A história do Colégio Marista - 4ª Parte

Editor: Roberto Abreu - publicada: 06/11/2013

Marista - Missa de Domingo pela manhã

- quarta parte -

Então vamos falar agora sobre a gleba do sítio Batalha, de 173. 400 m² que consta na escritura que a P M V V passou para os Maristas cedendo em condições a área que fora desapropriada. O restantes dos 11,34 hectares, correspondia a colina do “Morro do Sítio Batalha”, e uma fatia de terra ao longo da rua Antonio Ataíde. Ali deixaram uma passagem com portão, que se comunica ainda até hoje com uma extremidade da rua 7 de setembro. Desse local para frente, lotearam e venderam terrenos a partir de meados dos anos 60, e então interessados construíram por ali residências, hoje numa situação de transição, para área comercial e de serviços.

Só que duas coisas aconteceram, pois: - com as construções que por ali surgiram com seus muros, foi dificultando a saída das águas pluviais, ficando uma faixa dentro do terreno do Colégio, fronteiriço a essas residências, muito úmida, surgindo reclamação de moradores. Para esse loteamento vamos considerar que ocupa 1 hectare. Então o Morro do Batalha que praticamente é uma colina, teria aproximadamente 10,34 ha, sendo que a altitude pode-se estimar como tendo uns 30 metros.

Pois bem, nessa colina, o Colégio no início plantou uns cítricos, em cuja área os juvenistas costumavam trabalhar. Com a desativação do Juvenato dos moldes antigos, em meados dos anos 70 ali plantaram eucaliptos, mas nessa área foi nascendo também mato, e crescendo alguns tufos de mata atlântica, e passando a ter um certo ar de desnecessidade para o Colégio. Nessa época os Irmãos aterraram área que ia do sopé da citada colina, até a confrontação sul, que era um trecho de manguezal degradado. Ali criaram 3 ruas, e venderam os lotes.

Os logradouros (rua Armando Rosemberg de Menezes, rua Paulo Uchoa, e rua Felix Azevedo) constituem o pequeno bairro do Sítio Batalha, só que aconteceram duas coisas: - como muitos faziam, a cota do respaldo do aterro foi somente um pouco acima da maré máxima, e como conseqüência décadas depois as condições precárias de drenagem pluvial entraram em colapso, tanto pela piscinização da cidade, pelo caimento quase nenhum do pavimento das ruas, e pela reduzida capacidade de escoamento do Canal da Costa. Era comum no país Ordens religiosas lotear e vender parte de seus terrenos para conseguir alguma renda em época de dificuldades. Assim fora inclusive em Vitória.

Nessa época com apoio de um Clube de Serviço, surgiu no Sítio Batalha um empreendimento de uma escola particular para excepcionais. Quando era aluno de vez em quando ouvia falar que estava havendo invasão no terreno do Colégio. Pois bem, com o crescimento desordenado da Cidade, pipocando invasões aqui e ali, e a questão social não conseguindo resolver demandas de emprego e renda, a causa habitacional tornava-se insolúvel principalmente para as classes menos favorecidas. Os movimentos pela moradia estouravam em todos grandes centros do país.

Então por volta de 1981 um grupo de pessoas invadiram o “Morro do Batalha” e foram até as traves dos campos de futebol. Lotearam a área com uso de barbantes, cordinhas, e arames, formando um labirinto, e lá ficaram acampadas. Fui até lá num fim de semana, inclusive na hora chegava um Deputado Estadual da oposição para entender o que se passava, pois a questão vinha ganhando matérias nos jornais. Parecia uma cena dantesca, com grande animosidade e disposição dos ocupantes a não cederem um milímetro do que acabavam de conquistar e mantinham revezamento dia e noite a duríssimas penas, e ao relento e de forma improvisada.

A coisa ficava surrealista, pois naqueles dias o Colégio havia cedido parte de suas instalações para uma exposição de cães de estimação. O acesso da ocupação se dava principalmente pelas ruas do Sítio Batalha, com os moradores apreensivos, pois poderia surgir ali uma favela, caso a invasão não fosse sustada. A questão era muito preocupante, e questionava em última análise a Igreja Católica vista como grande proprietária urbana, e com terrenos ociosos.

