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Agonia das tradições - Por Eugênio Sette

Guilherme Santos Neves, Renato Pacheco e, no fundo, Eugênio Sette. Membros da Comissão Espírito-santense de Folclore em ação no Morro da Santa Clara, por ocasião de um dos concursos de raias e papagaios, por ela promovido no início dos anos 50

As tradições lutam pela sobrexistência. Na Refrega, se empenham, na opinião de alguns, cidadãos positivamente fora do mundo, não se compreendendo que, numa época de velocidade supersônica, alguém vá se preocupar com cheganças, cantigas de roda, e coisas que tais.

O registro daquilo que constitui a verdadeira alma do povo, no que ela tem de mais puro e incorrompido, é trabalho enorme que requer dedicação e carinho especiais.

Na própria rudeza dos versos de pé-quebrado; na constituição ingênua dos "enredos" há, tão-somente, a manifestação poética de uma época que se foi, plena de romantismo e encantamento. Histórias vieram de outras terras e, aqui, receberam inevitavelmente a influência do meio. Cantares de lonjuras suavizaram-se ao contato das nossas coisas e da nossa gente. Material que não ficou perdido, porque houve sempre abnegados que se deram ao trabalho de anotar, estudar e discutir, deixando para a posteridade o fruto do seu esforço, do seu carinho, da sua dedicação. O registro das coisas populares de hoje servirá para depois, porque nada se faz inutilmente. Há de haver, sempre, nos menores atos, uma finalidade. E, assim, se estabelece uma "reação em cadeia" para usar de uma expressão verdadeiramente século XX — marcos inevitáveis e inolvidáveis da vida que passa?...

Os povos viris cultuam as tradições populares, porque são básicas, são exemplares. Tempos idos e vividos, indiscutivelmente, sem o conforto moderno, sem influências desnacionalizantes. Por isso mesmo é que possibilitaram a existência de divertimentos e brincadeiras que o pesquisador atual só irá encontrar em determinados climas. Alguns, nem isso. Só nos chegaram de leitura ou de ouvida. Desapareceram definitivamente. Ou, então, embora ainda existam, não têm as mesmas características de antigamente. Seria, talvez, exigir muito, exigir demais, a mantença de certos acontecimentos, sem a influência do tempo.

Não sou, evidentemente, o primeiro a abordar esse aspecto da agonia folclórica, agonia aqui empregada naquele mesmo sentido de Unamuno (8) para com o Cristianismo. Agonia que é luta para sobreviver.

Agora mesmo vai haver um Congo (9) em Conceição da Barra que tem, segundo Guilherme (10), mantido as suas características puramente africanas. Longe de mim duvidar da afirmativa, mas avalie o leitor a distância a percorrer para o trabalho de observação. O leitor, possivelmente irônico, dirá que eu não desejo abandonar a cidade e enfrentar a estrada poeirenta. Admito. Mas ele precisa, também, admitir a minha tese — a cidade não permite, não aceita a existência de um Congo. Para a cidade, a palavra é uma interrogação. E transformar, na cabeça do citadino, a interrogação numa afirmação é trabalho de privilegiados, entre os quais, a bem da verdade, não me incluo.

Daí a agonia, a luta...

 

Notas

(8) Miguel de Unamuno (1864-1936), filósofo espanhol

(9) Provavelmente o Ticumbi, também conhecido como baile de congo

(10) Guilherme Santos Neves, professor e folclorista, amigo de Eugênio, que o levou a associar-se à Comissão Espírito-santense de Folcore

 

Fonte: Praça Oito, ano 2001
Autor: Eugênio Sette
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto 2014

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