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Caboclo Armojo

Ilustração de Rogério Medeiros

Como concentrar numas poucas frases esse gigante da sabedoria e bondade, amigo de seus amigos, igual a seus iguais, à gente humilde de Conceição da Barra, pés no chão de terra ressecada, gasto chapéu de palha protegendo na inclemência do sol, mãos de calos grossos, curtidos na labuta da enxada, mourejando a roça de milho e de mandioca... seus pares na vida?

Repito aqui o texto que sobre ele escrevi no livro Tradições Populares, muito oportunamente editado pela Divisão da Memória do Departamento Estadual da Cultura (e já reclamando uma reedição), pois o lemos juntos, Hermógenes e eu, no quintal de sua casa no povoado de Sant’ Ana, e me disse então ter ficado feliz com o perfil de “caboclo Armojo”, com o que retratei. Tentei apenas ser fiel ao modelo.

“Armojo é folclorista, contador de ‘causos’. Conhece como ninguém o folclore do norte do estado, suas estórias, seus tabus, suas cantigas e folguedos. Hermógenes é mestre, embora sem diploma pendurado na parede, sem anel de grau no dedo. É ‘notório saber’ das coisas do povo, que aprendeu no convívio com as gentes simples de Conceição da Barra, São Mateus, Itaúnas e adjacências, chão onde pisa como nativo, terra que não lhe esconde mistérios. Falar em Hermógenes é falar em ‘Energia Negra’ – São Benedito, São Benedito das Piabas e tantos outros Beneditos, bem ditos por Hermógenes, que fazem a força e a alma desse povo rico em suas estórias e melodias, criativo em suas danças e folguedos, crente em suas superstições, rezas e simpatias.”

Como escrever sobre Hermógenes, se já não está aqui para ler o que dele ou sobre ele se diga, se já não posso ouvir-lhe o farto discurso de agradecimento com que sempre me premiava, quando algo que eu fazia ou quando cantava as toadas do Jongo do sul do estado, sob a sombra amiga das árvores de sua varanda, lhe agradava?

Hermógenes não se descreve, porque não se continua em frases feitas. Hermógenes existia, exuberante, rico, pleno, exótico e carismático, lenda viva entre sua gente, mito que se perpetuará na memória de todos que, como eu, tiveram o prazer e o privilégio de conhecê-lo e deslumbrar-se com seu convívio.

Descanse em paz, meu amigo, ensinando aos anjos do céu as cantigas de roda de nossa terra. Que saudade!

Fonte: Era uma Vez... Hermógenes Lima Fonseca Um Anjo bom que passou por aqui, 1997
Autor: Adelzia Madeira
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2014

Folclore e Lendas Capixabas

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