Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

A Era Bley

Interventor Punaro Bley

O menino Gil vai ao comício (2ª Parte)

À crise econômica e financeira, somava-se a política, cada vez mais negativa e perniciosa. Resistiu o interventor aos maus conselheiros e aos poucos se prestigiou junto às classes conservadoras e ao governo central”, libertando-se da politiquice local e passando a seguir as diretrizes getulianas.

Porém, “Bley não modificou a tendência oligárquico-agrário-tropical-exportadora do Estado, reforçada com o fracasso do esforço industrializante”. Entretanto, o interventor Bley “atendeu a uma política de caráter mais nacional, avançando as obras do porto, e propiciando, na época, o início do embarque de minérios de ferro trazidos através da Ferrovia Vitória-a-Minas...”

O governo era controlado por um Conselho Consultivo (mais tarde Administrativo) composto por Mário Couto Aguirre, Antônio Francisco de Athayde, Clodoaldo Linhares e Anísio Fernandes Coelho, mas, na prática, só devia obediência ao governo provisório central.

Como era uma cidade pequena de maioria de funcionários, a vida estava centrada no Palácio do Governo, sendo, de menor importância, a Prefeitura Municipal da capital.

Começou o governo através da Junta de Sanções a apurar – por comissões de sindicância – as responsabilidades de ex-prefeitos. Fez-se novo inquérito sobre o massacre da Caravana Liberal, a 13 de fevereiro de 1930. Fizeram-se expurgos no Regimento Policial e Guarda Civil. Foi exonerado o juiz de Itaguaçu, porque recebeu indevidamente subvenções da Câmara Municipal a título de ajuda de custo; foram nomeados prefeitos estranhos à politicagem; foi reduzido à metade o subsídio do interventor e em 10% os vencimentos dos funcionários civis e militares; os exportadores de café elaboraram a receita para 1931; foram proibidas as acumulações; foram exonerados os professores com menos de cinco anos de serviço; foram feitos cortes nas subvenções, revisões dos processos de terra, e estudado o problema dos “sem trabalho”.

Falando à imprensa oficial o interventor disse: “No Espírito Santo não existe propriamente política; há apenas administração, porque não sou político, nem desejo me tornar.”

A pequena organização do Estado – Secretarias do Interior e Justiça, Fazenda, Instrução, Agricultura e da Presidência, Ministério Público e Magistratura – foi mantida e as finanças saneadas, graça são secretário Mário Freire.

O político monteirista Carlos Lindenberg, em janeiro de 1931, escrevia: “A ação serena daquele revolucionário (Bley) tem sido puramente construtiva dentro do programa traçado, tanto assim que o Estado já entrava em sua vida normal...”

O interventor de fato se torna popular – visita orfanatos, recebe o povo em audiência, dá o chute inicial em jogos de futebol, visita com a família cidades do sul. O aniversário de sua esposa, Alzira Duat Bley é festivamente comemorado, porque “embora há pouco residente em nosso meio, a aniversariante, pela sua afabilidade e bondade de coração, granjeou grande número de simpatias, vendo-se sempre cercada de pessoas amigas, das mais distintas de nosso mundo social”.

A consagração vem com uma festa que é oferecida ao casal governante, no Clube Vitória, onde se reunia a fina flor da sociedade, e à qual até o Bispo Dom Benedito compareceu. A comissão de recepção foi composta por Aurino Quintaes, Graciano Espíndula, Antônio Prado Filho, Moacri Barbosa Soares, sendo diretor de dia o Dr. Ralph Proença.

O maestro Tibúrcio dirigia, para as danças, um jazz band.

Houve números de piano coma esposa de Antônio Honório, Ricardina Stamato da Fonseca e Castro, que tocou a Rapsódia de Liszt; Nea Miranda declamou um poema; Zilá Cunha, Dulce Penedo e Zulmira Pessoa cantaram. Às 23 horas foi servida uma mesa de doces, com champagne, licores e sorvetes. Eram o tenente Bley e senhora dois desconhecidos, que se integravam à fechada sociedade local.

Em julho de 1932 o governo prometeu, diante da Revolução Constitucionalista de São Paulo, “defender o governo provisório, custe o que custar”, mandando, sob o comando dos coronéis Carlos Marciano de Medeiros e Wolmar Carneiro da Cunha, pelo navio Almirante Jaceguai, soldado em defesa da ordem. Foi comissionado médico um sexto-anista de medicina, Mário Tavares, que enviou notícia sobre a tropa em 11 de agosto, das proximidades de Cunha, São Paulo.

