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As Festividades da Penha – Por Heribaldo Lopes Balestero

Estátua que é de bronze e se levanta sobre pedestal de pedra, 1970 - Escultor: Carlos Crepaz

Heribaldo Lopes Balestrero nasceu em Viana, ES, em 28-4-1899. Estudos: em sua terra natal, em Vitória e em Belém do Pará. — Homem de profundas convicções religiosas, esteve sempre presente a todos os movimentos de Igreja, como membro da fábrica da matriz e como vicentino, até o dia de hoje. Estudioso de história publicou, em 1952, o seu primeiro trabalho: "Subsídios para o Estudo da Geografia e História do Município de Viana", muito elogiado pela crítica e pelos historiadores.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico do ES e da Academia Espírito-Santense de Letras.

 (Ocorrências de ontem e de hoje)

A primeira festa — Quando a ermida estava pronta, sentia-se Frei Pedro Palácios já velho e alquebrado, sem ânimo para empreender uma viagem à Europa. Mandou pois, buscar, em Lisboa, uma imagem da Virgem, sob medida, por um amigo. Mas este, esquecendo-se da encomenda, surpreendeu-se depois, quando misteriosamente trazido por um desconhecido, recebe um caixote, na véspera da viagem, e dentro dele a imagem tal como lhe encomendara o religioso.

Com a chegada da Imagem, Frei Palácios marcou a festa da inauguração para o dia 30 de abril de 1570. Realizou-se sob o entusiasmo delirante dos devotos moradores de Vila Velha e de outros lugares mais próximos e mesmo distantes. Todos inspirados na confiança que aureolava a fronte do venerando ancião que tanto se interessava por engrandecer a Santíssima Virgem perante o povo que dela já vinha recebendo bênçãos e milagres surpreendentes.

Continuidade dos festejos — Informa Gomes Neto que a primeira festa começou por uma missa cantada, sem muita pompa, embora impregnada de grande fé e de esfuziante sentimento religioso. Posteriormente, os sucessores de Frei Palácios foram realçando as solenidades, principalmente depois que os franciscanos se instalaram definitivamente na Capitania, em 1591, quando a 6 de dezembro do mesmo ano, receberam da donatária, D. Luiza Grimaldi a doação do monte da Penha e dos terrenos onde construíram o Convento de São Francisco de Vitória.

Depois da primeira festa, a devoção da Penha difundiu-se por toda a Capitania, trazendo ao Santuário romarias e até mesmo peregrinações de religiosos, como aconteceu com os jesuítas, em 1573, quando salvos de um naufrágio na foz do Rio Doce (Serafim Leite "História da Companhia de Jesus no Brasil", Tomo I, pág. 55) e em 1584, com o Visitador Geral Cristóvão de Gouveia e outros, entre eles o Padre Anchieta.

Embora não existam referências especiais à festa da Penha, durante anos a fio, acreditamos tenha ela continuado a ser para os capixabas um acontecimento magno. Esta assertiva é confirmada pela lei no. 7, de 12 de novembro de 1844, referendada pelo Presidente Assis Mascarenhas, que considerou-a uma festa de "grande gala", expressão que os representantes da Nação "acharam imprópria num decreto do Poder Legislativo da Província". Não tergiversou o Presidente Mascarenhas e o dia foi considerado feriado, e sancionada a lei, para glória dos capixabas.

Prima inter pares — Entre as festas mais suntuosas celebradas na Província, em homenagem à Virgem da Penha, a de mais ressonância foi a que se realizou a 20 de abril de 1857, quando guardião frei João Nepomuceno Valadares, que era capixaba descendente do condestável Torquato Martins de Araújo, de tradicional família espírito-santense.

Com o Convento restaurado, pelo menos em parte, essa festa foi o início da parte profana introduzida nas cerimônias religiosas, até então celebradas com o mais profundo respeito e veneração à Mãe de Deus.

Desta vez coube aos romeiros de Campos e de São João da Barra fazerem a festança a seu modo. Chegados a cavalo e a pé, em longas e penosas viagens (enquanto os mais abastados o faziam fretando navios que os traziam confortavelmente até Vila Velha), por aqui ficavam durante oito dias, terminando os folguedos, com um banquete de duzentos convivas. Era uma coisa que não condizia com a grandeza do acontecimento, puramente religioso.