Então o Governador do Estado, Eurico Vieira de Rezende, ouvindo o antigo Prefeito Municipal Américo Bernardes da Silveira (cumprindo prorrogação de mandado) determinou que a Polícia Militar desocupasse a área, o que foi feito sem resistências. Uma invasão mais antiga no que é hoje a rua Telmo Torres (rua Rio de Janeiro) e a da Rua Carioca adjacente ao Morro do Batalha, teve continuidade, e consolidação da ocupação com a construção de residências, e pavimentação por ali de trecho das duas ruas que recebeu postes, iluminação e água encanada.

Já nos anos 90 a municipalidade começou a considerar a área do Morro do Batalha como de preservação permanente, onde inclusive começou a ter sagüis a usá-lo como habitat. Outros começaram a ver a área do Marista um absurdo a permanecer no centro da Cidade, que com a inauguração da terceira ponte, um enorme fluxo de veículos teve que passar a contornar o Colégio para acessar a citada obra de arte. Pensaram até em desapropriar a continuidade da rua 7 de setembro dentro do terreno do Marista, para desafogar o trânsito em direção à Praia da Costa, alegando inclusive que o prédio do antigo Juvenato fora feito no alinhamento da citada rua, prevendo justamente para no futuro haver a passagem do logradouro.

A economia de combustível, e diminuição da agressão ao meio ambiente, pagariam os valores das desapropriações e investimento na infraestrutura da abertura da rua. Caso isso ocorresse, haveria contudo uma mutilação do Colégio, dificultando sua utilização. Nesse meio tempo no primeiro mandato do antigo Prefeito Vasco Alves de Oliveira Jr, ocorre a ocupação pela municipalidade com aterro, de área adjacente a rua lateral de acesso interno do Colégio, a leste, que estava com manguezal em estado agonizante, dado o abandono do antigo leito do Canal da Costa. Nesse aterro surgiu uma garagem da Prefeitura, com oficina e lavador de caminhões e máquinas, que trouxe pelo menos poluição sonora para próximo de algumas salas do Colégio.

Depois, já no segundo mandato do prefeito Jorge Anders, o mesmo desativou a garagem da Prefeitura, e cedeu para o Mac Donald, uma área onde ali instalou uma unidade, e mais ao fundo uma área para a Secretaria de Estado de Meio Ambiente construir um módulo de observações do meio ambiente, o que foi feito.

Já no século XXI o Colégio iniciou processo de venda de parte do Morro do Marista, com acesso voltado para a rua Telmo Torres, a um empresário que ali construiria um condomínio fechado de luxo. A meu ver foi a gota d'água para surgir um rosário de reportagens principalmente numa certa imprensa alternativa. O negócio imobiliário não foi em frente. A questão inflamada foi parar no Ministério Público, para esclarecimentos.

Em paralelo o Governo do Estado do Espírito Santo iniciou gestões para obter fatia do Morro do Marista para nele passar um viaduto para a saída sul da terceira ponte e facilitar acesso ao bairro de Itapoã. Da jornada do Ministério Público enfim saiu um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assinado em 21.10.2009 envolvendo 8.390,52 m² ou quase um hectare, que a UBEE doa para o Governo do Estado construir a alça da terceira ponte, e 38.609,48m² ou quase 4 hectares, para ser ocupado com um parque municipal marista, sob gestão exclusiva da UBEE e participação da comunidade.

Sobre esse assunto falarei na próxima parte da história do Colégio, que ainda ficará com aproximadamente 5 hectares, de área livre, em formato de meia lua, ao redor da encosta do Morro do Batalha, em terreno inclinado, que serve de proteção as suas instalações.

 

Por: Eng° Civil Roberto Brochado Abreu. Fundador e membro da diretoria da Casa da Memória de Vila Velha. (31/03/2010)

 

LINKS RELACIONADOS:

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