Em Vitória formou-se uma Comissão de Senhoras para prestar auxílio aos soldados do 3 BC. Em 20 de setembro, o general Bertoldo Klinger, que depois ficaria famoso pela reforma ortográfica que propôs, pede armistício, encerrando-se as lutas em 4 de outubro.

Em 18 de outubro as tropas que “ajudaram gloriosamente ao triunfo da causa nacional” saltaram, festivamente, em Vitória.

Depois da Revolução Constitucionalista o governo, para aplacar os ânimos exaltados, promulgou o Código Eleitoral de 1932, pelo Decreto 22.168/32, com voto dos 18 anos extensivo a mulheres, e parlamentares eleitos proporcionalmente e representantes classistas eleitos pelos sindicatos.

Foi criada, também, a justiça eleitoral, que no Estado era presidida pelo desembargador Carlos Xavier e composta dos juízes, desembargadores Cristiano Andrade, Augusto Botelho, Barros Wanderley e procurador Afonso Correia Lyrio e secretário Lourenço Primo. Seria feita uma eleição em dois turnos, com sublegendas e candidatos avulsos. O Partido da Lavoura acusou o PSD de fraude. Este fora fundado pelo interventor por ordem do Poder Central. Havia também a Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança Libertadora Nacional, fechada em julho de 1935.

Nesse meio tempo, também como medida apaziguadora e de certa forma em campanha eleitoral ou relações públicas, o presidente Vargas visita, no Almirante Jaceguai, o norte e nordeste. Em Vitória desembarcou a 25 de agosto de 1933, às 9:20 horas, no Armazém 2 do Cais do Porto, onde foi saudado pelo deputado Fernando de Abreu. Passou em revista as forças militares. Assistiu ao desfile de tropa e colegiais, almoçou e foi recepcionado em Palácio. Recebeu manifestação operária e passeou pela cidade, parando no Saldanha e indo ao Convento da Penha em cuja entrada recebeu um ramalhete de flores da Miss Espírito Santo, Glícia Serrano. Foi ao Quartel do 3 BC e na volta ofereceram-lhe um banquete, no Clube Vitória, tendo as senhoras capixabas ofertado lindo álbum a ser entregue a D. Darcy Vargas. Embarcou às 23 horas rumo à Bahia.

Em 11 de novembro foi instalada, sob a presidência de Antônio Carlos, a Assembléia Legislativa Nacional Constituinte, e encerrado em 9 de junho de 1934 o período revolucionário, que durara quase quatro anos. Em 16 de julho de 1934 Getúlio foi eleito indiretamente para governar o país até 1938.

Aqui inicia-se a campanha eleitoral e a oposição deu prova de que os quatro anos de ditadura tinham deixado visgo no governo.

“A Gazeta de Alegre poderá circular uma vez que não veicule ataques grosseiros e pessoais a autoridades do município e do Estado, conforme orientação” – Ass. João Bley, interventor.

Diba Saliba faz queixa-crime contra o delegado Orlando Bulcão Viana que o prendeu na viúva-alegre, por fazer propaganda de oposicionista Jerônimo Monteiro Filho: teve o cabelo raspado, deram-lhe banho frio e deixaram-no sem alimento incomunicável numa cela com chão molhado (Ciro Pitanga publicou boletim em que diz que sofreu picuinhas e perseguições do secretário Fernando Rabello, “de caráter pequenino e vingativo”, e foi por isto processado. Emiliano Mendonça, dono do pequeno jornal O Município de Vila Velha, é processado pelo seu editorial “Resistência pacífica”, em que propugna pelo não pagamento de impostos. Jairo Leão foi processado pelo secretário Seabra Muniz, que se sentiu ofendido com uma sua cota em processo de dívida ativa. Pedro Motta foi detido pelo cabo Taveira por estar distribuindo cartazes do Partido da Lavoura. Os incidentes se multiplicavam.

Mas veio a eleição direta, no dia 12 de abril de 1935, consoante Constituição Federal de 1934:

1 Escrutínio – Para governador do estado

João Punaro Bley – 2 votos

Jerônimo monteiro Filho – 11 votos

Asdrúbal Martins Soares – 12 votos

2 Escrutínio

João Punaro Bley – 13 votos

Asdrúbal Martins Soares – 12 votos.