No vértice do apogeu — Não terminou aí essa modalidade de festas da Penha, realizadas pelo menos com o consentimento de Frei Valadares, dado o fato de avultarem as oferendas e donativos de esmolas à Santa, que ele não queria perder. O que a princípio custara suor e lágrimas dos primeiros guardiães, agora estava sobrando, com as vultosas quantias que afluíam de todas as partes, trazidas pelos romeiros auxiliados pelos agenciadores e síndicos que existiam pelos diferentes municípios.

As festas com comezainas e a jogatina desenfreada na chamada Casas dos Romeiros fizeram sucesso na Província, atraindo romeiros de todos os lugares. A própria Vila Velha ficava abarrotada de gente de Vitória, além dos seu próprios moradores.

Cita Gomes Neto que Nossa Senhora era tão venerada no Espírito Santo, que no dia da festa era rara a família, por mais pobre que fosse que ficava em casa, considerando a sua presença ao ato religioso como uma obrigação de fé.

Em Vila Velha, as praias ficavam superlotadas de gente acampada em barracas provisórias de lona ou de palha, como igualmente a própria ladeira do Convento, de um e outro lado.

Não havia hospedagem suficiente no vilarejo, cujas residências se enchiam de parentes e amigos dos seus proprietários, enquanto alguns alugavam compartimentos aos mais abastados, por 10, 20 ou 30 mil réis por dia, um vantajoso negócio, na ocasião, para os locatários.

Os romeiros de Campos e de São João da Barra, eram, na sua maior parte, gente abastada que tinha muito dinheiro para gastar, bandas de música, trazendo consigo muitos rapazes filhos de famílias, aos quais se juntavam os ratistas que vinham cumprir promessas, tomando parte no coral que funcionava durante os festejos.

As cerimônias duravam sempre duas noites e um dia, com solenidades pomposas e exercícios piedosos. Iniciavam-se pelas vésperas solenes, seguidas, no dia imediato, pela festa propriamente dita, com aparato suntuoso e sermão, função que até 1856 esteve a cargo, por devoção, do Padre Dr. Inácio Rodrigues Bermudes, provinciano, ex-frade franciscano, muito simpático e comunicativo, além de eloqüência que imprimia aos seus sermões. Era por isto sempre o preferido para o desempenho dessa função sagrada de realçar as glórias de Maria, como encerramento de sua festividade.

Quando terminava a parte religiosa do altar, o guardião descia para a Casa do Romeiros e aí era servido o banquete aparatoso, com profusão de iguarias, doces e vinhos. Todos tomavam parte no repasto a convite do religioso.

À noite, havia TE DEUM, em homenagem a Nossa Senhora encerrando a festa.

Desde as vésperas, o Convento oferecia um aspecto feérico, corno também a igreja de Vila Velha, interna e externamente. Em alguns lugares do Campinho acendiam-se fogueiras, como na Casa dos Romeiros. Também a ladeira ostentava lampiões de barro e de bambus, com pavios de algodão embebidos em querosene, em toda a sua extensão, até a Capela do Bom Jesus, onde a iluminação então se tornava abundante.

Em baixo, a pacata Vila Velha, embora formada de casebres esparsos ostentava a mesma profusão de luzes. Não havia um só casebre que não apresentasse na sua fachada uma luminária festiva. Essa iluminação sui generis dava ao lugar um cunho singular de imponência e de beleza, desde a vila até o alto do rochedo. Dizia Gomes Neto que o Convento "similhava uma coroa de estrelinhas, com uma fita de luz que se desenrolava alto abaixo, rastejando o vale". "O Espírito-Santense", de 2 de novembro de 1887, conta-nos como foi realizada a festa daquele ano, com um número elevado de romeiros, superior a 500.000. Nesse ano o número de carros foi além de 1.800 e o de cavaleiros acima de 2.000, rendendo a salva 45:000$000.

A decadência — Informa a professora Stella de Novais ("Relicário de um povo", XIV, 99), que a guardiana foi extinta com a retirada do frei Santa Humiliana, em 1867, ocasião em que assumiu a administração do Convento frei João do Amor Divino Costa, a 20 de setembro daquele ano.

Apesar de estar sempre ausente (no Rio de Janeiro), o que trouxe certo arrefecimento aos devotos, frei João promoveu importantes reformas no Santuário, que ainda hoje atestam as suas proveitosas iniciativas, como administrador. Realizou obras de fino gosto artístico nos retábulos, além das lindas pinturas de Vitor Meireles, atualmente quase totalmente desaparecidas.

