi ontem, entardecer primaveril, lua cheia saindo redonda, iluminando a entrada do canal de Vitória, lá pela Curva do Saldanha da Gama, meio escondida entre as poucas nuvens que flutuavam sob um céu azul.

Perigo não havia, poluição também não, e de mãos dadas, eternos namorados, Dª Gilmir e Dr. Meirelles caminhavam à beira-mar. Mais atrás, livre da labuta do Fórum e dos cartórios, Dr. Jair Dessaune e Dª Laurita formavam outro par romântico, alheios ao tempo que passava.

Na Praça Oito, entre um cafezinho e outro, os médicos Benjamim Buaiz e Hilderico Araújo, e o professor Adhemar Martins falavam em política, enquanto que na banca de jornais do Vasco, futebol era o assunto, discutindo-se a última goleada que o Santo Antônio impôs ao Rio Branco, com golaços do artilheiro Tom Pedra. Para tristeza de Salomão Nader o Americano estava em baixa, mas a Nação de Jucutuquara tinha seus ídolos, Goli, Zig, Dodoca, Monte e Hélio, distribuídos nas equipes do Vitória e Rio Branco.

Os aficcionados do remo apostavam no esquife de Caranguejo, comentavam sobre a dupla Harri e Arruela, enquanto Alfredo Morgado Horta, saldanhista doente, entre um copo e outro de cerveja Pilsen, aos gritos, afirmava que a regata de domingo contra o Álvares Cabral seria uma barbada.

Nos bancos da Praça Costa Pereira, Carlos Augusto Aragão, Ronaldo Araújo, Frederico Barros, José Ignácio Ferreira, Fernando Piovesan, estudantes do Colégio Estadual, ouviam atentos as “dicas” do guru Paulo “Fura-Saco” Tavares, sobre o aniversário da noite, e a estratégia a ser usada para penetrar na festa. O Clube dos Penetras era coisa séria. Com carteirinha e tudo!

A Praia de Camburi estava longe, local deserto, onde o acesso só poderia ser feito pela Ponte da Passagem. A geração dourada ia para as praias do Barracão e Trampolim, onde o Walter e o Bar Michel, reuniam a moçada bonita da cidade. Jogava-se futebol na areia e Vânia Sarlo, ousada para sua época, entrava nos rachas com os peladeiros Victor Sarlo, Rogério Medeiros, Mandinho Gonçalves, Rominho Nonatto, Paturi e tantos outros.

E como há tempo que passa e o tempo não sente, a poesia era maior na orla da Praia do Canto, mar batendo nas castanheiras, às vezes atravessando as muradas e chegando à Saturnino de Brito, quase atingindo a casa dos Schllemn, Ruschi, Delano, Vivacqua, Von Schilgen, Madeira e tantas famílias tradicionais do bairro.

Era Vitória da Favela de Ouro e Favela de Prata, meninas bonitas, Nieta Pretti, Ana Maria Castello Leite, Heloísa Ferrari, Geruza Fundão, Verinha e Florita Santos. E mais abaixo, passando pela casa dos Nascif e atravessando o Viaduto, íamos encontrar a sentinela avançada onde morava Roberto Ferraz, e mais em frente a beleza loira de Regina Castro, vizinha de Nádia, Nilma e o caçula Vitor Buaiz.

Fizesse sol ou chuva, a tarde de domingo pertencia ao Cine São Luiz, onde a nova geração marcava encontro, e o jornalzinho em cores e perfumado com sabonete Forsly, era a atração maior que eu e Antônio Luiz Horta lançamos, contendo a programação cinematográfica e mexericos sociais.

E quem não se lembra do Bob’s na Rua Sete, Dominó no Parque Moscoso e Confeitaria Pinguim, na Avenida Capixaba, onde depois do footing dominical, em volta da Costa Pereira, ia-se tomar Sunday ou guaraná Prado, e saborear os deliciosos pasteizinhos de leite?

Tinha mais ilha: O Clube Vitória e o Praia Tênis Clube com suas festas inesquecíveis, vestidos longos, feitos por Armênia Corteletti e bordados por Paulina Ferrari, e smokings e summers bem talhados por Taneco, Joca e Camiseiro Nascimento, para a festa das Debutantes, Dez Brotos, Menina-Moça e os saudosos réveillons do Aristocrático do Moscoso.

Bossa Nova, twist e rock’n roll já começavam a animar os galetos dançantes do Iate Clube, às quintas, e a turma da varanda falava na próxima Volta da Taputera, ao som do Barquinho, que trouxe Maísa Matarazzo, Ronaldo Bôscoli, Bebeto e Roberto Menescal, por uma temporada que merece outra crônica.