Como se deu tamanha reviravolta?

Sezefredo Garcia de Rezende conta que o deputado Gabeira estava indeciso. O Bley levou ao Rio, de trem, para visitar Vargas, treze deputados a seu favor. Na estação, Gabeira foi raptado pelos oposicionistas e levado para a casa de Atílio Vivacqua, no Jardim Botânico. Lá ele apoiou a oposição, conforme notícias em O Globo e A Notícia. Na volta votou no Bley, criando o verbo “gabeirar”, mudar de lado à última hora.

Este Gilbert Gabeira era deputado classista, e em 1933 já dizia: “Tenho para mim que devemos cerrar fileiras em torno da chapa que encarnar as idéias revolucionárias.” Só enganou a quem quis ser enganado.

Assumiu o capitão Bley (passaria a major em 17 de março de 1939) como governador constitucional. Considerava suas grandes realizações haver pago 60.000 contos de dívida externa e aumentado de 60 para 250 litros d’água a capacidade da cidade de Vitória.

Comemorou, festivamente, o IV Centenário de Colonização do Solo Espírito-Santense (23 de maio de 1935) com festas cívicas inclusive um baile no Palácio do Governo e a primeira feira de amostras da cidade.

A feira foi instalada no Grupo Escolar Gomes Cardim e em seu entorno, em 22 de dezembro de 1934. O governador foi recebido debaixo de demorada salva de palmas e inaugurado seu retrato. Dos 31 municípios poucos não concorreram. Havia também estandes do Departamento Nacional do Café, do Estado, da Catedral e de particulares. Houve missa campal em suas imediações em 1 de janeiro de 1935. Na sessão solene comemorativa do evento, o Rotary Club distribuiu 28 cadernetas da Caixa Econômica Federal, com 50$000 cada, aos melhores alunos da capital. A colônia portuguesa ofereceu à cidade um monumento em homenagem a Vasco Fernandes Coutinho. A Assembléia Legislativa funcionou durante 747 dias e aprovou pela Lei n 10 efetivo da Força Policial com 712 homens e 76 bombeiros. A famosa Lei 30, de 24 de dezembro de 1936, regulava os direitos e deveres dos funcionários. E a última lei, a 277, de 29 de outubro de 1937, novamente tratava dos vencimentos de oficiais e praças da Força Pública.

Creditava-se ao governo Bley, nesta primeira fase, além do saneamento das finanças públicas, a organização dos serviços estatísticos do estado, e a inauguração da primeira seção do Porto de Vitória.

Depois veio o 10 de novembro de 1937, mas isto é, como diria Kipling, uma outra história.

 

Livro: Os dias antigos (Coleção José Costa). 1998.
Autor: Renato Pacheco
Compilação: Walter de Aguiar Filho - setembro,2011

 

LINK RELACIONADO:

>> O menino Gil vai ao comício (1ª Parte)

História do ES

A Insurreição do Queimado

A Insurreição do Queimado

Chama-se Insurreição do Queimado ao levante de escravos, em busca de alforria, havido em 19 de março de 1840 

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Como foram povoadas as terras capixabas - (Parte 2)

O Espírito Santo foi o primeiro estado brasileiro a ter uma lei que deu fundamentação jurídica à questão de terras.

Ver Artigo
Administradores incompetentes e subservientes – Século XVII

O abandono da Capitania do Espírito Santo por parte dos donatários desencadeou novo processo de decadência 

Ver Artigo
Como foram povoadas as terras capixabas - (Parte 1)

Além da carta, pouco favorável à nossa terra — nas questões econômicas — pois não falava de ouro ou metais preciosos, mas apenas dos índios e que "a terra é boa em se plantando tudo dá", faltava a Portugal recursos financeiros e material humano para empreender um povoamento nas terras de Santa Cruz

Ver Artigo
Reritiba, Guaraparim, Espírito Santo e Rio Doce – Relatos de 1610

Relação da Província do Brasil, escrita em 1610 pelo padre jesuíta Jácome Monteiro, extraímos o seguinte trecho relativo à Capitania do ES

Ver Artigo
“Descaminhos no dinheyro” em 1650

A carta do conde de Castelmelhor refere-se a diversas irregularidades no Espírito Santo, principalmente nos negócios da Justiça

Ver Artigo