Acabara de inaugurar seus trabalhos, quando a 14 de abril de 1889, o Bispo do Rio de Janeiro, D. Pedro Maria de Lacerda, proibiu as festividades exteriores que se faziam, objetivando com isto o desvio das esmolas dos fiéis, o que vinha ocorrendo com manifesto prejuízo para a manutenção do culto e conservação do monumento, que exigiam rios de dinheiro. 

Administração da Mitra — Estava, pois, em decadência a gloriosa devoção da Penha, quando, em 1895, foi o Espírito Santo elevado a Bispado, desligando-se da Mitra do Rio de Janeiro. Uma das primeiras iniciativas de D. João Nery, nosso primeiro Bispo, foi promover a encampação do Convento da Penha, que havia encontrado fechado, sob os cuidados de um sacristão de nome João Ramiro, negando-se até Frei João do Amor Divino Costa a vir ao Espírito Santo fazer a entrega do Santuário, depois da anexação ao novo Bispado.

É preciso que se declare aqui que não se tratava de uma usurpação, como se tentou fazer acreditar na ocasião, mas de um ato de justiça que se tornava inadiável, para resguardar-se a devoção que há quase três e meio séculos vinha acompanhando a nossa vida espiritual e mesmo política, desde o tempo de Vasco Coutinho, que faleceu em 1561, já com a devoção dominando os nossos sentimentos católicos.

Assumindo a direção do Santuário, a Mitra tratou logo de administrá-lo condignamente, designando como seu primeiro capelão o Padre Joaquim Mamede seguido de outros sacerdotes virtuosos como capelães, por último o Padre José Ludwin, todos incansáveis em realçar a velha devoção, zelando as esmolas e donativos que passaram a ser aplicados em benefício da conservação do monumento e do que de precioso nele ainda existia. Voltou então a festa da Penha a ser celebrada anualmente, no seu dia designado, com o cunho tradicional dos tempos passados, mas apenas em função da fé que o povo sempre conservou arraigada no coração.

Acabaram-se as festas profanas, enquanto o Santuário passava a servir apenas ao culto da Virgem, sempre franqueado às romarias que vinham de quando em quando, assistidas até pelo próprio Sr. Bispo (como ocorreu com uma de Viana, em 1912, quando vigário dessa paróquia o Pe. João Paulo Xavier Pouret, estando à frente da Diocese D. Fernando de Souza Monteiro).

Voltaram os franciscanos — Em 1942, chefiados por frei Luís Wand, voltaram os franciscanos a dirigir o Convento, após 46 anos de afastamento, onde continuaram a obra imortal dos seus antecessores.

O seu regresso, num momento tão oportuno e de tanta expectativa religiosa, imprimiu na devoção da Penha um novo cunho de respeito e piedade, através da confiança que os seus guardiães imprimem a quantos se aproximam da augusta imagem, para fazerem suas promessas e obterem graças, sempre assistidos por eles nas bênçãos que se repetem aos pés da Virgem, durante as missas e fora delas, sempre que haja devotos no Santuário.

Como os primeiros eremitas cristãos se retiravam para a Thebaida, onde, solitários, ficaram no deserto tocados do sentimento religioso, também os franciscanos, tal como Frei Palácios há mais de quatro séculos, isolam-se dos homens e das coisas mundanas, para transformar aquele monte de fisionomia severa e rude, num relicário das mais risonhas esperanças.

As festas na atualidade — Sob a direção dos franciscanos, as festas continuaram, já agora, com novas programações, embora acompanhando algo da tradição que se tomou famosa e falada em todo o Brasil. Dezenas de milhares de peregrinos convergem para o Santuário, nesse dia, todos desejosos de agradecer a Nossa Senhora os benefícios recebidos durante o ano.