Estudava-se e estudava-se muito, sem greves e a disciplina era imposta por educadores como Aristóbulo Barbosa Leão e Alberto Stange. A eles, e aos professores José Leão, Renato Pacheco, Talmo, Meira Quadros, Balbino, Zilda, Luiz Buaiz, Expedito, Clóvis Rabello, Nelson Abel de Almeida, Leandro Nader, Ruy Lora, Iracema, Sílvio Crema e tantos outros, parte de nossa geração deve grande agradecimento.

Quando o mês de agosto se aproximava, Escola Normal, Ginásio São Vicente, Colégio Salesiano, Colégio Estadual e Colégio do Carmo iam para as ruas treinar o garboso desfile de 7 de setembro. E cada qual queria ser melhor no grande dia...

Mas a vida não se resumia apenas ao Centro, Praia, Jucutuquara e Parque Moscoso, Em Santo Antônio o serviço de alto falantes do Racing Futebol Clube mantinha excelente programação e descobria novos talentos para Rádios e Jornais: Elisson de Almeida, Nabor Vidigal, Anselmo, Edmar, Tião Barrica, Fernando “Jacaré” Jackson e José Américo Vidigal, que ganhou contrato na Voz da América e partiu para os Estados Unidos e nunca mais voltou. Santo Antônio era lugar de bambas e do Fred’s, bar que não fechava, pois afinal não tinha portas.

Como era alegre minha ilha e seus tipos populares: Mané Cadê Minha Égua, Américo Rosa, Meio Fio e o triângulo amoroso, Otinho-Rosa-Violão.

Cidade das noites indormidas, boêmias, Volta de Caratoira, com Casa Verde, Portão de Ferro, Casa Branca, a eterna Aurora Gorda, e as madrugadas longas de ver sol nascer, ao sabor de uma galinha ao molho pardo, preparada por Nelsinho, no Restaurante Mar e Terra.

Mas na General Osório, em frente A Gazeta, 120 e 130 também abrigavam o pecado, e Maria Tomba Homem, na Ilha do Príncipe, encarava qualquer marmanjo que pisasse na bola, porque afinal o ambiente exigia respeito.

A cidade das “meninas dos meus olhos, onde são lindos os olhos das meninas”, nos versos da jornalista Ivone Amorim, tinha seus saudosos carnavais de rua, dos blocos sujos, do tablado, do Bar Sagres e dos primeiros “gays”, Arnaldo, Campista e Windilino, que fantasiado de baiana era o sucesso do tríduo momesco.

Poucos se lembram do bonde das almas, do bagageiro que carregava os feirantes, do Comissário Lins e do Bar C. da mãe, com suas manteiguinhas e seu Toddy tão procurados pelos notívagos da Costa Pereira.

A ilha não é mais a mesma, sem Boate do Clube Vitória, Butéko, Cave, Ana Maria Batalha, e Verinha Espíndula cantando “Sabor a Mi”, e Lulú Belesa encaixotando sereno e mostrando que tem no sangue e na voz os tangos de Gardel.

Sua geografia, entretanto, continua a mesma, linda e imprensada entre o mar e as montanhas, por que isso não se pode mexer. O Velho Casario deu lugar aos modernos edifícios e o Mercado da Vila Rubim, Quartel dos Bombeiros do Parque Moscoso e a antiga Prefeitura não existem mais.

A cidade mudou em quase tudo, e as pessoas também. Vitória, a minha Ilha do Mel, merecia um livro que falasse de suas coisas e pessoas, como depoimentos de Milton Murad, Renato Pacheco, Edgard dos Anjos, Cacau Monjardim, Marien Calixte e Marcelo Abaurre, conhecedores profundos de nossa história, Pena que faltariam os casos pitorescos dos queridos Ademar Martins e José Costa que partiram para outras galáxias.

Um dia, se o tempo deixar, vou pesquisar com eles, o que hoje tenho quase certeza ao dizer, que quando as primeiras caravelas aportaram na Prainha de Vila Velha, não foi à toa, e sim por opção dos sabidos portugueses. Rapidamente perceberam que dominando o morro mais bonito daquele lado do continente, de lá desfrutariam da eterna maravilha que é Ver Vitória.

E a cidade está aí, linda como poucas em todo mundo, com suas histórias e gozações sequiosas para ser descoberta pelo turismo, e que apesar de haver crescido tanto, continua com sua ternura de adolescente, o porto seguro de meus retornos, porque para tantos da minha geração muita coisa linda aconteceu. E parece que foi ontem...

 

Por: Ronaldo Nascimento
Livro: Escritos de Vitória- 18 – Cidade Presépio, 1997
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2012 



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