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A Academia Feminina Espírito-santense de Letras e suas escritoras

Capa do livro de Francisco Aurélio Ribeiro

Apesar de o professor Almeida Cousin ter afirmado, em 1944, ser Haydée Nicolussi e Lydia Besouchet, ao lado de Rubem e Newton Braga, os quatro maiores valores da expressão literária capixaba, as duas escritoras foram ignoradas, ou descartadas, na fundação da Academia Espírito-santense de Letras, em 1949. Agostinho Lazzaro é tachativo. Segundo ele, a exclusão delas se deveu à sua opção ideológica na juventude, o socialismo comunista, e o veto a elas foi dado por Judith Leão Castelo Ribeiro, deputada, política ligada à direita, escolhida primeira Presidente da Academia Feminina Espírito-santense de Letras.

A principal batalhadora pela criação de uma Academia Feminina de Letras, no Espírito Santo, foi Maria Stella de Novaes (1894-1981), professora notável, pesquisadora interdisciplinar, autora de várias obras. Foi escritora capixaba residente no Espírito Santo mais conhecida, nacionalmente, e seu livro Um bispo missionário foi premiado pela ABL, em 1952. Não foi uma ficcionista ou poeta de primeira linha. Mesmo suas publicações dos anos 20 como “Rosas e açucenas” ou “Saudades e lindos amores”, Vida Capichaba, de 14/07/1927 não têm estilo literário e qualidade se suas contemporâneas como Maria Antonieta Tatagiba e Haydée Nicolussi. Maria Stella foi uma batalhadora em várias frentes e líder entre seus pares. Em sua humildade acadêmica, não fez parte da primeira diretoria da AFEL, cuja presidência coube a Judith Leão Castelo Ribeiro e a vice-presidência a Anette de Castro Matos. Seis meses depois, Judith renunciaria ao cargo, passando a presidência para à vice Anette de Castro Matos.

Judith Leão Castelo Ribeiro e Anette de Castro têm pouca importância no cenário literário das letras femininas capixabas.

A primeira publicou apenas um livro, Presença, de crônicas e discursos políticos, em 1980, pouco tempo antes de morrer, em 1982. Leonardo Dutra Ferreira destaca, nessa obra, “uma forte presença do saudosismo, descrevendo liricamente as marcas do tempo sobre a sua terra natal, o município da Serra, explorando seus costumes, descrevendo a paisagem bucólica da região e relatando festejos tradicionais e folclóricos como na crônica “Serra – Terra do Mastro”.

Anette de Castro Matos (19-? 1992) é conterrânea de Maria Antonieta Tatagiba, a escritora capixaba mais famosa de sua geração. Foi cronista de jornais de sua época e deixou publicado apenas dois livros: Dedo Minguinho, crônicas, 1949 e Três Temas Capixabas, ensaios, 1982, um deles sobre Maria A. Tatagiba. Trovadora conceituada em terras capixabas, não as registrou em livro. Suas crônicas de Dedo Mindinho revelam uma alma lírica como em “Olhando o mar”, observadora do cotidiano em “Conversas de bonde”, saudosista, em “Éramos seis... e mais uma” e na própria crônica que dá titulo ao livro, “Dedo Mindinho”.

Das escritoras que compuseram a primeira Diretoria da AFEL, sem dúvida a mais prolífera e conhecida foi Virgínia Gasparini Tamanini (1897-1990). Desde jovem, escrevia romances de folhetim e peças teatrais, em sua comunidade local, Itá. Em 1942, publicou seu primeiro livro de poemas, A voz do coração, que retrata a família, a infância e cenários de sua terra natal, em Santa Teresa. Em 1949, publica O mesmo amor no nossos corações, poemas que dão sequencia à temática do livro anterior. Em 1982, publicou o terceiro livro de poemas, Marcas do Tempo, mais moderno e Seiva, livro de pensamentos, frases ouvidas, experiência vividas, lições apreendidas.