A festa realizada em 1970, comemorativa do IV Centenário da implantação entre nós da devoção, foi um acontecimento de grande ressonância dentro e fora das nossas fronteiras. Iniciada por um Oitavário Solene teve como fato culminante a tradicional romaria noturna dos homens, à noite do sábado para domingo da Pascoela, obedecendo a mesma ordem dos anos anteriores. No dia 6 de abril, dia propriamente da festa, houve celebrações de missas a partir de duas horas da madrugada, até o meio dia, no Santuário e no Campinho. Seguidamente à bênção de Nossa Senhora, houve missa festiva às 16 horas, terminando a grande festividade centenária, com a presença de altas autoridades federais e estaduais aos atos religiosos. Destes também participaram o Sr. Arcebispo Metropolitano, D. João Batista da Mota e Albuquerque, além de muitos outros sacerdotes, que se colocaram à disposição dos devotos, atendendo-os em confissão e orientando-os para acompanharem com respeito as solenidades.

Com pouca diferença, este é o programa das festas da Penha, atualmente, na qual os franciscanos fazem apenas questão que predomine o amor à Santíssima Virgem, Padroeira do Estado e refúgio de todos os seus devotos, nas horas tormentosas da vida.

Heribaldo Lopes Balestrero

 

DOIS CENTENÁRIOS

O espírito cristão dos capixabas não deixou sem especial registro duas datas bem significativas da sua devoção a Nossa Senhora da Penha —,a da chegada, ao Espírito Santo em 1558, do piedoso franciscano Frei Pedro palácios, e a da sua morte, em 1570. Ambas as comemorações centenárias concentraram o comovido interesse, a devota alegria e a presença fervorosa de milhares de fiéis, reunidos em preces e em reverências no alto da Penha, em Vila Velha, onde se ergue o secular Santuário da Virgem.

Desses dois acontecimentos marcantes na história religiosa do Espírito Santo, fixemos, aqui, em forma de reportagem, os principais aspectos.

I. FREI PEDRO PALÁCIOS EM TERRAS CAPIXABAS

1558 1958

Registra a História que, no ano de 1558, desembarcou, no porto de Vila Velha, no Espírito Santo, o irmão Frei Pedro Palácios, natural de Mediria do Rio Seco, na Espanha, tendo servido, com hábito franciscano, na província espanhola de S. José e depois na Custódia da Arrábida, em Portugal.

Foi com o propósito de ressaltar, no espírito de seus diocesanos, o alto significado dessa vinda de Frei Pedro, que D. José Joaquim Gonçalves, então Bispo do Espírito Santo, através de circular datada de 18 de fevereiro de 1957, e, depois, em Carta Pastoral de 25 de março do mesmo ano, chamava a atenção de todos para a grande festa centenária. Essa comemoração seria iniciada na Quaresma de 1957, sendo este o "Ano de Preparação do IV Centenário da Devoção de Nossa Gloriosa Padroeira Nossa Senhora da Penha".

Peregrinação da Imagem da Santa

Na Carta pastoral, o Senhor Bispo proclamava a necessidade de que "a Diocese inteira rendesse homenagens públicas (... ) a sua excelsa Padroeira". Para isso ordenou que se fizesse a "peregrinação da Padroeira" Por todos os recantos da Diocese. "Será um ano de piedade — escrevia D. José Joaquim -- de devoção mariana em que faremos levar, de paróquia em paróquia, quatro fac-símiles da imagem de Nossa Senhora da Penha venerada no Santuário e que fora encomendada de Portugal por Frei Pedro Palácios, pouco antes de sua morte, em 1570".

Essa peregrinação se realizou simultaneamente em quatro zonas da Diocese, acompanhada pelos Missionários Franciscanos Frei Anastácio, Frei Salésio, Frei Benigno e Frei Teodoro. Em todo o percurso e visitas, foi comovente a recepção, incrementando-se, nos corações dos fiéis, a devoção à Santa da Penha e, de igual modo, alcançando um dos objetivos dessa peregrinação festiva: a difusão maior e mais frutuosa da Obra das Vocações Sacerdotais.

As comemorações de 1958

Foram empolgantes as festas comemorativas que então se realizaram e que atingiram seu maior ponto de vibração religiosa, em dezembro de 1958. Delas participaram, além de milhares de fiéis devotos, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, congraçados na reverência à Santa Padroeira. A presença das Forças Armadas nas festividades se deve ao Dr. Henrique Cerqueira Lima Filho, chefe da Comissão de Festejos, ao Sr. Arcebispo de Vitória D. João Batista da Mota e Albuquerque e a Frei Alfredo Setaro, Guardião do Convento da Penha.