Virgínia Tamanini foi uma ativista cultural, na sua terra natal e em Vitória, na década de 40, tendo participado da “Quinzena da Arte Capixaba”, em 1947, em que encenou a peça “Cristina da Suécia”. No mesmo ano, foi contemplada como a “melhor poetisa do Espírito Santo”. O que a consagrou, no entanto, foi o romance Karina, publicado em 1964, sobre a imigração italiana no Espírito Santo, com sucessivas edições, até na Itália. Seu segundo romance, Estradas do homem, publicado em 1977, não teve a repercussão de Karina.

Arlette Cypreste (1916) e Maria José Albuquerque de Oliveira (1917) são as únicas remanescentes da primeira Diretoria, ainda vivas. Escreveram bastante, na época de juventude, sobretudo poemas publicados em jornais e revistas. Nenhuma delas reuniu sua produção literária em livro. Arlette Cypreste publicou uma conferência feita na AFEL, em 1959, Exaltação à arte e personalidade feminina e o ensaio sobre o governador Jones dos Santos Neves, Um grande administrador, em 1984. Ainda pertence à AFEL, dela participando ativamente. Maria José Albuquerque de Oliveira reside no Rio de Janeiro e não mais escreve.

Também do primeiro time das acadêmicas foi Ida Vervloet Finamore (1902-1990). Em 1945, publicou o livro de contos e poemas Páginas soltas, que, segundo Leonardo Dutra Ferreira, uma personalidade digna, “para que ela saiba lidar, com fé em Deus, com os enigmas da vida”. Obra repleta de um “lirismo feminino”, sem as conquistas literárias que o feminismo já enunciava, naqueles idos. Seu segundo livro, O meu mundo, de 1981, contrapõe o mundo exterior, a realidade, ao seu mundo pessoal, intimista e particular. Obra de um romantismo piegas, tardio, em que predominam o subjetivismo e a alienação da realidade.

Ainda da primeira Diretoria da AFEL há os nomes de Zeny Santos (1930-1986) e Yamara V. Soneghet Melchiors (1931-1974), as mais jovens escritoras da época (19 e 18 anos, respectivamente) e muito talentosas. Ambas foram cronistas de jornais e tiveram uma intensa publicação literária, nos anos 50. Zeny publicou dois livros de crônicas, Cacos e Saveiro da ilha dos cisnes, este em 1974. Yamara Soneghet coordenou uma seção da revista Vida Capichaba, com crônicas, poemas e desenhos de sua autoria e não chegou a reunir seus textos para publicação em livro. Morreram relativamente jovens.

Nos anos 50, na gestão de Annete de C. Matos, outras escritoras passaram a participar da AFEL, como Yvonne Amorim |(1918), Lúcia Castellani Nunes (1910-1997), Leonor Miguel Feu Rosa, Argentina Tristão (1914-1999), Maria Filina Salles de Sá Mendonça (1929), Ailsa Alves Santos (1908-1970), Nilge Limeira (1922), dentre outras. Poucas chegaram a publicar livros, tendo a sua produção espalhada em revistas e jornais da época. Yvonne Amorim (1918), ainda viva, teve destacada atuação na imprensa escrita e falada de sua época, sendo a primeira jornalista profissional do Espírito Santo a partir de 1951. Seu programa “Ronda de poetas”, na Rádio Espírito Santo, durou mais de dois anos. Maria Filina Salles de Sá Mendonça (1929) foi a mais “diseuse” de sua época, seguidora de Margarida Lopes de Almeida, no Espírito Santo, e mestra da atual poeta-atriz, Elisa Lucinda (1958). Nenhuma delas, no entanto, teve a qualidade literária de Maria Antonieta Tatagiba (1895-1928), Haydée Nicolussi (1905-1970) e Lydia Besouchet (1908-1997). Somente ao final dos anos cinqüenta, surgiria Carmélia Maria de Souza (1936-1974), que iria inaugurar um outro momento nas letras femininas capixabas.

 

 

Fonte:Literatura Feminina Capixaba (1920-1950), Vitória-2003
Autor: Francisco Aurélio Ribeiro
Foto:Haydée Nicolussi 1925 - Capa do livro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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