Procissão até Vitória

No dia 13 de dezembro, às 17 horas, a Imagem da Virgem saiu do Santuário de Vila Velha e conduzida até Vitória, num dos carros do Corpo de Bombeiros do Estado, em procissão festiva da qual participaram cerca de trezentos veículos. Durante o trajeto, aviões da Esquadrilha da Fumaça e um helicóptero da FAB faziam evoluções no céu ensolarado.

Chegando ao Cais do Porto, onde estava acostado o navio hidrográfico "Canopus", foi a Santa Imagem, conduzida por oficiais da Polícia Militar do Estado, colocada em altar armado no tombadilho. Ali foi celebrada a santa missa por Frei Alfredo Setaro. Assistiram ao ato religioso representantes das Forças Armadas e grande número de fiéis. Durante as horas que ai ficou a Santa foi alvo de constante manifestação devota.

Retorno ao Santuário

Na manhã do dia 14, domingo, a Imagem de Nossa Senhora foi levada, do "Canopus", para uma lancha da Marinha, dando-se início à procissão marítima, formada de numerosas embarcações, todas elas enfeitadas, com destino a Vila Velha.

Na Escola de Aprendizes Marinheiros, parou o cortejo sendo celebrada, em seguida, uma missa campal pelo Sr. Arcebispo D. João Batista. Findo o ato religioso foi a Imagem posta num helicóptero da FAB. Este, após sobrevoar Vila Velha e Vitória, conduziu-a até o "Campinho" (aos pés do monte da Penha). Daí até o Santuário levaram-na oficiais do Exército. Integraram a comitiva do helicóptero o Sr. Arcebispo, o Comandante do "Canopus", representante do Exército, o Sr. Prefeito de Vitória e Frei Alfredo, Guardião do Convento.

II. AS COMEMORAÇÕES DE 1970

1570 1970

Sabe-se, através de tradição perdurável, que, numa das naus vindas de Portugal, em 1569, rumo ao Brasil, veio a preciosa encomenda de Frei Pedro Palácios — a imagem de Nossa Senhora. Destinava-se ela à festa da Santa que se realizaria no outeiro da Penha, ainda em vida de Frei Pedro, como de fato ocorreu. Pode-se, pois, dizer que, desde sua entronização no alto do penhasco, se incrementou a longa e infindável peregrinação de romeiros e devotos que subiam e sobem até ao Santuário, para render, aos pés da milagrosa Imagem, o preito de sua fé e de sua gratidão e invocar as bênçãos de sua proteção e do seu socorro piedoso e maternal.

IV Centenário da morte de Frei Palácios

A história registra que, a 2 de maio de 1570, logo após a festa de Nossa Senhora, faleceu o humilde franciscano (1).

Em 1970, quatro séculos após a triste ocorrência, a Igreja, tendo à frente os Franciscanos, resolveu promover as festividades que marcaram a data dessa morte tão cara à devoção capixaba. E, tal como acontecera em 1958, a divulgação do registro histórico precedeu o ano comemorativo. Desde 1968, ou antes, através de publicações várias na imprensa falada e escrita e, da mesma forma, em sermões e prédicas nas igrejas do Estado, chamava-se a atenção dos fiéis, no sentido de se dar o necessário relevo à comemoração de 1970.

No Espírito Santo, em página do jornal "A Gazeta" — edição de 15.10.1968 — Frei Venâncio Willeke O.F.M. escrevia artigo sob o título "Um centenário à vista", rememorando dados históricos sobre a Penha e ressaltando a importância das comemorações: "O famoso Convento-Santuário de Nossa Senhora da Penha prepara-se para comemorar condignamente o IV Centenário da morte de seu fundador o franciscano Frei Pedro Palácios. Se há um jubileu a merecer a atenção dos capixabas é este do santo missionário e primeiro ermitão devoto de Maria Santíssima, falecido em 1570". Esse e outros registros no mesmo sentido mobilizaram a atenção e ativaram a expectativa geral para as próximas festas comemorativas.

Romarias à Penha

Desde o começo do ano, de vários recantos da terra capixaba e de Estados próximos, precedendo o dia da Festa da Penha, inúmeros romeiros chegaram a Vila Velha e, a pé ou de carros, subiram ao Santuário em visita à Virgem da Penha. Estas romarias, que são freqüentes, desta feita assumiram caráter consagratório; pois marcavam mais um centenário da devoção a Maria Santíssima, instituída por Frei Pedro Palácios, o humilde franciscano.

Procissão noturna dos homens

Como início das festividades, realizou-se, a 4 de abril, à noite, concorrida procissão da qual participaram mais de trezentos devotos. A concentração se deu na Praça da Catedral, em Vitória. Dali, às 21 horas o cortejo processional só de homens, se movimentou até Vila Velha, tendo à frente D. João Batista da Mota e Albuquerque, Arcebispo de Vitória.

Da procissão — a maior até então realizada rumo à Penha — participaram também o Sr. Governador do Estado, os Srs. Prefeitos Municipais de Vitória e Vila Velha, autoridades civis, militares e eclesiásticas e grande massa popular. Durante toda a longa caminhada, pelas ruas da Capital, pela estrada que liga esta à cidade de Vila Velha, os romeiros entoavam cânticos e orações, numa impressionante manifestação de Fé, atingindo o cortejo o alto da Penha pela madrugada. No local denominado "Campinho", celebrou-se missa com numerosa presença de comungantes.

A Grande Festa da Penha

Todos os anos, na segunda-feira depois da dominga de Pascoela, se realiza a tradicional Festa de Nossa Senhora da Penha. A ela acorre sempre grande número de fiéis, vindos de vários municípios capixabas e de Estados vizinhos, principalmente Bahia, Minas, Estado do Rio e Guanabara. Sobem a longa e secular ladeira a pé, ou de carro pela estrada pavimentada que os levam até o alto do monte onde se ergue, imponente, o Santuário.

Neste ano de 1970 a afluência do povo foi impressionantemente superior à dos anos anteriores: milhares e milhares de devotos, romeiros de todas as partes estiveram presentes, principalmente no domingo e na segunda-feira, dias 5 e 6 de abril.

Selo comemorativo

Com o propósito de dar maior ressonância às festividades, estendendo-as a todo o país e ao estrangeiro, as autoridades religiosas se articularam com os Poderes Públicos no sentido do lançamento de um selo postal alusivo à Penha. Alcançado o objetivo, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos publicou, em 5 de fevereiro de 1970, o Edital 9/70, fixando o propósito da emissão e as características do selo. Em belo desenho a cores (amarelo, vermelho, azul e preto), reproduzindo o Convento da Penha, o selo, de 20 centavos, foi lançado a 6 de abril desse ano, numa tiragem de 1.000.000. No Espírito Santo, o lançamento oficial ocorreu no dia 7, às 11 horas, na Sala dos Milagres do Convento, sendo expressivo o número de fiéis e interessados que compareceram ao ato.

A estátua de Frei Pedro Palácios

Participando de todas as festividades que congraçaram tão grande número de devotos da Padroeira, a Prefeitura Municipal de Vila Velha, então sob a direção do Sr. Gottfrio Alberto Anders, prestou, em boa hora, expressiva homenagem à memória de Frei Pedro Palácios, inaugurando-lhe a estátua na praça fronteira ao pórtico de entrada, começo da secular ladeira que dá acesso à Penha. A obra artística, que se deve ao consagrado escultor Carlos Crepaz, é de bronze e se levanta sobre pedestal de pedra, no qual se lê:

Gratidão do povo capixaba a

Frei Palácios

que legou ao Espírito Santo

o mais glorioso monumento

de Fé e de Cultura 1570-1970

Estes os principais aspectos da grande Festa comemorativa do IV Centenário da morte de Frei Pedro Palácios que, durante mais de dez anos, se deu devotadamente ao Brasil e, particularmente, ao Espírito Santo, no abnegado serviço de Deus, sob a inspiração e a proteção maternal de Nossa Senhora da Penha, de quem foi ele, o pio franciscano, o mais fiel devoto.

Nota 1.

Desde o IV Centenário da morte de Frei Palácios (1970) figura uma lousa junto ao altar do Ecce Homo e à entrada do primitivo santuário, atual capela mor, lembrando aos romeiros a primeira sepultura, com estes dizeres:

"Aqui repousaram de 1570 a 1609 os restos mortais do  Servo de Deus, Frei Pedro Palácios, ermitão-missionário e Fundador deste Santuário".

 

Fonte: Antologia do Convento da Penha, ano 1974
Autor deste texto, pertencente ao CAP. IV: Heribaldo Lopes Balestero
Autor do livro: Frei Venâncio Willeke O. F. M.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2015

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